O número de casos confirmados de ébola na República Democrática do Congo continua a subir diariamente e esta segunda-feira ultrapassou a centena, mas a verdadeira dimensão do surto “é muito maior” e, neste momento, as autoridades de saúde ainda correm atrás do prejuízo. “Estamos a acelerar as operações, mas a epidemia está a ultrapassar-nos”, admitiu o director-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Ao início da tarde desta segunda-feira, Tedros Adhanom Ghebreyesus fez um novo balanço do surto, informando pelas redes sociais que “há mais de 900 casos suspeitos e 220 mortes suspeitas” na RD Congo. Casos confirmados são 101 e as mortes uma dezena. Entretanto, no Uganda, contabilizam-se agora sete pessoas com Ébola, depois de se terem identificado dois profissionais de saúde que contraíram a doença.
“Esperamos que mais casos sejam identificados nos próximos dias e semanas”, escreveu Ghebreyesus, explicando que é essencial identificar todos os contactos de risco das pessoas infectadas para “controlar o surto”.
Na província de Ituri, na RD Congo, essa missão é dificultada pelas desastrosas condições humanitárias em que vivem cerca de cinco milhões de pessoas, muitas delas forçadas a fugir de suas casas devido à guerra civil — que, tal como o surto de Ébola, tem naquela zona o seu epicentro. “Em Ituri, muitas pessoas têm dificuldade em obter cuidados de saúde e vivem em permanente insegurança”, descrevia, na semana passada, a coordenadora adjunta dos Médicos Sem Fronteiras para o combate ao ébola no país, Trish Newport.
Além disso, a guerra civil, que opõe as Forças Armadas congolesas ao movimento rebelde M23, que controla algumas zonas onde há casos confirmados de ébola, dificulta a actuação das autoridades de saúde, que se vêem envolvidas em manobras diplomáticas para coordenar a resposta ao surto.
O director do Centro Africano de Controlo e Prevenção de Doenças, Jean Kaseya, avisou no domingo que “este é um problema regional” e não exclusivo apenas da RD Congo. “Quem pensa que isto é um assunto só da RD Congo terá uma surpresa, como aconteceu durante a covid”, alertou. O Congo, o Uganda e o Sudão do Sul já definiram um orçamento a rondar os 274 milhões de euros para combater o surto, mas ainda não se sabe exactamente de onde virá esse dinheiro. A África do Sul comprometeu-se a doar cerca de cinco milhões de euros, enquanto a União Europeia, os Estados Unidos e vários outros países também prometeram ajudar.
Ataques a hospitais
No domingo à tarde, um grupo de pessoas tentou entrar num hospital onde estão a ser tratados pacientes de ébola, no Congo, exigindo que os corpos de familiares mortos lhes fossem entregues. É pelo menos o terceiro episódio deste género desde a identificação do surto, o que obrigou as equipas da Cruz Vermelha que estão na linha da frente a enterrar os corpos com escolta de polícias fortemente armados.
Os corpos de infectados com ébola são muito contagiosos e as autoridades congolesas proibiram a realização de velórios e funerais com mais de 50 pessoas na zona afectada pela epidemia, numa tentativa de conter a propagação da doença.
Familiares e amigos revoltados com a impossibilidade de se despedirem dos seus entes queridos tentaram entrar no hospital de Mongbwalu por quatro vezes. A polícia teve de ser chamada e disparou tiros para o ar. No meio da confusão, pelo menos sete pacientes com ébola fugiram das instalações — no dia anterior, durante um ataque a tendas dos Médicos Sem Fronteiras na mesma localidade, tinham já desaparecido 18 pessoas com casos confirmados.
“Existe negação da doença entre a população”, disse à Reuters o director clínico do hospital de Mongbwalu, Richard Lokodu.
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