Comida de Santo: conheça o restaurante com sotaque nordestino mais antigo de Portugal

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Foi da paixão de um português pela culinária baiana que surgiu o Comida de Santo. E lá se vão mais de 45 anos que António Pinto Coelho foi fisgado pelo estômago e decidiu trazer um pouco do tempero nordestino para Lisboa. Originário do setor da hotelaria, o empresário visitava a Bahia a trabalho e a lazer e, a cada viagem, aumentava a afeição. Até que surgiu a ideia de unir o gosto pela comida baiana à arte de cozinhar, uma das suas atividades favoritas.

“Foi o primeiro restaurante com comida regional do Brasil por aqui. E, desde sempre, as moquecas são as estrelas da casa”, diz Flor Pinto Coelho, mulher de António e hoje à frente dos negócios. O prato, com um caldo generoso que une leite de coco e azeite de dendê (óleo de palma, em Portugal), é apresentado na carta em três versões: peixe, camarão e palmito, para não deixar os vegetarianos de fora. Também não podem faltar o bobó de camarão, com sua base cremosa de mandioca, e o vatapá, um “primo” da açorda portuguesa.

António e Flor Pinto Coelho estão à frente do Comida de Santo
Gisele Rech

Aos poucos, o menu abraçou outros sotaques brasileiros, como a mineirice e sucessos como o Picadinho à Mineira, servido com banana e ovo, e a Vaca Atolada, com reforço da mandioca, dois ótimos representantes da comida de panela — ou de tacho, como dizem os portugueses.

O sotaque carioca também se faz presente por meio da indefectível feijoada e seus derivados mais, digamos, modernos, como o bolinho de feijoada. Do Sul do Brasil, não pode faltar o churrasco, feito com um vistoso naco de picanha.

As últimas incorporações ao cardápio foram os escondidinhos, de camarão e carne de sol, que aparecem também na sessão de bar, voltada para petiscos e coquetéis, onde não pode faltar a caipirinha. “Temos duas opções de menu — para almoço e jantar —, e outra para um fim de tarde e pratos para petiscar com alguns copos”, enumera Flor.

Ingredientes

As influências africanas no receituário baiano e a proximidade entre a Europa e a África facilitaram o acesso a ingredientes como azeite de dendê e mandioca lá atrás, quando o restaurante foi aberto, em 1981. “No período pós-revolução [que marcou a queda do regime de Salazar em Portugal, em 1974], as relações comerciais com a África foram facilitadas”, conta Flor.

A moqueca — em várias versões — é o carro-chefe do restaurante
Divulgação

Em outra frente, ingredientes que não podem entrar até hoje devido às restrições sanitárias, como produtos lácteos, são reproduzidos em terras lusas. “No caso do queijo coalho, servido como entrada e parte essencial do Baião de Dois, temos quem faça aqui em Portugal”, conta a empresária.

Já o molho de pimenta é feito na casa, por um capricho e um afago aos clientes. “Leva pimenta e vodca e tem que ser usado com cuidado”, alerta Flor, dado o grau de picância contido na garrafinha entregue à mesa.

Molho de pimenta “caseiro”
Gisele Rech

Ambientação

A vontade de reproduzir um pouco de Brasil em Lisboa faz com que Flor tenha o cuidado de trazer do país, por exemplo, as peças de porcelana em formato de siri, nas quais serve a tradicional casquinha, uma das entradas mais celebradas da casa.

Aliás, no quesito ambientação, a brasilidade faz-se presente pela profusão de cores dos painéis pintados por Ana de Sá e na folhagem das bananeiras nos quatro cantos da casa. A “cereja do bolo” é uma poltrona inspirada numa cobra desenhada por Fernando Fernandes e recentemente reformada.

A decoração complementa o cantinho dedicado à comida brasileira
Divulgação

“Quando mudamos para Alcântara, há dois anos, um imperativo foi manter a essência da casa original”, conta Flor. Por isso, os dois papagaios de papel marchê garimpados em um antiquário à época da inauguração têm papel de destaque em uma vitrine na sala de entrada do restaurante, próximo ao bar.

A clientela, formada majoritariamente por portugueses e brasileiros, conta com uma crescente presença de turistas. “Muitos ficam curiosos quando passam pela frente do restaurante”, diz a anfitriã, que capricha também na trilha sonora com uma cuidadosa curadoria.

Refeição

Enquanto espera-se à mesa, Chico Buarque dá a letra com seu Cotidiano e as suas referências aos sabores à boca. E a tal “boca de feijão” é inevitável: para acompanhar o Picadinho, um dos pratos mais pedidos do menu, a infalível dupla arroz e feijão é parte dos acompanhamentos, ao lado da mais do que necessária farofa. O prato é suculento como deve ser, com direito à banana e ovo na finalização e aquele gosto de afeto e de saudade que qualquer imigrante brasileiro tem prazer em sentir vez ou outra.

O Picadinho à Mineira é um dos mais pedidos do menu do Comida de Santo
Divulgação

Muito deste conforto, provado também na casquinha de siri, tem a ver com quem comanda o fogão. Para dar conta da cozinha, Flor confidencia que há uma preferência por profissionais brasileiras, que já tenham o tempero brasileiro no DNA. “A Maria das Graças, que é de Goiânia, está conosco há mais de dez anos”, revela.

Já a baiana Sandra Souza chegou em Portugal há três anos, encontrou no restaurante uma extensão da sua terra natal. “Foi um encontro feliz ver o gosto de Dona Flor pela comida baiana e brasileira. Aqui tem muito dessa ginga, do gostinho de servir. Uma comida feita com carinho para deixar o cliente feliz, seja quem quer conhecer, seja quem quer matar saudades”, diz ela.

Sandra Souza e Maria das Graças são responsáveis pela cozinha do Comida de Santo
Gisele Rech

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