Roberto Bomtempo fala da solidão do idoso em peça com sua mãe em Portugal

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De seu apartamento em Oeiras, na área metropolitana de Lisboa, o ator Roberto Bomtempo, 62 anos, e sua mãe, a atriz Regina Sampaio, 87, contam por videochamada ao PÚBLICO Brasil como é trabalhar em família e ser praticamente vizinho um do outro. A dupla carioca está em cartaz com a peça Duas Mãos, até 30 de maio, no Teatro Independente de Oeiras (TIO).

Na história, escrita pelas também atrizes Ingrid Guimarães e Carol Machado, Regina interpreta uma avó chamada Mithése. Já Bomtempo assina a adaptação e a direção do espetáculo, que toca em assuntos delicados como o abandono na terceira idade e a falta de moradia. É a primeira vez que mãe e filho fazem um projeto juntos em Portugal. No Brasil, a parceria é mais antiga.

“Eu fui produtora dele durante 25 anos, antes de ser atriz”, diz Regina. “É bom e, ao mesmo tempo, é ruim trabalhar junto. O lado bom é que a gente tem mais liberdade um com o outro. E o ruim é que, às vezes, ele fala umas coisas para mim, que, na verdade, ele tinha vontade de dizer para os outros atores, porque comigo o Roberto pode falar de qualquer jeito”, entrega.

Diante da queixa, Bomtempo logo interrompe a mãe. “Isso é o que ela acha, eu não acho, não. E eu também não fico dando beijinho nos outros atores, não fico de chamego com eles”, brinca o ator, olhando carinhosamente para a mãe. Regina trocou Arraial d’Ajuda, na Bahia, por Portugal há um ano e meio, após a filha, Cláudia, morrer de câncer, aos 58 anos de idade.

“Eu vim para Portugal para passar alguns meses, aluguei um apartamento e acabei ficando”, comenta atriz, que segue em frente no trabalho. Ela acha que tem semelhanças com sua personagem. “Eu queria fazer a outra avó, a Ássima, que é portuguesa, porque sou totalmente diferente dela. Não sei cozinhar, não gosto de arrumar casa. Mas o Roberto falou para eu fazer a Mithése, porque ela tem muito a ver comigo, porque a pessoa não precisa estar toda caída só porque é idosa. Minha personagem mostra que, apesar de estar com mais de 80, não precisa ser uma inválida”, frisa.

População mais velha

Com uma população tão envelhecida no país que escolheu para viver há cinco anos e meio segundo o Instituto Nacional de Estatísticas de Portugal (INE), a população idosa no país (acima de 65 anos), em 2024, era de 24,3% do total , Bomtempo conta que fez adaptações ao texto original. Duas Mãos, frisa ele, era uma comédia mais escrachada, com Ingrid Guimarães e Carol Machado, nos anos 1990, se revezando entre os papéis de avós e netas.

“Era engraçado ver duas meninas tão jovens fazendo essas personagens, mas, hoje, não enxergo mais a peça como uma comédia. Mas também não é um drama”, avisa ele, que acrescenta: “Achei que falar sobre essas avós teria eco com o público, porque Portugal tem muitas idosas, viúvas. E vejo muito idoso abandonado à própria sorte. Isso é triste. Sempre falei para os meus filhos e para os meus sobrinhos que a gente foi criança e dependente dos nossos pais durante muito tempo. Então, temos a obrigação de cuidar deles na velhice. A vida só se completa se a gente cumpre esse ciclo. Não quero levantar nenhuma bandeira, mas a peça provoca essa reflexão”.

Duas Mãos toca também em um assunto delicado aos portugueses e aos imigrantes: a gentrificação no país.”A avó brasileira não tem mais condições de pagar o aluguel da casa onde viveu a vida inteira e é despejada. Isso tem acontecido com muitos portugueses e imigrantes, na última década, pelo menos”, pontua o ator e diretor.

Pesadelo com Ventura

Com a atriz brasileira Jéssica Juttel e os atores portugueses Gonçalo Lima e Paula Carvalho no elenco, Bomtempo ainda aborda temas como a imigração. “A avó portuguesa recebe a avó brasileira na casa dela. E, com o tempo, a gente chega à conclusão de que a convivência com uma mulher, da idade dela, lhe fez muito bem”, explica. “A peça mostra que a vida é uma troca, que passar todo o tempo só ao lado de quem é igual a você, deve ser muito sem graça, pobre. Eu não tenho medo de conviver com pessoas diferentes de mim. Pelo contrário, isso me instiga”, enfatiza Bomtempo.

E ele complementa, com uma provocação a André Ventura, líder do partido populista Chega. “Tem um momento do espetáculo que a avó portuguesa fala assim: ‘Tive um sonho horroroso essa noite. Eu estava no futuro e tinha um sujeito português, que inventou de ser presidente da República, e o grande projeto dele era mandar todos os imigrantes embora de Portugal. Fiquei com medo”.

Casado com a atriz carioca Miriam Freeland, 47, Bomtempo, além da peça, está gravando, em Portugal, a série Máximo Risco, de Luís Ismael, com previsão de lançamento para o fim deste ano, na SIC. Já Miriam foi escalada para fazer a série A Ira do Herdeiro, da TV Record, no Rio de Janeiro.

“Entre outubro e novembro deste ano, a ideia é estrear uma temporada em Lisboa. E, no ano que vem, quero levar Duas Mãos para o Rio”, planeja o ator. “Eu sempre quis montar essa peça. Quando a minha mãe se mudou para Portugal, e tinha uma personagem com a idade dela, pensei: chegou a hora.”

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