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Semanas atrás, no aeroporto de Lisboa, a simpática agente de imigração perguntou-me qual era o meu trabalho em Portugal. Respondi que sou pesquisador em uma universidade, e ela, muito surpresa com a resposta, perguntou em qual área. Complementei que tenho um contrato de trabalho no Instituto de História da Arte da Universidade Nova de Lisboa.
Meses antes, no balcão da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), quando finalmente pude entregar minha documentação para receber minha autorização de residência, surpresa semelhante foi manifestada pelo também simpático funcionário que me atendeu. E ainda antes disso, vi espanto similar no rosto de uma funcionária da Junta de Freguesia quando dei a ela a mesma resposta para a mesma pergunta. Desde então, às vezes, como agora, me pergunto: por que o espanto, malta?
É evidente que não tenho uma resposta certa, a começar pelo fato de que não perguntei aos meus surpreendidos interlocutores o motivo de tanta surpresa. Mas, é claro, tenho comigo algumas desconfianças. Será que, por hábito estatístico, ao se deparar com um brasileiro, ou brasileira, imagina-se que ele ou ela trabalha na construção civil, limpeza ou restauração, os quais, aliás, também são os trabalhos altamente qualificados que as políticas de ultradireita fingem não entender? Talvez.
Possivelmente porque alguns portugueses, por hábito midiático, quando escutam alguém falando português do Brasil, suas mentes ativam a imagem do brasileiro jogador de futebol ou, mais recentemente, dos youtubers e memes brasileiros? Quem sabe.
Aos 34 anos, pareço jovem demais para trabalhar em uma universidade que, aos olhos do português afastado do ambiente acadêmico, ainda é o lugar por excelência daquele envelhecido professor português da Universidade de Coimbra, de terno e gravata, que fala baixo e pausadamente?
É possível, embora esta imagem já não reflita, ao menos não totalmente, o rosto coletivo das universidades portuguesas hoje, que abrigam colegas italianos, alemães, palestinos, russos, poloneses e… brasileiros. Afinal, é difícil para alguns portugueses imaginar um brasileiro na condição de professor, investigador ou intelectual em universidades portuguesas? Talvez.
“Quando me espanto, nunca me espanto tanto assim”
Senhoras e senhores de olhos espantados, eu vos entendo, pá! Também me espanto, às vezes, já que não sou o imigrante de elite. Sou, na verdade, o imigrante quebrado que cá chegou com um contrato de trabalho garantido em uma universidade portuguesa. Saí do Brasil porque, no fim de contas, me juntei a uma diáspora de profissionais que não encontraram trabalho no país; ou até mesmo porque alguns são profissionais que, como eu, não souberam navegar pelas redes informais de poder para conseguir uma vaga de trabalho em uma universidade brasileira.
Mas esse é o perfil do “novo intelectual”, diz um artigo naquela revista científica que alguém pagou para publicar: o intelectual exilado do pós-guerra já foi substituído pelo imigrante econômico, aquele que carrega consigo uma experiência de periferia e um cosmopolitismo que muitos profissionais locais não possuem. Então, naveguemos, malta! Hiperqualificados, cosmopolitas, exilados e, em grande parte dos lugares, cada vez mais precarizados.
O escritor palestino-americano Edward Said, também ele um imigrante, um dia escreveu que o pesquisador ou intelectual não é o especialista confortável dentro de uma tradição nacional, mas sim aquele que, como o imigrante ou o expatriado, mantém um olhar crítico onde quer que esteja. É por isso que, quando me espanto, nunca me espanto tanto assim.
Há pouco mais de 10 anos, quando ainda morava no Brasil, lembro que um colega brasileiro também se espantou quando eu havia dito que, de vez em quando, é preciso ler, pensar e escrever como bicha. Desde então, foi isso que fiz. É isso que tenho feito.
Agora mesmo, inclusive, escrevo como a “bicha do Pau-Brasil”. Sou como um produto de exportação que, por não admitir menos que um continente aberto, trabalha com arte europeia. E faço isso a partir deste trânsito antropofágico que, às vezes, também me espanta. Como há espantos neste mundo espantoso!
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