Há algumas semanas, propus que entrassem no dicionário quatro palavras: imaculadofilia, binaromania, hibridofobia e complexofilia. Hoje, adiciono mais uma, maisfobia, porque, remixando uma frase célebre (atribuída, de forma imprecisa, a Albert Camus), bem nomear as coisas é diminuir a desgraça do mundo. Proponho a seguinte definição, assumindo todas as suas insuficiências: “Maisfobia n.f. – hostilidade ou desconforto perante a multiplicação, complexificação ou autodeterminação de categorias de identidade e sociais para além das formas consideradas normativas; tendência para considerar excessivo, confuso, ilegítimo e/ou perigoso aquilo que excede o binário ou o sistema de classificação dominante, reduzindo a diversidade a uma versão simplificada e autocentrada do real.” Os exemplos de uso são múltiplos. Um dos mais explícitos pode observar-se em discursos que rejeitam a expansão do espectro LGBTQIA+ para além do binómio homossexual/heterossexual, ou que consideram o “+” da sigla uma forma de excesso identitário caricatural e nocivo. Em Portugal, nos últimos dias, exemplos de maisfobia não faltaram, ainda que em diferentes graus de intensidade.
Ascenso Simões, por exemplo, publicou recentemente no Expresso um artigo maisfóbico paradigmático. Recuso-me a reproduzir aqui o seu conteúdo violento e discriminatório para com as pessoas LGBTQIA+. Um dos argumentos pode ser reduzido a: os “homossexuais” merecem direitos, mas o “+” estragou tudo. Queer, trans, não-binário, pansexual, são “folclore”, são “mixórdia”. As possibilidades do “+” são vistas pelo “gestor e ex-membro do XVII Governo Constitucional” como uma deriva sem limites, em que caberiam formas de existência deliberadamente caricaturadas e desumanizadas para sustentar a ideia de excesso identitário.
Um outro caso de maisfobia, embora bastante menos violento, foi-nos oferecido por José Pacheco Pereira no programa Princípio da Incerteza. Ainda que defenda, e bem, os direitos “LGBT” contra a proibição das bandeiras, acrescenta uma crítica aos “excessos” do ativismo, afirmando não se mobilizar pelo “+”, que considera “uma coisa sem pés nem cabeça”. Critica, ao mesmo tempo, a multiplicação de identidades que não reconhece e nem consegue nomear e a sigla que tenta reuni-las. Para além disso, refere-se ao Dia Internacional contra a Homofobia, Bifobia e Transfobia como “um dia que é, de alguma maneira, deles”. Mas “um dia deles” pressupõe que a discriminação é um problema de minorias discriminadas. Não é. São estruturas que organizam toda a sociedade. A rigidez do binário de género produz também, entre outros fenómenos, a masculinidade tóxica e a violência de género. O que o movimento LGBTQIA+ questiona não são apenas as vidas de quem com ele se identifica, mas o próprio sistema de categorias que estruturam a opressão. Não é um assunto particular, mas uma questão que atravessa toda a sociedade. É um assunto universal.
A maisfobia é acompanhada de uma preguiça intelectual e moral notória, sendo aliás assumida com orgulho pelos seus agentes. Para o maisfóbico, aquilo que não conhece não existe, o que não cabe na sua experiência não merece categoria ou sequer curiosidade. É complicado! O maisfóbico raramente reconhece a própria identidade como identidade, confundindo o hegemónico com o natural, com o evidente. O maisfóbico considera-se uma PUN (pessoa universal e neutra), instalando-se no conforto de quem se autoriza do alto do seu privilégio a avaliar o resto como excesso, decidindo quem fica ou não de fora. O maisfóbico recusa mais gente e mais palavras. Mas mais palavras não são confusão, são uma melhor descrição do real. É exatamente isso que faz o LGBTQIA+: não divide, complexifica e confere visibilidade. Cada letra é o reconhecimento de uma existência anterior ao nome. A sigla não criou as pessoas, apenas deixou de fingir que não existiam. O “+” é abertura, a promessa de que haverá sempre espaço para quem ainda não tem nome.
Mais uma palavra: maisófilo.
A autora escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
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