O Hotel Momentum ergue-se sobre o Vale de Lötschen, na Suíça, como símbolo de recuperação, um ano após o colapso de uma geleira ter destruído a aldeia de Blatten.
Construído em apenas 105 dias perto da localidade vizinha de Wiler, o hotel de madeira é um dos sinais mais evidentes de como os residentes deslocados estão a reconstruir as suas vidas após o desastre.
“O passado já não existe, o futuro ainda não chegou, a vida está aqui e agora”, lê-se num letreiro de madeira em alemão, à recepção — uma mensagem que passou a definir a visão de muitos que perderam as suas casas.
Das janelas do hotel, os hóspedes podem contemplar os cumes recortados até ao local onde outrora existia Blatten — agora uma extensão cinzenta de escombros e um lago de água turquesa, com as pontas das casas submersas ainda visíveis.
A destruição foi precedida por dias de avisos. As autoridades evacuaram os mais de 300 residentes da aldeia após uma queda de rochas ter desestabilizado a geleira de Birch, acima da localidade. A 28 de Maio de 2025, uma cascata de rocha, terra e gelo rugiu encosta abaixo numa vasta nuvem de poeira, soterrando grande parte de Blatten.
Os especialistas afirmaram que o colapso estava associado às alterações climáticas nos Alpes. O degelo do permafrost enfraquece a rocha outrora permanentemente congelada — levantando questões sobre como comunidades como Blatten podem ser revitalizadas em segurança.
Ainda assim, os planos apontam para a reconstrução da aldeia por volta de 2030. Entretanto, antigos residentes como o proprietário do hotel Lukas Kalbermatten tiveram de começar do zero.
Kalbermatten perdeu o Hotel Edelweiss, que era simultaneamente a sua casa com a esposa e um negócio gerido pela sua família ao longo de três gerações. Após uma evacuação segura, abriu o Hotel Momentum em parceria com outro proprietário de hotel de Blatten.
Recomeçar
Quase um ano depois, Kalbermatten compara a experiência ao processo de luto.
“No processo de luto, há sempre aquela primeira vez, não há? Para nós, foi o primeiro serviço religioso, depois o primeiro Dia de São Nicolau das crianças que não foi passado em casa, depois o primeiro Natal”, disse. “E agora este aniversário está a aproximar-se, e acho que aí já teremos dado uma volta completa, não é?”
Receber hóspedes novamente trouxe emoções contraditórias. “Agora estamos a recebê-los num lugar diferente e é difícil”, disse Kalbermatten. “Alguns deles estão muito tristes, ainda quase em choque.”
No interior do Momentum, pequenos detalhes evocam Blatten — mantas criadas para se assemelharem às da aldeia perdida —, mas o próprio edifício foi concebido para ser temporário. As paredes das escadarias foram deixadas por acabar, e a estrutura é pensada como uma solução por cinco anos, após os quais poderá ser desmontada e reutilizada noutro local.
Reconstrução “vai demorar tempo”
As autoridades afirmam que os progressos na reconstrução de Blatten estão dentro do previsto. A reconstrução de uma estrada começou no mês passado e, se tudo correr como planeado, os residentes cujas casas não foram destruídas poderão começar a regressar ainda este ano. Até 2029, marcos fundamentais deverão permitir um regresso mais alargado.
MICHAEL BUHOLZER/EPA
Manfred Ebener, responsável pelo projecto de construção do grupo de coordenação Blatten 2030, afirmou que a prioridade é garantir que a aldeia possa resistir para as gerações futuras, mesmo que nem todos os residentes regressem.
“A reconstrução de Blatten levará tempo antes que a aldeia possa voltar a ter uma dimensão semelhante ou igual à que tinha antes. Temos consciência de que alguns de nós poderão não viver para ver isso acontecer”, disse.
À medida que as ameaças das alterações climáticas aumentam, os picos próximos, como os que rodeiam Kandersteg, estão a ser monitorizados de perto. A poucos quilómetros de Blatten, desprendimentos isolados da geleira de Oigschtchummun motivaram encerramentos de estradas por precaução no início deste mês.
Mas os especialistas dizem que o colapso que destruiu Blatten foi invulgar. Matthias Huss, responsável da rede suíça de monitorização de geleiras, disse ao canal Swissinfo que o colapso da geleira de Birch foi impulsionado por uma acumulação excepcional de rocha, alertando contra a realização de paralelos directos.
Regressar?
Para Daniel e Karin Ritler, reconstruir significou remodelar o seu modo de vida.
Antes do desastre, o seu trabalho ia da criação de ovelhas às tendas de glamping e à restauração. Um mês após o seu mundo ter sido revirado do avesso, começaram a planear um novo futuro.
Estão agora a abrir um novo hotel no Vale de Lötschen, afirmando que são necessárias mais camas — não só para os turistas, mas também para os residentes deslocados. Até Abril, ainda viviam em alojamento temporário.
REUTERS/Stefan Wermuth
O casal mudou-se entretanto para um apartamento no novo hotel, que deverá abrir ainda este ano com o nome Zeitlos, ou seja, “intemporal”.
Embora não existam números oficiais disponíveis, Kalbermatten estima que cerca de 80% dos antigos residentes de Blatten continuam a viver no vale. As crianças da aldeia continuam a frequentar as mesmas escolas em Wiler.
Enquanto os planos de reconstrução avançam, a estabilidade da encosta já não pode ser dada como garantida, e o futuro de Blatten permanece incerto.
“Não dizemos que nunca voltaremos a Blatten, e também não podemos dizer que estaremos de volta a Blatten em tal ou tal altura. Isso terá de se ir revelando”, disse Daniel Ritler.
Para outros, a decisão é mais clara. “Pessoalmente, certamente que voltaremos. Isso não está verdadeiramente em discussão para nós”, disse Kalbermatten.
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