Dizem os entendidos na matéria que as moscas zumbem em fá. Mas… o que aconteceria se alguma delas não soubesse ou conseguisse acompanhar a escala e quisesse afirmar-se e mostrar os seus dotes zumbindo de forma diferente? Foi com esta reflexão que Ana Stilwell se lançou à escrita de A Mosca Que Não Sabia Zumbir, livro para a infância ilustrado por Vítor Hugo Matos, publicado em 2025 e destacado na sessão que levou a autora à Escola Básica do Seixal, na Lourinhã, a convite do 14.º Livros a Oeste – Festival do Leitor.
No encontro, a que o PÚBLICO assistiu, estava uma plateia composta por cerca de três dezenas de crianças do pré-escolar, entre os três e os cinco anos, animada e empenhada em acompanhar as melodias e cantorias a uma só voz. Tal como quando queremos cantar uma música ou contar uma história, aqui precisamos da voz, de preferência afinada. Venha então o aquecimento: escutam-se os “vvvvvvvv” do avião, os “bzbzbzbzbzbzzzz” da abelha, os “vrummmm” do carro, o “tinóni” a subir e a descer na escala, mais os ritmos com palmas e os batuques nos joelhos, e temos o coro pronto para, sob a batuta imaginária da maestrina e a variar entre o forte e o pianíssimo, entoar O Balão do João, seguido por temas da safra de Stilwell, acompanhados à viola, como Fiz-te a ti, uma espécie de manifesto sobre o amor de mãe, ou a música da “Dona Birra” que teve forte aceitação (e identificação) por petizes e educadoras, com notas sobre as birras e formas de as enxotar.
É com esses ecos nos ouvidos que se escuta a aventura de Luz, a tal mosca que não sabia zumbir, e se passa a lição de que às vezes “o que parece errado” e fora da caixa pode revelar-se algo “surpreendente e bonito”, basta acreditar. Vitória, vitória, acabou-se a história. No final, ainda se ouve um “bzzzz” aqui e ali, e algumas das crianças ficam na fila dos abracinhos à autora.
O “superpoder” da imaginação
Sem grande explicação científica de como funciona mas com toda a moldura empírica na bagagem, a capacidade que o ser humano tem de inventar histórias e brincar com a imaginação é, para o escritor David Machado, uma “espécie de superpoder”. Dá para criar “coisas que não existem na realidade, em lado nenhum do universo” e até para as ver, pegando em imagens que temos em separado na memória, juntando e compondo uma nova, que pode até ser “maluca” e “completamente ridícula”.
É com a imaginação que criamos coisas importantes para a nossa vida (cadeiras, roupas, casas…) e também, e não menos importante, criamos histórias. “Nós, seres humanos, precisamos de ouvir, de contar, estamos sempre a contar histórias uns aos outros. De alguma forma, o nosso cérebro funciona melhor quando a informação chega através de uma história”, partilha o autor com a turma do quarto ano que o recebe na Escola Básica de Ribamar.
O gosto por contar e compilar tudo o que tinha dentro da cabeça em histórias, “palavras, imagens, pensamentos, ideias e memórias”, já vem de longe, desde tenra idade. E no que toca à área infanto-juvenil, teve o seu primeiro fruto há 20 anos, com A Noite dos Animais Inventados, com o qual ganhou um concurso de escrita. A partir daí, abriram-se os caminhos a novas linhas. O Tubarão na Banheira, livro ilustrado por Paulo Galindro e recomendado no Plano Nacional de Leitura, é só, e nas palavras do autor, “um grande disparate”. Não foi um acaso: “era precisamente esse o objectivo: escrever a história mais ridícula de que eu fosse capaz”, confidencia aos alunos com idades entre os nove e os dez anos.
Município da Lourinhã/Rafael Malvar
O Alfabeto Nojento e Os Números Nojentos, que fez em dupla com o ilustrador David Pintor e onde se contam as aventuras de Henrique, Um Rapaz Que Gosta de Fazer Asneiras, com a ajuda de letras e números; e O Meu Cavalo Indomável, com desenhos de Ricardo Ladeira e poemas e rimas que vão do sério ao disparatado, são outras das passagens durante a sessão.
Lembrando que há episódios aqui relatados que são “coisas que acontecem na vida” e sublinhando que estes “não são livros de instruções” – lá vem à baila o “A do arroto que o Henrique deu na bochecha da tia em vez de um beijinho”, o “J do jantar de Natal que ele salpicou com macacos do nariz” ou o “M do mel que barrou na cadeira da professora” –, a ideia central é a que a imaginação tem um papel crucial, que às vezes “se intromete demasiado” e falha a preencher o que falta na realidade, mas que, contas feitas, nos prepara para a vida.
A festa da poesia
E o que se aprende com a poesia? “O que é isto de ser poeta?” A pergunta lançada por João Morales, co-programador do Livros a Oeste – Festival do Leitor, na sessão que tem lugar na Escola Dr. Afonso Rodrigues Pereira, é dirigida a Fátima Vale e Vasco Gato, convidados de A Poesia Vai à Escola.
