Edgar Morin, um amigo que não esqueço…

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Sou testemunha de um compromisso cívico extraordinário. Edgar Morin viveu até ao último minuto sem descanso. Atento à realidade do mundo, preocupado com as condições em que vivemos de guerra latente e de recusa de compreensão das diferenças, quis no limiar dos 105 anos homenagear Portugal e os seus grandes amigos António Alçada Baptista e Helena Vaz da Silva. Por isso, propôs que publicássemos um pequeno livro onde ficasse claro o reconhecimento pelo empenhamento dos portugueses na construção da democracia. Prometi-lhe que o faria e houve um contrarrelógio posto em prática. Finamente, graças a um conjunto de boas vontades, pudemos publicar no início deste ano O Esplendor das Amizades – A Experiência Portuguesa de Edgar Morin (Gradiva/Guerra e Paz), por ocasião dos 80 anos do Centro Nacional de Cultura. Quando recebeu o livro impresso em condições de chegar ao público, Edgar Morin saudou com grande alegria a obra. Quando Ana Barbosa lhe entregou em mão o livro, em Paris, o pensador exprimiu a genuína alegria de quem se sentia profundamente ligado ao processo português de construção de democracia.

Tudo começou nos anos 60 quando António Alçada Baptista, por indicação de Jean Marie Domenach e da redação da revista Esprit, se encontrou com Morin na esperança de poder contribuir para acelerar o fim da ditadura e a preparação da democracia. Nunca mais perderam o contacto. António Alçada apresentaria Mário Soares a Edgar e outra amizade indestrutível se iniciou. O caso português era para ele um exemplo modelar. A experiência da Livraria Moraes e da revista O Tempo e o Modo teve repercussões muito além do que se poderia julgar. Recordo bem como Edgar Morin recordava essa sementeira de ideias.

Em simultâneo, a sua investigação como sociólogo e pensador prosseguia no sentido da complexidade e da comparação de experiências democráticas no mundo. Samuel Huntington designou a terceira vaga das revoluções democráticas e colocou Portugal como experiência pioneira. Edgar Morin não se cansou de dar o exemplo português como paradigmático. Multiplicaram-se as conferências e as tomadas de posição. Ainda há menos de dois anos falou de improviso em Lisboa, como o fizera em várias circunstâncias na Fundação Calouste Gulbenkian que considerava casa sua. Recordava ainda no Movimento das Forças Armadas e na Revolução dos Cravos o facto de muitos dos capitães de Abril, entre os quais Ernesto Melo Antunes, serem seus leitores e atentos assinantes ou seguidores de O Tempo e o Modo. Era o que designava como a sementeira de ideias. Nisso acreditava como função essencial dos pensadores modernos.

Edgar Morin visou ultrapassar a visão reducionista e simplista do Homem e do Mundo. Entendia serem fundamentais sete pilares do pensamento moderno que considerou cruciais no mundo contemporâneo: prevenção do conhecimento contra o erro e a ilusão; ensino de métodos que permitam ver o contexto e o conjunto, em lugar do conhecimento fragmentado; reconhecimento do elo indissolúvel entre unidade e diversidade da condição humana; aprendizagem de uma identidade planetária, considerando a humanidade como comunidade de destino; exigência de apontar o inesperado e o incerto como marcas do nosso tempo; educação para a compreensão mútua entre as pessoas, de pertenças e culturas diferentes; e desenvolvimento de uma ética do género humano, de acordo com uma cidadania inclusiva.

Tive o gosto e a honra de entregar a Edgar Morin em nome do Presidente Jorge Sampaio a Grã-Cruz da Ordem de Santiago da Espada como reconhecimento pela sua obra, pela função pedagógica e pela defesa intransigente da democracia e dos direitos humanos. Do mesmo modo, quando coordenei o grupo de trabalho que definiu o perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória que está em vigor, contei com o contributo de Edgar Morin para definir as traves mestras que permitiram um consenso nessa matéria. Ao folhear o pequeno volume cujo título foi encontrado por Edgar, uma vez que considerava o Esplendor das Amizades fator essencial de uma vida humana assente numa cultura de paz e de direitos humanos, lembrei como numa das nossas últimas conversas, num assomo de entusiasmo, me disse que se pudesse terminaria os seus dias entre nós, invocando a memória dos seus grandes amigos e de um genuíno amor à democracia

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