Quando os filhos agridem os pais: o que revelam os números — e o que exigem compreender

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No Dia Internacional da Família, a APAV divulgou dados sobre ‘filhos que agridem mães ou pais’, reportando 4804 vítimas entre 2021 e 2025. O número impressiona. Mas, mais do que alarmar, exige compreensão rigorosa sobre o que estes dados efetivamente revelam.

A família constitui, idealmente, o primeiro espaço de proteção, vinculação, comunicação e construção identitária. É no seu seio que se estabelecem relações fundamentais para o desenvolvimento emocional, social e psicológico ao longo do ciclo de vida — particularmente na infância e juventude, mas também na vida adulta —, sendo igualmente um contexto onde podem emergir vulnerabilidades, tensões e processos relacionais complexos.

A violência de filhos contra pais, porque emerge neste contexto familiar, tende a ter um impacto particularmente profundo, não apenas pelos comportamentos de agressão em si, mas por comprometer dimensões identitárias e relacionais centrais da parentalidade. Esta complexidade ajuda a compreender porque estas dinâmicas permanecem invisíveis durante largos períodos.

Os dados da APAV reforçam esta realidade: entre 2021 e 2025, dos 2675 pais e mães em situação de vitimação continuada, 33,5% referiram que a violência persistiu entre dois e sete anos antes de procurarem apoio pela primeira vez. Mais expressivo ainda, 3,3% indicaram viver estas dinâmicas há mais de 20 anos no momento do primeiro pedido de ajuda.

Estes números tornam particularmente evidente que, em muitos casos, não estamos perante episódios isolados, mas sim perante padrões relacionais prolongados, frequentemente normalizados, ocultados ou suportados em silêncio durante anos.

Para muitos pais, reconhecer que estão a ser alvo de violência por parte de um filho implica confrontar-se com sentimentos intensos de vergonha, culpa e fracasso. Ao longo do ciclo de vida, a parentalidade preserva uma função enraizada de proteção dos filhos — concreta ou simbólica —, tornando particularmente difícil admitir dinâmicas relacionais em que essa dimensão se encontra comprometida. Esta realidade dificulta não só a identificação precoce do problema, mas também o pedido de ajuda.

Ao silêncio soma-se o receio das consequências. Muitos pais temem que procurar apoio possa comprometer o futuro dos filhos, agravar conflitos familiares, gerar estigmatização ou desencadear respostas institucionais difíceis de gerir. Este silêncio prolongado pode favorecer a manutenção ou escalada das dinâmicas violentas.

Os números revelam a existência de um problema social significativo, ainda que o aumento dos números possa refletir não apenas maior incidência, mas também maior visibilidade, reconhecimento e procura de apoio.

Ainda assim, os dados não podem ser lidos de forma simplista. A violência de filhos contra pais constitui uma realidade ampla, que pode integrar problemáticas relacionais distintas, exigindo maior precisão conceptual na sua leitura.

Por um lado, quando esta violência ocorre em contextos em que crianças, adolescentes ou jovens adultos permanecem em situação de dependência global face aos pais, que continuam a assumir funções centrais de cuidado, a literatura científica tem vindo a enquadrar este fenómeno sob a designação de violência filioparental.

Nestes casos, estão frequentemente em causa dinâmicas específicas de escalada relacional, fragilização da autoridade parental, inversão da hierarquia familiar e dificuldades relacionais, emocionais e comportamentais, exigindo modelos próprios de prevenção e intervenção especializada.

Importa ainda sublinhar que, neste contexto, a dicotomia entre vítima e agressor não pode ser entendida de forma linear ou simplista. Apesar da existência de comportamentos violentos, os pais mantêm responsabilidades centrais no desenvolvimento, proteção e educação dos filhos, particularmente quando estes permanecem em situação de dependência global. Simultaneamente, crianças, adolescentes e jovens adultos devem ser responsabilizados pelos seus comportamentos, de forma ajustada à sua etapa desenvolvimental e enquadramento jurídico. Assim, a intervenção exige um equilíbrio particularmente complexo entre responsabilização, capacitação parental, reorganização das dinâmicas familiares e restabelecimento de relações mais ajustadas, seguras e funcionais.

Por outro lado, a violência exercida por filhos adultos sobre pais idosos, particularmente vulneráveis física, psicológica, cognitiva ou economicamente, poderá configurar realidades distintas. Nestes contextos, as funções relacionais tendem frequentemente a alterar-se: os filhos passam, idealmente, a assumir maiores responsabilidades de cuidado, enquanto os pais podem encontrar-se em situações acrescidas de dependência. Esta inversão funcional aproxima estas dinâmicas de formas de violência intrafamiliar mais centradas na vulnerabilidade da vítima, na sua proteção, contenção da violência e responsabilização do agressor.

Embora ambas integrem formas de violência intrafamiliar ascendente, não são fenómenos equivalentes.

Distingui-los é fundamental para compreender adequadamente os fatores de risco, as dinâmicas relacionais, as necessidades de prevenção, proteção e intervenção para respostas clínicas, sociais e jurídicas mais ajustadas.

As estatísticas são relevantes, mas aquilo que nem sempre captam plenamente é a diversidade das dinâmicas, a complexidade relacional e o sofrimento silencioso de muitas famílias. Por detrás dos números encontram-se sistemas familiares marcados por medo, lealdade, culpa e, muitas vezes, profunda desorganização relacional. Proteger famílias exige mais do que visibilidade estatística: exige compreensão profunda, distinção conceptual e intervenção ajustada à complexidade real de cada situação.

A autora escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

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