Estruturas de defesa na Caparica sofreram impacto de ondas com 15 metros em Janeiro

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A Costa de Caparica enfrentou ondas de 14 a 15 metros em Janeiro, o que significa uma carga de energia considerada “muito forte” contra os esporões, o paredão e as dunas que defendem a cidade do impacto do mar.

“É realmente muito forte, ondas muito energéticas e durante muito tempo”, disse à agência Lusa o investigador José Carlos Ferreira, do Departamento de Ciências de Engenharia do Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT-UNL).

Durante os meses de Janeiro e Fevereiro, em que Portugal enfrentou sucessivas depressões atlânticas, a Costa de Caparica esteve sujeita a agitação marítima “muito elevada a extrema”, com vários episódios de tempestade que deixaram marcas na praia. A reposição de um milhão de metros cúbicos de areia está em curso, mas também os esporões sofreram danos, ficando parcialmente destruídos, com o impacto das ondas.

“Quando olhamos para a praia, vemos que o paredão está descalço, a obra aderente está descalça. Perdeu-se muita areia, houve um impacto grande aqui”, observou José Carlos Ferreira durante uma entrevista à Lusa, realizada junto à praia. “Vamos ter de viver com esta dinâmica daqui para a frente. O mar vai, possivelmente, ter uma maior energia e também vamos ter alterações nos ecossistemas. Vamos ter, se calhar, de reforçar mais vezes estas áreas, seja a infra-estrutura cinzenta, como o paredão e os esporões, seja os enchimentos de praia.”

Os parâmetros registados para esta zona, naquele período, traduzem “um estado de mar de elevada energia, com forte potencial de galgamento e erosão”, instabilização das arribas e risco para os utilizadores da orla costeira, de acordo com os dados facultados à Lusa. “Vamos ter de reforçar também os sistemas dunares. Parece-me a estratégia mais interessante, porque ao reforçar uma duna, em termos de investimento financeiro, é muito menor e, ao mesmo tempo, reforçamos um ecossistema, uma paisagem natural. É muito mais interessante para o turismo e também na perspectiva da ecologia”, acrescentou.

Repor a legalidade

Na mesma entrevista, José Carlos Ferreira considerou que é urgente “repor a legalidade” nas praias da Caparica, face às construções ilegais que estão a intensificar-se e à manutenção de apoios de praia no cordão dunar. “Na Fonte da Telha não temos construções legais, com excepção de uma ou outra, a maior parte é tudo construção ilegal e está a intensificar-se.”

Repor a legalidade, explicou, pressupõe “retirar a Cova do Vapor” e renaturalizar a Fonte da Telha, demolindo as casas ilegais e relocalizando a comunidade piscatória num local mais seguro, mantendo a pesca. Os bares e restaurantes na praia terão também de recuar, ao abrigo dos instrumentos de ordenamento do território, assegurou. “Isto é o que está previsto nos planos, se forem bem executados”, acrescentou, referindo-se ao programa da orla costeira e aos planos de intervenção de praia.

Para José Carlos Ferreira, é preciso “coragem política” e financiamento para resolver questões que acarretam custos financeiros e sociais: “Temos de ter essa consciência também, tem de haver aqui algum equilíbrio”. De acordo com o investigador, Portugal tem bons planos, mas precisa de dotar a Agência Portuguesa do Ambiente, o Instituto de Conservação da Natureza e as câmaras municiais que actuam no litoral, de meios humanos especializados e recursos financeiros para que possam executar o que está previsto, em alguns casos há dez ou 15 anos.

“Não pode continuar como está a acontecer hoje. Quando tentamos repor a legalidade, temos logo uma providência cautelar, temos o Tribunal Administrativo a interromper e isto fica parado. A nossa justiça não é célere e isto aqui é um grande problema. Temos de ser céleres na aplicação e na reposição da legalidade, senão o crime compensa”, defendeu. “Temos pessoas que vivem há anos aqui nas casinhas que estão sobre as dunas na Praia da Saúde. Das 44 casas de madeira, a maior parte já não tem nada a ver com as casas que os pescadores transportaram. Já foram todas refeitas, algumas delas com gosto duvidoso, e estão no Airbnb a 300 euros por dia. Isto em cima da duna!””

De acordo com José Carlos Ferreira, o Estado já tentou por diversas vezes demolir aquelas casas. “É muito importante a reposição da legalidade com urgência, porque se não estamos a dar a ideia de que o crime compensa e isso não é aceitável. E é a mesma coisa nos apoios de praia”, exemplificou. Segundo o investigador, a maior parte dos concessionários tem consciência da fragilidade do local onde opera, mas outros actuam como se a praia fosse propriedade privada.

Além disso, assinala que manter a cidade na Costa de Caparica implica “um compromisso para a vida” com a manutenção das estruturas de contenção do mar. Desde o início do século, o mar avançou pelo menos 200 metros, o que leva os cientistas a estudarem todos os cenários, incluindo a retirada da cidade, a renaturalização da Cova do Vapor, com demolição das construções, e a relocalização da Fonte da Telha.

“Conseguimos identificar pelo menos 200 metros de recuo [da linha de praia], o que é bastante, sobretudo na área em frente à Cova do Vapor”, disse o investigador.

De acordo com José Carlos Ferreira, que tem trabalhado no terreno com a equipa da Faculdade de Ciências e Tecnologia, o que está a acontecer nesta zona acontece noutras áreas baixas e arenosas da costa portuguesa. A “grande diferença” é que na Costa de Caparica existe uma cidade. “Esta zona é mais crítica”, admitiu, ao referir-se à subida do nível médio do mar.

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