Quando o amor confunde presença com domínio

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A chegada do filme Michael reacende uma questão que, para mim, ultrapassa a biografia de Michael Jackson. Ao olhar para a relação entre pai, filho, talento, exigência e dor, vejo um retrato de algo que atravessa muitas famílias: a violência de um masculino que não aprendeu a medir a própria força.

Essa violência nem sempre aparece como agressão física. Muitas vezes, ela se instala no controle, na humilhação, na cobrança e na crença de que endurecer uma criança é prepará-la para a vida. Há pais que acreditam que exigir é amar. Que moldar é proteger. Que impedir o erro é construir caráter.

Mas uma criança não nasce para confirmar o ego dos pais. Ela nasce como sujeito em formação, com ritmo, medo, desejo, corpo, imaginação e linguagem própria. Quando um adulto ocupa todo esse espaço com expectativas, a infância deixa de ser experiência e se transforma em tarefa.

Vejo, nesse ponto, uma das feridas mais profundas do vínculo entre pais e filhos. A criança controlada aprende que não pode simplesmente ser. Ela precisa acertar, render, agradar, sustentar orgulho, evitar decepção. Com o tempo, pode se tornar alguém admirado por muitos e, ainda assim, permanecer internamente faminto de colo.

A ferida narcísica nasce quando o amor chega condicionado ao desempenho. O sujeito passa a acreditar que precisa brilhar para existir. Que precisa encantar para ser escolhido. Que precisa corresponder para ser amado. Essa lógica pode produzir sucesso, mas também pode deixar uma solidão que aplauso algum consegue reparar.

Também é preciso olhar para os pais. Muitos homens que ferem seus filhos foram crianças emocionalmente negligenciadas. Cresceram em culturas que ensinaram a conter lágrimas, negar fragilidade e trocar ternura por comando. Sem contato com a própria dor, descarregam sobre os filhos aquilo que nunca conseguiram elaborar.

Isso não absolve a violência. Mas ajuda a compreender sua cadeia. A brutalidade raramente começa no momento em que aparece. Ela costuma vir de uma história de silêncio, medo e desamparo, transmitida de geração em geração como se fosse método educativo.

Amar não é invadir a subjetividade de um filho. Não é fazer dele uma extensão da própria biografia. Não é exigir perfeição emocional de quem ainda está aprendendo a nomear o que sente. Amor exige limite, mas limite não é anulação.

Tenho pensado cada vez mais que crianças não precisam de pais perfeitos. Precisam de pais conscientes do impacto que exercem. Adultos capazes de pedir reparação quando erram, de reconhecer excesso quando ultrapassam a medida e de compreender que força sem escuta pode virar destruição.

O amor verdadeiro não molda até sufocar. Ele revela. Permite que o filho apareça, erre, descanse, questione, amadureça e exista sem a obrigação de salvar a história emocional de quem veio antes. Nesse espaço, a infância encontra algo que nenhuma fama substitui: pertencimento.

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