A morte anunciada do Cinema Paris

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A propósito da pré-anunciada demolição do antigo Cinema Paris, ou Paris-Cinema, ali à Estrela, que será aprovada em próxima reunião da CML, vieram-me à memória imagens e registos com quase trinta anos, não tanto dos filmes que por ali foram projectados entre Maio de 1931, ano da sua inauguração, e 1985, ano do fecho definitivo da sua cortina de palco, porque nunca fui seu espectador, mas memórias de um sem-número de peripécias com que me deparei, envolvendo as mais variadas narrativas e personagens, entre finais dos anos 90 e o início do século XXI, e que queria registar em texto, já que não as poderei encerrar em bobine de celulóide.

As peripécias com que travei conhecimento são elas mesmas dignas de um argumento, ou guião, como agora se insiste em dizer, para um derradeiro filme do próprio cinema onde nunca estreará, uma película que deslustra o passado de glória de um cinema que foi considerado, quando abriu, um dos mais luxuosos cinemas de Lisboa, com detalhes como “fauteils” e camarotes com mesas para serviço de chá e um sistema de som topo de gama.

Com efeito, Victor Piloto, um arquitecto inexplicavelmente subvalorizado e desconhecido do grande público, concebeu esta sala de cinema de linhas modernistas e decoração Art Déco para a firma Sociedade Geral de Cinemas, sobre um outro Paris-Cinema, de 1915 – demolido passada uma quinzena de anos –, com todo o conforto e a modernidade da altura.

O novo cinema tinha uma lotação de cerca de 850 lugares, divididos por plateia, dois balcões, frisas e camarotes.

Quis o destino que os últimos anos da sua existência (1980-1985) fossem explorados pela Lusomundo do célebre e todo-poderoso Cor. Luís Silva, que o haveria de deixar por um novo amor, perdão, empreendimento, chamado multiplex do Centro Comercial das Amoreiras, acabadinho de inaugurar escassos anos antes.

Ao desinvestimento e desinteresse na exploração do Paris, seguiu-se o seu inevitável abandono, a delapidação e degradação da sua sala, por dentro e por fora, levando à triste sina que agora chegará ao fim.

De nada lhe valeu estar “protegido” pelo Inventário Municipal (hoje Carta Municipal do Património) nem o facto de estar construído em zona especial de proteção da Basílica da Estrela (MN), seja lá o que isso for.

Há coisa de quase 30 anos, tentei descobrir as razões e os protagonistas para o estado de coisas daquela sala de cinema, porque o Paris de então ainda era passível de recuperação e reutilização, assim houvesse interessados; e porque a minha cinefilia assim o exigia, apesar de eu nunca lá ter entrado enquanto funcionou.

Fiquei atónito quando esbarrei no Lidl. Seguindo um zunzum do momento, falei por volta de 1998 com o então responsável pela instalação daquela que seria a primeira loja Lidl em Lisboa, que me confirmou ter a CML instado o grupo alemão a abrir esse primeiro espaço comercial no Paris, o que nunca chegou a verificar-se por desinteresse do próprio Lidl!

Pouco tempo depois, talvez um ano depois, haveria de ir à então Junta de Freguesia da Lapa, onde encontrei a solidariedade, mas também a impotência, de um velho senhor na altura seu presidente. Ele e o seu colega, também de cãs, conheciam de muito perto o Paris, pois tinham sido seus espectadores desde a meninice, durante décadas, e viam-se incapazes de travar a sua depauperação, sem competências legais para fazerem o que quer que fosse.

Concomitantemente, travei conhecimento com o coral Lisboa Cantat, com o seu maestro e a sua prima donna soprano, a “abelha rainha”, como era carinhosamente conhecida. Tinham um desejo há muito por realizar: uma sala onde pudessem ser residentes e nela pudessem dar espectáculos e criar uma “oficina coral”. A ideia era excelente, mas falhava num detalhe: o cinema era, e é, um edifício privado e alguém teria que o comprar, dada a inviabilidade em o explorar, até porque a degradação do Paris tinha já tomado conta de boa parte do edifício.

