Pedro Passos Coelho e o seu labirinto

0
5

Pedro Passos Coelho nunca perdoou ter ganhado umas eleições que veio a perder mal o seu programa de Governo foi rejeitado. Aquele que foi o mais breve Governo deste século não ocupará espaço na memória, a não ser pelo que se seguiu: a maioria de esquerda celebrizada como “geringonça”.

Pedro Passos Coelho não só não perdoou ter sido substituído da forma como o foi, como não perdoou ter sido substituído por quem foi. António Costa completou uma legislatura de quatro anos, e um governo socialista com partidos mais à esquerda não mergulhou o país na crise financeira em que mergulhara com José Sócrates. Demitido por incúria própria e do Ministério Público, António Costa foi tão bem-comportado com Bruxelas que o Conselho Europeu o recompensou com a presidência.

Ao contrário do que ansiava, a profecia de Passos Coelho não se concretizou, e o diabo ficou em casa. Passos também. Abnegado e sacrificado, para quem vê nele o salvador da pátria, em tempos de bancarrota, Passos forjou para si próprio a auréola de messias. O homem que privatizou EDP, REN, ANA ou CTT, e que cortou vencimentos e pensões na função pública, não ganhou esse estatuto pelas reformas que fez, porque não as fez. O dinamismo do seu governo com Portas consistiu em aplicar com obstinação um plano severo de austeridade imposto pela troika, o que fez sem pestanejar, com a sensibilidade da motosserra de Javier Milei.

O ex-líder do PSD não está apenas ressabiado com o país. Está particularmente ressabiado com o actual líder do seu partido, e a dúvida é sempre é esta: qual é o seu objectivo, para além de denegrir constantemente Montenegro? A sua intenção é apenas essa e esgota-se em meias palavras, ambíguas e insinuantes, sobre originais e cópias, prostitutos com carácter ou sem carácter, ou pretende ocupar-lhe o lugar? Ou pretende demolir o PSD a partir de fora, com a criação de um novo partido?

No primeiro caso, Passos profissionaliza-se na apresentação de livros (que não apresenta), e as suas alusões vagas e acintosas estarão condenadas à irrelevância e ao mau gosto. Quanto à liderança, perdeu a hipótese de a disputar, no último sábado, e de impedir que Luís Montenegro fosse eleito para um terceiro mandato com 94,8% dos votos. Montenegro antecipou esta eleição como resposta aos reparos do seu antigo líder, mas este nem sequer votou. No segundo, não faltam por aí acólitos e quem sugira um partido com as suas iniciais (Partido Popular Conservador), a fazer lembrar o inevitável falhanço de Pedro Santana Lopes com o Aliança. Faz mais sentido o bloco de direita proposto por Diogo Feio, a AD alargada à Iniciativa Liberal, mas esse teria de ser um projecto do actual líder social-democrata.

Apesar de toda a ambiguidade retórica, Passos está mais próximo do Chega de Ventura do que do PSD de Montenegro. O ex-primeiro-ministro é favorável a uma aliança entre os dois partidos, que poderia ser fatal para o seu (se é que ainda o é), e tem recorrido aos mesmos slogans do Chega para associar imigração e criminalidade ou para subscrever a teoria de substituição e o que ela comporta de desinformação e xenofobia. Hoje, Passos Coelho faz parte dessa direita que não põe o cravo vermelho na lapela e que o substitui por outro, tingido de verde, sem saber quem foi Oscar Wilde e o que isso significa.

O que parece motivar Passos Coelho não é a preservação da social-democracia no seu partido nem a condenação dos esforços de Montenegro e de Leitão Amaro em “copiarem” o Chega. No seu enredo contraditório, Passos critica quem copia o original, por entender que o original é sempre melhor do que a cópia. Mas não deveria estar satisfeito com o facto de o PSD estar a copiar o Chega? Não é com o original que ele mais se identifica, seja na lei da nacionalidade, nas restrições à imigração ou nas políticas que discriminam minorias? A AD tem governado como Passos Coelho reclama, nestas matérias. Caso contrário, como diz, “qualquer dia, estaríamos, com certeza, a falar não do povo português, nem da cultura portuguesa, nem de coisa nenhuma, estaríamos a falar de outra coisa qualquer”.

Passos Coelho tem todo o direito ao azedume e às suas incongruências. Mas nem o azedume nem as incongruências são o melhor contributo para compor uma política mais destinada ao país do que a responder a uma vontade pessoal. Não basta parecer austero e monástico para se parecer (ou ser) um político sério e impoluto. Convém ter pensamento político, e isso é algo que rareia. É mais fácil vestir a “casaca do populismo” e inventar umas tiradas dúbias sobre “políticos postiços”, que ficam por explicar e perceber, naquilo a que o próprio chama “labirintos de interpretações”.

Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com