Há dias, o PÚBLICO informava os leitores que a “Câmara de Lisboa vai estudar desnivelamento de Calçada de Carriche e Avenida Padre Cruz” (Samuel Alemão, 21 de maio, pp. 18-19). O tema é central para a qualidade de vida nas freguesias do Lumiar (a maior de Lisboa) e de Santa Clara. A actual via de grande tráfego, criada no início da década de 1970 para ligar o Campo Grande a Odivelas, cortou o Lumiar ao meio e criou uma barreira entre partes da freguesia. O principal ponto crítico é o Nó do Lumiar, onde as interferências/atravessamentos de nível entre tráfego local e de passagem geram congestionamentos permanentes nas horas de ponta, que se espalham a outras zonas das freguesias do Lumiar e Santa Clara, com impactos negativos na mobilidade, no ambiente e na vivência urbana.
A necessidade de resolver este problema tem levado a diversas discussões ao longo dos anos. Em Dezembro de 2017, a Assembleia de Freguesia do Lumiar (AFL) aprovou uma moção do CDS-PP propondo uma passagem pedonal no topo da Calçada de Carriche e a requalificação urbana da zona. A passagem pedonal melhoraria a ligação pedonal entre o centro do Lumiar e a zona classificada do Paço do Lumiar, onde se concentra a maior parte da oferta cultural da freguesia.
Em Junho de 2025, o autor deste artigo escreveu uma proposta para o desnivelamento do Nó do Lumiar, enterrando o tráfego de passagem entre o viaduto do Eixo Norte-Sul e o topo da Calçada de Carriche, e criando à superfície uma rotunda para distribuição do trânsito local. Esta proposta serviu de base a uma moção do PSD com o mesmo objectivo, aprovada quase por unanimidade na AFL em Setembro de 2025.
Na sequência da aprovação desta moção na AFL, o presidente da Junta de Freguesia do Lumiar (JFL), Ricardo Mexia, apresentou uma Recomendação do PSD (nº 025/02) à 25ª Reunião plenária da AML (Assembleia Municipal de Lisboa) de 12 de Maio de 2026 (minuto 3:45:20), propondo o desnivelamento do Nó do Lumiar.
A moção aprovada na AFL foi apresentada pelo autor deste artigo na reunião descentralizada da câmara municipal realizada no Lumiar a 13 de Maio de 2026. Na resposta, o vice-presidente da CML manifestou concordância com o objectivo da obra e comprometeu a CML com a execução da mesma.
Na AML, o projecto tinha sido criticado pelo Livre, que argumenta que melhorar a circulação rodoviária induziria mais tráfego automóvel para Lisboa, defendendo antes a redução do papel da Calçada de Carriche como eixo de entrada na cidade. Considero este argumento pouco consistente. O desnivelamento apenas melhoraria a fluidez num ponto específico, sem alterar os restantes congestionamentos da cidade, pelo que o eventual tráfego induzido seria reduzido. Acresce que limitar o número de carros que entram na cidade através do congestionamento prejudica empresas, serviços e cidadãos que dependem da cidade. Assim, é mais eficaz controlar o estacionamento do que dificultar artificialmente os acessos, porque permite ser selectivo, não prejudicando as empresas e os residentes, desta forma evitando a desertificação da cidade.
Além disso, esta é a única grande entrada rodoviária de Lisboa que continua sem desnivelamento.
A proposta que impulsionou a decisão da CML não visa apenas melhorar o trânsito. Enterrar parte da via de grande tráfego permitiria libertar espaço à superfície para zonas verdes, áreas de lazer e novos percursos pedonais, aproximando áreas actualmente separadas pela barreira rodoviária. Assim, como proposta complementar à moção aprovada na AFL, propõe-se estender o enterramento da Av. Padre Cruz entre o Nó do Lumiar e a Av. Rainha D. Amélia, permitindo assim estabelecer uma continuidade pedonal entre Telheiras e Alto da Faia, por um lado, e Lumiar centro e Alameda das Linhas de Torres, por outro, e a criação de uma nova zona verde e de lazer no espaço liberto à superfície. Obras deste género poderiam também ser feitas noutras zonas de Lisboa, melhorando a fluidez da circulação automóvel e aumentando áreas verdes e de usufruto público. Justifica-se dar prioridade a este caso, porque a intervenção seria mais barata se realizada em conjunto com o desnivelamento do Nó do Lumiar, evitando futuras demolições e reconstruções.
Propõe-se também a criação de um novo atravessamento pedonal e rodoviário desnivelado entre ambos os lados da Calçada de Carriche, sensivelmente a meio desta, a melhoria do arranjo viário e requalificação desta via, e a transformação da Rua do Lumiar, na totalidade ou em parte, numa rua pedonal.
Ex-membro da Assembleia de Freguesia do Lumiar pelo PSD, entre 2017 e 2025
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