É sob o olhar atento de alunos do 10.º e 11.º ano, entre os 15 e os 16 anos, que ensaiam a resposta. Fátima conta que a poesia “é uma necessidade”, que começou a escrever “não por arranjo ou chamamento”, mas como “forma de fixar o que vivia e sentia, o que a atravessava” quando “aterrou” em Trás-os-Montes vinda de uma África do Sul marcada pelo apartheid. Também para Vasco, esta é uma dimensão fundamental: “não é uma ocupação a tempo inteiro, mas antes uma forma de respirar”, confidenciando ao auditório que pode até deixar de escrever poemas, mas nunca vai deixar de os ler. E lembrando uma frase que lhe passou pelos olhos, “ser sincero ainda não é poesia”, explica que o poema nasce num plano não-verbal, numa emoção, e transforma-se num processo cerebral para se fixar, resultando de “uma livre articulação” entre o que sentimos e o que escrevemos sobre o que sentimos.
A fórmula não é matéria exclusiva dos “profissionais”: uma das alunas presentes destaca o gosto por Fernando Pessoa e seus heterónimos e conta que também gosta de escrever: “sou uma pessoa muito calma e quando não estou assim tão calma prefiro escrever, passo o que sinto para o papel”. Uma forma de se decifrar a si própria e de trabalhar as motivações e as inquietações.
Município da Lourinhã/Rafael Malvar
Outra matéria de reflexão é a ambivalência da realidade contemporânea: se por um lado se diz que a internet está a afastar as pessoas das leituras, por outro, as redes sociais têm feito um papel de divulgação junto das novas gerações, levando a poesia a quem não iria procurá-la no suporte tradicional do papel.
Por falar na poesia do presente, e evocando o Poema em Linha Recta assinado por Álvaro de Campos, Vasco Gato refere que é importante lembrar a voz humana que confessa os seus pecados, que é falha, em vez de glorificar os discursos dos semideuses e dos príncipes perfeitos. No capítulo de “autores que vos marcaram”, Fátima Vale não tem dúvidas: Embriagai-vos, de Charles Baudelaire, chegou-lhe por um professor no oitavo ano e marcou-a para a vida. “A poesia é uma festa, não tem fim”, confessa.
E fica mais uma lição para mais tarde recordar: “os professores que vos vão marcar são sempre os que pensam fora da caixa. Os que acrescentam algo diferente ao programa curricular. Se não acreditam, voltamos a falar daqui a 20 anos”, remata João Morales.
Do facto à opinião, verificar, verificar
Desinformação, a cultura dos “achismos”, opiniões em catadupa e um mundo polarizado onde parece que andamos sempre a correr atrás do prejuízo. É com este quadro menos optimista no ar que assistimos à acção Pinóquio na Escola, dinamizada pelo Polígrafo.
Dirigida a alunos do ensino secundário, a iniciativa de literacia mediática resulta de uma parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian e tem como missão primordial a sensibilização para a luta contra a desinformação e a partilha de técnicas de verificação de factos.
É mais uma aposta desta edição do Livros a Oeste que vê na intervenção nas escolas um “espaço privilegiado de cidadania e uma forma de chegar às crianças e aos jovens”, salienta Mafalda Teixeira, chefe da divisão de Cultura e Cidadania da Câmara Municipal da Lourinhã, em conversa com o PÚBLICO. Com 30 a 40 mil euros de investimento, o festival dedica cerca de um terço à vertente escolar, seja em sessões com autores, seja em “oficinas com professores e formações com mediadores e agentes replicadores da informação”, explica.
Na Escola Básica de Miragaia, com alunos do 8.º ano na plateia, Filipe Pardal (Polígrafo) não entra em eufemismos: “as redes sociais têm muitas coisas boas mas há muitas pessoas e empresas que estão lá para desinformar”.
Num modelo de negócio que é baseado na atenção e nas emoções dos utilizadores, a verificação da informação é crucial para ver se estamos perante um facto ou uma opinião. Já não se trata, portanto, de ver se estão mais de cinco dedos em cada mão, se há pernas a sobrar ou pixéis a rebentar. O desafio agora é outro: “o de sermos agentes contra a desinformação, verificar o que nos chega, cruzar fontes, contextualizar e, na dúvida, não partilhar”, detalha Pardal. Assim se combatem os conteúdos manipulados e se desenvolve o espírito crítico. E assim se contribui para uma nova leva de miúdos atentos e participativos, informados e preparados para o que há-de vir.
Narrativas de Esperança, o tema que atravessa esta edição do festival, é também sobre isso. Sobre alimentar as relações de proximidade e estabelecer “contaminações positivas” com a comunidade, que são importantes para educar e passar a mensagem, nas várias linguagens artísticas.
“Tem sido uma aposta sustentada, que tem variado na identidade e tem crescido”, partilha Mafalda Teixeira. “Inicialmente, o festival baseava-se muito em conversas, agora temos estado a virar-nos mais para o leitor, amplificar para aquilo que ele é no sentido diversificado do termo”. No formato entram residências, performances, sessões de poesia abertas à participação do público e podcasts ao vivo, entre outras expressões, tudo o que vier na linha do festival, cuja essência pode resumir-se com a frase que encontrámos num cartaz, na biblioteca da Escola Básica de Ribamar: “Ler é um acto de liberdade”.
O PÚBLICO esteve na Lourinhã a convite do festival Livros a Oeste
Município da Lourinhã/Rafael Malvar
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