A frase
“70% dos nossos membros votaram que a emissora KAN [emissora israelita] deveria permanecer na competição”
– Martin Green, director do festival da Eurovisão
O contexto
Numa entrevista conduzida por Pablo O’Hana, conselheiro político e jornalista freelance, e publicada no X, o director do festival da Eurovisão sublinhou que existiu um consenso alargado sobre a participação de Israel no certame, cuja final aconteceu neste sábado, 16 de Maio. Martin Green afirmou, inclusivamente, que a maioria das emissoras que fazem parte da União Europeia de Radiodifusão (UER) votou a favor da permanência de Israel (declarações podem ouvir-se aos 12 minutos e 46 segundos do vídeo abaixo).
Depois da entrevista, utilizadores das redes sociais alegaram que as declarações de Green a este propósito são falsas e que, na verdade, a continuidade de Israel no concurso nunca foi votada.
My exclusive interview with Eurovision director Martin Green?? He tells me:
??Russia could return, even if the war in Ukraine is ongoing
??No EBU discussion of a neutral Palestinian entry
??No room for improvement in the way Israel debate was handled this year
??Happy with every… pic.twitter.com/Ey0hQRraTw— Pablo O’Hana (@PabloOHana) May 15, 2026
Cinco países decidiram boicotar a última edição do festival da Eurovisão devido ao facto de Israel continuar entre os concorrentes: Espanha, Eslovénia, Países Baixos, Irlanda e Islândia. Mas já desde a edição de 2024 que a participação israelita tem gerado polémica.
Nesse ano, concorreu com a canção Hurricane, interpretada por Eden Golan, que terminou no quinto lugar (segundo no televoto). A canção apresentada em Malmö, na Suécia, começou por ter uma letra que teve de ser alterada a pedido da UER. Inicialmente, chamava-se October rain e a sua letra foi interpretada como política devido a alegadas referências ao ataque do Hamas a 7 de Outubro.
Em 2025, com New day will rise, cantada por Yuval Raphael, o país conseguiu um sucesso ainda maior, conquistando o segundo lugar (primeiro para o público). Depois do concurso, vários países levantaram questões acerca do sistema de votação tendo em conta que Israel recebeu 12 pontos (votação máxima) do público de 12 países e do bloco de países extraconcurso. Surgiram, inclusivamente, suspeitas de ter havido uma agência governamental israelita a financiar anúncios e usar contas estatais nas redes sociais para apelar ao voto, como noticiou o PÚBLICO.
Segundo o Guardian, emissoras como a finlandesa e a espanhola referiram a importância de ter a certeza que o sistema de votação não permitia “interferências externas” ou práticas abusivas.
Os factos
Em rigor, não houve nenhuma votação directa sobre a participação de Israel no festival da Eurovisão. Mas vamos por partes.
A 26 de Setembro de 2025, num comunicado enviado à agência Reuters, a UER confirmou que no “início de Novembro” seria realizada uma votação sobre a participação de Israel na 70.ª edição do concurso, numa “reunião extraordinária da Assembleia Geral” que iria decorrer online.
No mês seguinte, dias depois de, a 10 de Outubro, o Governo israelita ter aceitado um cessar-fogo com o Hamas, a votação foi adiada. Em comunicado enviado à AFP, a UER explicou: “À luz dos desenvolvimentos recentes no Médio Oriente, o conselho executivo da UER [reunião de 13 de Outubro] concordou que havia uma clara necessidade de organizar uma discussão aberta e presencial entre os seus membros sobre a questão da participação no Festival Eurovisão da Canção de 2026 (…) Consequentemente, o conselho concordou em colocar o assunto na agenda da sua Assembleia Geral ordinária de inverno, que terá lugar em Dezembro, em vez de organizar uma sessão extraordinária antecipada.”
Entretanto, em Novembro de 2025, a UER apresentou uma série de novas regras de votação com o objectivo de “fortalecer a confiança, a transparência e o envolvimento do público” na edição vindoura do concurso. Em comunicado, elencou algumas “alterações chave” que incluíam “regras de promoção mais claras”, a redução de 20 para dez no número de votos possível por método de pagamento e o regresso da opinião do júri nas semifinais.
A 4 de Dezembro, estas regras foram votadas e aprovadas pelos membros da UER. A união resumiu: “Pediu-se aos representantes dos membros da UER que votassem em segredo sobre se estavam satisfeitos o suficiente com as novas medidas e salvaguardas anunciadas no mês passado, sem haver uma votação sobre a participação no evento do próximo ano”.
Acrescentou, ainda, na mesma comunicação: “Uma grande maioria dos membros concordaram que não era necessário haver uma votação sobre a participação e que o Festival Eurovisão da Canção de 2026 deveria continuar como planeado, com as medidas de segurança adicionais em vigor.”
Como explica o Eurovision World, site especializado em temas relacionados com o concurso, cada país tinha 24 votos (nos países com mais que uma emissora, os votam tinham de ser divididos pelas várias emissoras). Segundo uma imagem captada pelo Guardian nessa Assembleia Geral, em 1122 votos válidos registados, 738 foram favoráveis (65,8%). Houve 284 votos contra e 120 abstenções.
Ou seja, ao aprovarem o novo regulamento, as emissoras aceitaram não votar a participação de Israel no certame. E, em termos práticos, isso desimpediu o caminho para que o país pudesse concorrer na 70.ª edição do concurso. Mas é objectivamente falso que 70% dos membros tenham votado a favor da participação de Israel. Até porque não existiu nenhuma votação directa nesse sentido.
Mas houve quem o tivesse pedido. Em comunicado citado pelo Guardian, a emissora espanhola RTVE alegou que “a presidência da UER rejeitou” o seu pedido para ser feita “uma votação específica sobre a participação de Israel”. O jornal britânico escreveu ainda que havia mais sete países a concordar com o pedido.
O veredicto
A afirmação de Martin Green é falsa. Os membros da UER nunca fizeram uma votação específica sobre a participação de Israel no festival da Eurovisão, apesar de pelo menos um país o ter pedido.
Em Dezembro de 2025 realizou-se uma reunião da Assembleia Geral da união na qual se votou, sim, um novo conjunto de regras para serem aplicadas na edição de 2026. Cerca de 70% dos membros aprovaram este regulamento e, ao fazerem-no, aceitaram que “não havia necessidade” de referendar a participação de Israel.
Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com







