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A quadra é o palco, o corpo é linguagem e a cidade, cenário e personagem. É a partir dessa tríade que o jovem fotógrafo brasileiro Dante Prochet constrói Basquete: O Manifesto, exposição inaugurada em Portugal que transforma o esporte em narrativa visual sobre cultura, identidade e pertencimento. A mostra está em cartaz no Temporada Social Club, na Rua da Torrinha, 151, no Porto, até 14 de julho.
Aos 20 anos, dos quais cinco vivendo em Portugal, Prochet estreia com um trabalho que já nasce maduro — tanto na proposta estética quanto na densidade simbólica. A exposição deriva de um livro concebido como projeto final acadêmico e agora ganha escala e presença física, ocupando o espaço expositivo com imagens que pedem mais do que contemplação: exigem envolvimento.
“O manifesto é uma declaração pública”, explica o fotógrafo. “Quis mostrar, pelas minhas fotos, a cultura do basquete de rua”, acrescenta. A escolha do termo não é casual. Em vez de um registro esportivo tradicional, Prochet propõe uma leitura ampliada do basquete, como fenômeno social que atravessa fronteiras, conecta realidades e revela tensões.
O eixo central do trabalho está no diálogo entre Lisboa e Nova York, duas cidades com contextos distintos, mas surpreendentemente conectadas pela linguagem universal do jogo. “Nova York é o centro mundial do basquete de rua, um lugar que eu vivi. Quis mostrar como essas duas realidades tão diferentes se comunicam de forma tão parecida”, afirma.
Muito além do jogo
O que interessa ao artista não é apenas a estética do movimento ou a beleza técnica do esporte, mas aquilo que acontece ao redor: os encontros, os rituais, os espaços e suas histórias. Em Nova York, por exemplo, as quadras fotografadas carregam um peso histórico quase mítico — locais onde passaram jogadores profissionais e onde nasceram lendas.
Dante Prochet
Esse olhar desloca o foco do desempenho para a vivência coletiva. A quadra deixa de ser apenas um espaço físico e se transforma em território simbólico, onde identidade, resistência e expressão se entrelaçam.
A linguagem visual de Prochet bebe de referências importantes da fotografia, especialmente de William Klein. “Gosto da estética dele por ser cinematográfica, mas também mais rough, menos limpa”, afirma. Essa opção estética se traduz em imagens que parecem pulsar, captando a energia bruta da rua.
Outras influências, como Robert Adams, aparecem de forma mais sutil, contrastando com essa abordagem mais visceral. O resultado é um equilíbrio entre o documental e o sensorial — imagens que não apenas mostram, mas fazem sentir.
Entre celebração e crítica
Embora carregada de beleza e dinamismo, a exposição não romantiza o universo que retrata. Duas imagens-chave sintetizam essa dualidade: Quadra Quebrada e Shots Over Gunshots. Nelas, Prochet aborda também as fragilidades desses espaços — da violência urbana em Nova York à falta de incentivo e infraestrutura em Lisboa.
A Quadra Quebrada, por exemplo, nasce de uma experiência pessoal. “Era uma quadra perto da minha casa. Tiraram a cesta por causa do barulho. Toda uma comunidade que vivia em torno daquele espaço simplesmente deixou de existir”, relata. A imagem carrega, assim, não apenas valor estético, mas uma carga emocional profunda.
Outro eixo forte do trabalho é o contraste entre o basquete de rua e o basquete federado. Enquanto o segundo é regido por normas rígidas — uniformes, regras, arbitragem —, o primeiro se afirma como espaço de liberdade.
“Na rua, você joga e se veste como quiser. É uma liberdade total”, diz Prochet. Essa dimensão aparece nas imagens por meio das roupas, dos gestos e das atitudes dos jogadores, compondo um retrato autêntico da cultura urbana.
Da tela ao espaço físico
Em tempos dominados pelas redes sociais, o fotógrafo também reflete sobre a experiência da imagem. Para ele, há uma diferença marcante entre ver uma fotografia no celular e vivenciá-la em uma exposição.
“No telefone, você perde coisas importantes, como a textura, o brilho do papel. Minhas fotos são impressas em papel glossy, e isso muda completamente a experiência”, frisa. Ao mesmo tempo, reconhece o papel das redes como ferramenta de divulgação, ainda que com limitações. “É um equilíbrio: elas impulsionam, mas também tiram um pouco”, emenda.
Mais do que um projeto individual, Basquete: O Manifesto é, segundo o artista, resultado de encontros. “Foi feito ao longo de vários dias, com pessoas diferentes, em quadras diferentes, em momentos diferentes”, conta.
Essa dimensão coletiva é central para a proposta da exposição: criar no espectador a sensação de pertencimento e reconhecimento. “Quero que as pessoas sintam essa comunidade e pensem onde isso existe na vida delas”, sublinha.
Um começo promissor
O convite para a exposição surgiu de um coletivo com o qual Prochet já mantinha relação próxima. A estreia precoce — e bem-sucedida — surpreende o próprio artista. “É muito gratificante. A expectativa que eu tinha já foi superada”, diz.
Se depender da força desse primeiro trabalho, Basquete: O Manifesto não será apenas uma estreia, mas o início de uma trajetória consistente. Um olhar jovem, mas já consciente de que, na fotografia — como no basquete de rua —, o mais importante não é apenas o jogo, mas tudo o que acontece em volta dele.
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