Os irredutíveis do Bairro Alto resistem (ainda)

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No último mês, partiram-me o vidro do carro duas vezes. Não foi no Bairro Alto, mas praticamente. Há muito que não acontecia uma coisa do género e disseram-me na esquadra que tem acontecido mais do que devia. Talvez não ajude o momento que a esquadra atravessa, mas é estranho este sentimento de desconfiança num bairro onde sempre me senti em casa.

Não serve isto para dizer que o Bairro Alto se tornou inseguro. Não o sinto assim. Fora estes episódios com o carro, o que tenho para contar são sobretudo histórias de partilha e de um sentido de comunidade cada vez mais raro numa cidade. No meu prédio, sei o nome de todos os meus vizinhos. Na minha rua, sei o de muitos e mais ainda sabem o da minha filha. Têm-na visto crescer. Da minha barriga ao carrinho, aos passos atabalhoados, da bicicleta com rodinhas e depois sem elas.

Às vezes, lembra-me Paredes de Coura, onde cresci. Seguimos independentes, mas há sempre alguém de olho. Desaparecemos uns dias da vista e logo surge a pergunta: “Está tudo bem? Tem andado desaparecida”.

O senhor Ilídio é uma destas pessoas. É encadernador há 60 anos numa pequena oficina e como em tempos se multiplicavam entre o Bairro Alto e o Chiado. Tem passado a vida aqui e conta tantas histórias como os livros e os álbuns que todos os dias faz renascer. Fica com o correio e as encomendas quando alguém não está, passa recados, guarda chaves, empresta guarda-chuvas e acode aos inúmeros imprevistos da vida quotidiana.

É uma certeza num bairro cada vez mais incerto, onde um hospital pode ser substituído por um hotel de luxo, uma Loja com História não encontra protecção suficiente e uma mercearia antiga tradicional acaba por fechar contra a vontade dos seus proprietários, como aconteceu com a dona Augusta no final do ano passado. A Dona Augusta, já em idade de descansar, bem tentou ficar, mas não teve hipótese – nem tempo, já agora, para se despachar de tudo.

Também ela era uma facilitadora da vida. Conhecia as preferências de cada vizinho, encomendava à medida e se não houvesse dinheiro na hora, apontava, assim mesmo, à moda antiga. Tudo isto em pleno centro da capital, e não numa pequena aldeia. Soube há pouco tempo que ainda não se habituou. E compreendo. Como é que se troca uma rotina de visitas e caras conhecidas por um dia a dia mais solitário?

O senhor João e o senhor Carlos também saíram do Cantinho da Rosa e, por mais caras conhecidas que por lá permaneçam, não há despedida que não deixe o bairro um pouco mais vazio. E escrevo isto, acabada de saber, com este trabalho, pela presidente da junta, que o talho também vai fechar.

O que nos resta? Quem ainda decide ficar e quem se aventura a chegar. Quem acredita que o Bairro Alto pode continuar a ser mais do que um cenário de passagem e que, no coração da cidade, ainda é possível viver com a proximidade de uma aldeia. Pessoas como o Guram Baghdoshvili e o Pedro Carvalho, o Tiago Alves, a Joana Pinho ou o João Ramos. São uma lufada de ar fresco, mas também uma continuidade. Gente que abre portas, cria pontos de encontro, conhece os vizinhos e, à sua maneira, vai assumindo o papel que outros tiveram antes.

Ficar é, hoje, um acto de resistência. E vontade de criar raízes é um acto de coragem. Mas não chega. A Câmara precisa de agir. O Governo também. É preciso fixar moradores. Lembremo-nos só que quando tudo for igual, já não haverá nada para contar.

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