A ética, sublinhou Aristóteles, tem como horizonte último a busca por uma vida boa. No entanto, o desenho das nossas sociedades contemporâneas parece esquecer uma condição fundamental para a concretização desse desígnio: a de que uma vida boa só é realizável quando inclui, de forma concreta e irrecusável, a vida boa do Outro. Hoje, quando discutimos a justiça e a organização das nossas instituições, recorremos frequentemente à palavra “equidade”. Mas quem é, afinal, este Outro a quem tentamos fazer justiça?
Os modelos políticos e sociais dominantes — sejam eles de matriz liberal, redistributiva ou focados nas políticas de reconhecimento — partem quase sempre de um erro de análise: pressupõem um sujeito (seja ele sujeito político ou não) já pré-constituído, abrangido pela Lei (seja ela qual for). Isto significa que as nossas instituições tendem a criar categorias abstratas para arrumar (muitas vezes arrumar longe) a vulnerabilidade humana (quantos guetos são construídos ainda hoje, quantas vezes chamamos bons nomes a situações de verdadeiro deserto social como os lares, espaços de “acolhimento” de migrantes, etc.). Para além da pura categorização do humano, este tipo de política tem outro resultado perverso: quem não se encaixa perfeitamente em nenhuma categoria predefinida pelo Estado ou pela lei permanece na mais absoluta invisibilidade, ou, se quisermos, fora-da-lei.
A tradição ocidental herdou duas visões de hospitalidade e relação. Por um lado, a tradição hebraica, que introduz a exigência ética de acolher o Outro simplesmente pela sua condição de estrangeiro, isto é, de vulnerabilidade, sem exigir contrapartidas ou passaportes de pertença. Por outro, a tradição grega, onde o acolhimento ao estrangeiro era, em si mesmo, condição de humanidade. Uma cidade que não cuida do estrangeiro não é uma cidade inumana por acidente: é-o por essência.
Se saltarmos para a filosofia do século XX, pensadores da alteridade como Martin Buber e Emmanuel Levinas trazem-nos uma alteração substancial: Levinas defende que a ética começa no encontro concreto com o “rosto” (visage) do Outro — um apelo que nos interpela antes de qualquer “contrato social”. Não se trata de uma obrigação abstrata, mas de uma resposta direta a uma presença viva. É aqui que reside a verdadeira raiz da equidade relacional.
A vulnerabilidade não pode continuar a ser tratada pelas nossas instituições como uma exceção ou uma patologia que afeta apenas alguns grupos a quem o Estado estende uma “mão caritativa”. A vulnerabilidade é, na verdade, a nossa condição universal; é o modo de ser que todos partilhamos e que nos constitui, juntos, como comunidade.
É neste ponto que a filosofia de Jacques Derrida nos oferece um modelo político urgente: a ideia de uma “cidade refúgio” como cidade hospitaleira e que traduzimos como sociedade cuidadora. O que seria, na prática, transpor esta filosofia para a nossa governação e para o desenho urbano? Seria desenhar um espaço público e institucional que inverte a lógica burocrática atual. Uma cidade hospitaleira é aquela que acolhe antes de verificar, que cuida antes de categorizar e que responde à presença humana antes de aplicar a frieza da lei.
A equidade de que necessitamos não se resolve apenas com fórmulas matemáticas de redistribuição de riqueza ou com a criação de novas subcategorias legais. Exige uma mudança profunda na nossa disposição ética. Precisamos de recuperar a capacidade de nos espantarmos, de nos admirarmos perante a presença do Outro, diferente, e, por isso, impossível de categorizar. Sublinhemos: a necessidade de cuidado não é uma fase liminar — infância ou velhice — mas uma constante que atravessa toda a existência. A interdependência não é um defeito a corrigir, mas o modo de ser humano.
Precisamos reconhecer que a equidade não é uma concessão que os privilegiados fazem aos menos privilegiados. É o reconhecimento de que a condição de todos nós é a de ter sido constituído por Outros — por quem nos cuidou, por quem nos ensinou, por quem nos sustentou, por quem nós não reconhecemos e que, no entanto, nos fez.
Só através deste espanto ético seremos capazes de desenhar instituições que não olhem para os vulneráveis como uma estatística ou uma categoria administrativa, mas que reconheçam a exigência infinita de cada encontro humano. A verdadeira justiça começa na delicadeza do cuidado concreto e na coragem de construir uma cidade onde todos, sem exceção, tenham direito a um rosto.
(Uma versão longa deste artigo pode ser encontrada: Equidade, a perspectiva da ética do cuidado e da hospitalidade, publicação do Instituto de Estudos Filosóficos, 2026.)
O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com





