Aos 90 anos, Alaíde Costa diz que tem atraído o público jovem: “Fico surpresa”

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Conhecida como a dama da bossa nova, Alaíde Costa se apresentará no MIMO Festival, que, este ano, será realizado de 27 de junho a 5 de julho, em Guimarães, no Norte de Portugal. A cantora carioca, de 90 anos de idade e 70 de carreira, subirá ao palco no dia 4 de julho (sábado), às 19h30, no show “Cristóvão Bastos e Mauro Senise Convidam Alaíde Costa”.

Ao telefone, de São Paulo, onde mora, a artista falou com o PÚBLICO Brasil sobre a expectativa de voltar a cantar em território luso e enfatiza que, nos últimos anos, está tendo a oportunidade de mostrar mais o seu trabalho no Brasil e fora dele. “Eu estou muito ansiosa e feliz em me apresentar no MIMO Festival. Finalmente, depois de tantos anos de carreira, as chances de mostrar o meu trabalho estão surgindo”, comemora ela, que, entre outros sucessos, vai cantar clássicos como Dindin, de Tom Jobim (1927-1994).

Nascida e criada no Méier, subúrbio do Rio de Janeiro, Alaíde afirma que foi vítima de racismo, inclusive dos integrantes da elite carioca da bossa nova, e de preconceito por escolher cantar um gênero de música que não fosse o samba.

“Sofri racismo. Achavam que uma negra não podia cantar o que eu canto. E me falavam coisas como: ‘você tem que cantar um sambinha, uma coisa mais animadinha, porque o que você canta é difícil’. A vida toda eu ouvi isso”, lamenta. “Mas eu continuei gravando os meus discos. Ninguém me ensinou, mas eu aprendi a dizer não. Só canto o que quero e gosto”, garante.

Cristóvão Bastos e Mauro Senise se apresentam em Guimarães com Alaíde Costa
Nana Moraes/Divulgação

O saxofonista Mauro Senise admite que uma das maiores intérpretes brasileiras não teve até hoje o reconhecimento que merecia como cantora. “Infelizmente, ela não é reconhecida como deveria, o que acontece com outras cantoras também. Mas ela foi parceira de nomes como Vinicius [de Moraes], é uma trajetória muito densa. E há muitas cantoras que só são valorizadas porque têm muito marketing em cima delas. Ainda mais hoje em dia que é tudo peito de fora. É mais visual do que voz”, diz ele. “E a Alaíde, além de ser uma grande cantora e musicista, que toca piano, é uma estrela, é uma princesa, com aquela postura bonita que ela tem no palco. É uma dama de verdade”.

Alaíde conta que agora só quer olhar para frente. E frisa que sua energia vem de sua paciência. “Sou muito paciente, sou muito na minha. Acho que isso me ajuda bastante. Não compro mais briga e também procuro sempre estar fora de onde tem atrito”, garante. “No momento, só penso no presente e no futuro, que, aliás, não deve ser muito longo para quem tem 90 anos”, reflete.

Parceria

E o presente tem trazido, afirma a cantora, um público que, até então, ela não via nos seus shows: o público jovem. “Eu fico surpresa, mas, ultimamente, o meu público tem sido muita gente jovem. Eles estão acompanhando o meu trabalho. Acho que isso está acontecendo pelo fato de eu mostrar uma música diferente da que eles estão acostumados a ouvir”, avalia a diva. “Claro que também tem pessoas mais idosas, que sempre me viram cantando, por exemplo, Dalva de Oliveira (1917-1972)”.

Em 2022, ao ser convidada pelo rapper Emicida a gravar o álbum “O Que Meus Calos Dizem Sobre Mim”, Alaíde enfatiza que viu sua carreira dar uma guinada.

“Eu fiquei muito surpresa quando soube do interesse do Emicida em fazer um projeto comigo, porque ele tem uma linha de trabalho muito diferente da minha. Mas confiei, porque ele é um menino muito inteligente”, elogia. “Por isso, nem pensei duas vezes. Eu sabia que ia sair coisa boa dali”. E saiu. Dois anos depois, ela lançou o disco “E o Tempo Agora Quer Voar”, também com produção de Emicida, Pupillo e Marcus Preto.

“Em setembro ou outubro, sairá o último da trilogia. No momento, eu estou até aprendendo as canções que eles mandaram para mim. Tem música da Joyce com Paulo César Pinheiro, do Guilherme Arantes, do Nando Reis, da Adriana Calcanhoto”, enumera ela.

Alaíde diz que costuma fazer de dois a três shows por mês. Porém, depois de quebrar o pé esquerdo, devido a um tombo que levou nas ruas de São Paulo, em dezembro passado, ela tem feito fisioterapia para poder continuar na estrada.

“Eu estava distraída e tropecei num patinete, que estava preso numa árvore. E logo em dezembro quando eu tinha um monte de compromisso. Agora estou sendo forçada a fazer fisioterapia e preciso andar de bengala quando saio à rua”, relata a cantora, que, mesmo assim, no mês passado, não deixou de se apresentar em Paris, onde também foi exibido o filme “A Noite de Alaíde”, de Liliane Mutti.

O longa, que revisita a obra de Alaíde Costa, também será apresentado no MIMO Festival, evento que é dividido em Festival MIMO de Cinema, de 27 de junho a 2 de julho, e MIMO Festival, de 3 a 5 de julho.

Ainda em Portugal, Alaíde Costa, Mauro Senise e o pianista Cristóvão Bastos se apresentarão no dia 6 de julho, às 21h, no Base Organizada da Toca das Artes (B.O.T.A), em Lisboa. “É uma honra tocar com a Alaíde Costa. Noventa anos e nessa atividade toda, é impressionante”, elogia Senise.

Alaíde concorda: “Eu me pergunto como ainda consigo cantar, porque, geralmente, a pessoa vai envelhecendo e a voz vai mudando também. Os tons vão caindo, mas eu consegui até agora mantê-los, porque não canto apenas, eu procuro interpretar a música. Só posso dizer que isso é a mão de Deus”, agradece.

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