Houve também alguém, estudante de arquitectura, creio, que nessa altura me contactou para que a ajudasse a dar voz ao seu projecto de intenções: num futuro edifício novo, os apartamentos poderiam ter nomes de actores e realizadores ligados aos mil e um filmes que estrearam no Paris, muita memorabilia e coisas afins. Coisas.

Coincidentemente, a CML havia mudado de mãos já há uns anos e o clamor da cidade começava a fazer-se sentir, cada vez mais ampliado. Lembro-me de um artigo da autoria do saudoso Jorge Silva Melo, demolidor contra a inacção da CML durante tanto tempo, indiferente que esta sempre tinha sido relativamente ao mais do que previsível desaparecimento a prazo de um cinema histórico – diga-se, em abono da verdade, que a inacção não foi exclusiva do Paris, já o havia sido relativamente ao fabuloso Éden, ao lindíssimo Royal e ao simpático Alvalade, o que só não se repetiu com o São Jorge devido ao forte empurrão mediático que o caso teve e o finca-pé de ex-funcionários, sendo a CML de então obrigada a comprá-lo, quando se preparava para deixar que o demolissem. A sina voltaria a repetir-se mais recentemente e de forma mais vil com o magnífico Odéon, mas isso caberá noutro espaço de memória.

Face ao clamor existente, o presidente da CML resolveu agir:

Primeiro, assegurou a abertura do edifício ao público durante uns meses, para que as pessoas, desde logo as contestatárias, o fossem visitar e verificar in loco o estado em que ele estava: saqueado, quase sem alma, depois do desinteresse da autarquia (porque o Estado não compra salas de espectáculo…) durante 20 anos.

Lembro-me de um telão da CML então afixado na fachada, sobre aquela magnífica caixa exterior de linhas curvas, que cobria a cabine de projecção, com uma mensagem do género: “Venham ver como está o Paris!”

E lá fomos. E fotografámos. E escrevemos no “livro de visitas”, reclamando.

O Paris era um “zombie”. Da decoração pré-projecto de alterações dos anos 50 já quase nada se via. Idem da decoração aquando das alterações dos anos 50 e 60, quando o adulteraram por causa de questões técnico-legais próprias da “modernidade”, em que foram ao ponto de eliminar os frisos decorativos da fachada, que não faziam mal a ninguém, como é evidente. Enfim. Restava o painel decorativo de Paulo Guilherme.

Pouco tempo depois, ainda em 2005, convencido da importância do Paris para os lisboetas, anuncia a permuta do edifício, que permitiria “chegar a um acordo quanto à salvaguarda do antigo Cinema Paris, ainda no actual mandato”. “A proposta, elaborada pelas vereadoras da Cultura e do Urbanismo”, previa “a permuta dos terrenos onde está situado o cinema por lotes nas Amoreiras, perto do recinto de treino de golfe”, imagine-se a ironia do destino, as Amoreiras novamente.

Seria óptimo, mas não foi. Porque, mais uma vez, o problema estava nos detalhes.

Devem-se ter esquecido que a firma proprietária do Paris tinha vários sócios, alguns deles funcionários da própria CML, o que implicaria a existência de conflito de interesses evidentes se a permuta se concretizasse.

Compreensivelmente, não se concretizou, e pelo Paris passou de imediato um trailer anunciando-lhe a própria morte a prazo.

Foi um vê-se-te-avias até à notícia de há dias, que deu conta da iminente aprovação pela CML de um prédio novo no seu lugar, e aqui importa referir que o Paris ocupa um lote deveras apetecível e compreensível para a gula da construção civil, que sempre pôs e dispôs da cidade.

Curiosamente, o último registo público do Cinema Paris que se conhece foi no âmbito da sindicância feita em 2007 aos serviços de Urbanismo da CML, aparecendo mencionado mais do que uma vez no relatório arrasador que então foi feito pela magistrada do Ministério Público que teve em mãos essa tarefa hercúlea que foi analisar à lupa um sem-número de casos suspeitos de promiscuidade e irregularidades nos licenciamentos feitos pela CML durante os dez anos imediatamente antes. Houve lugar a repreensão escrita e proposta de sanção a um funcionário da CML, então sócio da sociedade detentora do Paris. Soube a nada.

O Paris é hoje apenas uma carcaça, imponente, mas uma carcaça.

Já nem o letreiro “Paris” existe.

Que reste em paz.

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