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Dados do Atlas Global da Língua Portuguesa, que terá sua segunda edição lançada dentro de dois meses, apontam que 56% dos cerca de 80 mil alunos estrangeiros matriculados no ensino superior de Portugal são da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Deles, quase 18 mil são brasileiros.
Essa presença cada vez maior de estudantes lusófonos no ensino superior português reflete, na avaliação do professor Luís Reto, ex-reitor do Instituto Universitário Português (ISCTE) e autor do Atlas, a força da língua portuguesa, que derruba barreiras e facilita o intercâmbio educacional.
Segundo Reto, essa mesma força se reflete nos investimentos e na corrente de comércio entre os países da CPLP. “Quando se fala a mesma língua, os riscos dos investimentos e dos negócios diminuem, assim como baixa o custo das operações”, assinala ele, que recebeu apoio de entidades como a Fundação Getúlio Vargas (FGV) para desenvolver o Atlas.
Arquivo pessoal
A primeira versão do estudo foi divulgada há 10 anos. Mas, destaca o professor, muita coisa mudou e o Atlas precisou ser revisto e ampliado. “Estamos praticamente com um movo estudo que trata de temas diversos, como energia, água, economia e educação”, explica.
Ativo estratégico
O ex-reitor do ISCTE assinala que a língua é um ativo estratégico, mas, infelizmente, há países em que os governantes ainda não entenderem o tamanho desse potencial. “Hoje, há cerca de 280 milhões de falantes de português, quando somados aqueles que têm o idioma como materno e como segunda língua”, diz.
Ele ressalta que somente o português, o inglês e o francês estão presentes em todos os continentes. “São as três línguas pluricontinentais”, sublinha. Por isso, no entender dele, é incompreensível que o português ainda não seja uma das línguas oficiais da Organização das Nações Unidas (ONU) — hoje, são seis: inglês, francês, mandarim, russo, árabe e espanhol.
“O russo é falando em apenas dois continentes. O mandarim, principalmente, na Ásia, e o espanhol, na América e na Europa”, assinala. Não só. “Pelos cálculos da ONU, o português continuará crescendo até 2100, sobretudo por causa dos países africanos, que vão ultrapassar o Brasil em número de falantes da língua”, frisa.
Hoje, complementa Reto, o português é a quinta língua materna mais falada no mundo. “Vejamos o caso do francês: 79 milhões de pessoas o têm como língua materna. Quando somados aqueles que têm o francês como segunda língua, chegamos a 300 milhões de falantes”, afirma
Francisco Baccaro
Ele acrescenta, porém, que, na África, nos países que foram colonizados pela França, o árabe está substituindo o francês, ao contrário do que ocorre nos países lusófonos, onde o português se firma cada vez mais como língua materna”.
Proximidade cultural
O paulista João Pedro Quintino de Almeida, 29 anos, ficou na dúvida se estudaria em Portugal ou na Espanha quando decidiu fazer a licenciatura fora do Brasil. “O fato de poder estudar em português acabou pesando, assim como a proximidade cultural”, diz.
Almeida se mudou de São Paulo para Lisboa em 2019. “Concluí a licenciatura em direito, depois fiz a pós-graduação e, neste momento, estou em fase de apresentação da tese de meu mestrado”, ressalta ele, que, desde o início, esteve matriculado na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.
O brasileiro conta que optou pela Universidade de Lisboa pelo seu bom histórico. “Estamos falando de uma instituição de referência. Uni essa qualidade a Lisboa, uma cidade com vida cultural intensa”, afirma. Ele reconhece, porém, que foram necessários dois anos para que se adaptasse à faculdade e aos métodos de ensino em Portugal.
O também paulista Rafael Moretti, 43, que chegou a Portugal em 2022, faz mestrado dentro do programa de crítica e curadoria de Teoria das Artes na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Segundo ele, o fato de o curso ser em português foi um dos motivos que o levaram a optar por estudar em Portugal. “Falar a mesma língua, com certeza, sempre ajuda”, frisa.
Rafael conta, ainda, que optou pela Universidade de Lisboa porque o currículo da instituição na sua área é mais interessante, na sua opinião, do que o de outras universidades portuguesas. “Escolhi a Universidade de Lisboa por ser uma instituição muito tradicional”, ressalta ele, que defende, porém, cursos mais abertos. “No meu caso, é difícil discutir coisas que foram produzidas nas últimas décadas”, avalia. Após terminar o mestrado, iniciado em 2023, ele pretende fazer doutorado.
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