Vídeo que mostra pessoas a saltar vedação de fronteira em Espanha é actual? Não

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A publicação

Em várias publicações no X, surge um vídeo que mostra pessoas a trepar uma vedação. Nas descrições, diz-se que é um vídeo recente (em algumas refere-se dia 29 ou 30 de Maio) de migrantes a passar a fronteira de Marrocos para Espanha.

O contexto

“Aproveitem o intercâmbio cultural”, escreve um utilizador, num tom jocoso, depois de escrever que o vídeo onde se vêem pessoas a passar uma vedação retrata “o que está a acontecer em Espanha”. “Embora os agentes tentem detê-los, há relatos de que pelo menos 500 conseguiram passar”, continua.

Numa das imagens, a cena é gravada através da janela de um carro e o motorista aparece. Uma utilizadora responde à publicação: “O motorista está a usar máscara por algum motivo? Protocolo? Ou são imagens da pandemia.”

Os factos

A utilizadora tem razão: quando o vídeo foi gravado ainda era obrigatório usar máscara cirúrgica em Espanha. O que se vê são, de facto, migrantes a passar a fronteira de Marrocos para Espanha, no enclave de Melilla.

Uma pesquisa de imagem reversa mostra que o mesmo vídeo foi partilhado pelo jornal La Vanguardia em Março de 2022. A realidade, quatro anos depois, é muito diferente. E o governo de Ceuta disse ao jornal online de fact-checking espanhol Newtral que “há anos que não acontece nada assim”. O governo de Melila também garante que o vídeo não é recente.

Em Março de 2022, o La Vanguardia dava conta da “maior tentativa dos últimos anos”: 500 pessoas conseguiram escalar a fronteira no dia 2 de Março de 2022. Mas as autoridades marroquinas terão impedido cerca de duas mil de seguir o mesmo caminho.

Em Junho, uma nova vaga provocou 37 mortos, o maior número de vítimas numa só tentativa de cruzar a fronteira. Do lado de Marrocos, em Nador, Tareq (nome fictício) contou ao El País: “Era tudo sangue, tudo sangue… sangue na cabeça, pele rasgada, pés partidos, mãos partidas […] Os que não tinham morrido acabaram por morrer, bateram-lhes muito.” O homem era um dos trabalhadores chamados para apanhar do chão as pedras e os paus usados pelas cerca de 2000 pessoas que tentavam entrar em Espanha. “Isto foi um crime”, “estiveram lá todos desde o meio-dia, ali, atirados ao chão, ao sol, a sangrar”.

Algumas pessoas morreram asfixiadas ou esmagadas junto à vala, outras caíram da cerca. Para cinco organizações não-governamentais espanholas e marroquinas, quem morreu foi um “símbolo trágico das políticas da União Europeia e da externalização das suas fronteiras”.

Desde então, os migrantes passaram a escolher outras rotas. Uma reportagem da France 24, que revisitou, três anos depois, os acontecimentos de Junho de 2022, deu conta de que a violência vivida naqueles dias “dissuadiu” os migrantes de tentar passar a fronteira por ali. “Muitos dos que agora chegam à União Europeia escolhem as Ilhas Canárias, uma rota que é mais perigosa.”

O veredicto

As publicações dos últimos dias são enganadoras: o vídeo que está a ser partilhado tem quatro anos e, desde essa altura, a realidade não é a mesma. Desde 2022, quando 37 pessoas morreram a tentar passar a fronteira, não voltou a haver registo de uma situação semelhante.

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