O hospital cinzento

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Os logótipos parecem todos iguais. As marcas de luxo desistiram do seu estilo, das ornamentações, daquilo que as tornava reconhecíveis a três metros de distância. Ficaram com o mesmo tipo de letra geométrico, lavado, simétrico. Os carros, vistos de longe, são quase indistinguíveis. Os telemóveis são todos retângulos pretos com cantos arredondados e câmaras alinhadas, e os ícones das aplicações que os preenchem são também quadrados arredondados, com gradientes pastel, indistintos uns dos outros. Nos supermercados, as embalagens repetem-se: fundo claro, tipografia despojada, qualquer coisa de artesanal mas não a sério. As miniaturas dos vídeos do YouTube têm a mesma cara de espanto, a mesma seta vermelha, o mesmo enquadramento. O mundo perdeu textura.

Há quem lhe chame blanding, contracção de bland e branding, e há um nome para a regra que o produz: a otimização para a média. Quando se testa, mede e itera tudo até encontrar o que agrada ao maior número de pessoas, o que sobra é o denominador comum. Os atributos distintivos morrem primeiro, porque dividem opiniões. Sobra o seguro, sobra o cinzento. Esta lógica não fica nas montras nem nas demonstrações. Atravessa qualquer sistema que precise de funcionar à escala. E poucos funcionam à escala como a saúde, que é também o sítio onde a uniformização tem a sua justificação mais defensável.

A uniformização na saúde pode salvar vidas. Lavar as mãos antes de tocar no doente, contar os instrumentos antes de fechar o abdómen, seguir um protocolo de sépsis na primeira hora, marcar o lado correto antes da incisão. A medicina baseada em evidência é, em larga medida, a tentativa séria de reduzir a variação que mata, de garantir que dois doentes com o mesmo diagnóstico recebem cuidados comparáveis em Bragança e em Faro. Sem isto, o lado esquerdo e o lado direito do tórax ficam à mercê do humor do cirurgião naquele dia.

Mas há também uniformização que apaga doentes. A Triagem de Manchester, que organiza os fluxos nas urgências e atribui cores em função do risco, trabalha por critérios pré-definidos, e a literatura mostra há anos que doentes idosos e apresentações atípicas tendem a ficar subtriados, com cores que não correspondem à gravidade real. O SClínico (programa informático usado pelo Serviço Nacional de Saúde), que os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS) apresentam como instrumento de normalização da informação, oferece uma ficha de seguimento para o doente hipertenso e outra para o diabético; quem tem as duas patologias preenche as duas, e quem tem aquilo que não cabe em ficha alguma fica mal registado, refugiado em campos livres que poucos depois lerão.

As normas de orientação clínica recomendam o que faz sentido fazer a um doente representativo, e tendem a tropeçar quando chega o frágil de oitenta e cinco anos com cinco patologias e oito fármacos, em que a soma das recomendações isoladas é um dano cumulativo. Os algoritmos que estão a ser introduzidos para classificar risco e sugerir prescrição acrescentam outra camada: quanto melhor calibrados para a média, mais opacos perante o caso atípico, e mais difíceis de questionar porque a sua autoridade vem de não terem rosto.

A questão é a fronteira entre as duas uniformizações. A primeira reduz variação no erro: faz com que ninguém, em hospital nenhum, se esqueça de lavar as mãos. A segunda reduz variação no juízo clínico: faz com que ninguém, em hospital nenhum, se lembre de olhar para aquele doente como aquele doente. E a fronteira entre elas tem-se deslocado. Cada formulário novo, cada campo obrigatório, cada protocolo inscrito como software, empurra-a um pouco mais para o lado errado.

A pressão é a mesma da otimização das marcas. É preciso escalar, medir, comparar serviços e hospitais, apresentar indicadores, cumprir métricas, passar auditorias. Mas nada disto é gratuito. Tudo produz, ao mesmo tempo, um doente padrão que não existe, e em função do qual o sistema acaba por trabalhar. O doente real, com a sua biografia, com as suas dores passadas, com o medo concreto de hoje, com receio do futuro, fica fora dos campos.

Não é fácil saber onde redesenhar a fronteira. Mas é possível reparar quando ela se mexe. O tempo da consulta consumido pelo formulário, e não pela conversa. A triagem que decide antes de o doente terminar a frase. O algoritmo que sugere e que ninguém contradiz, porque contradizer é ficar exposto. O hospital que começa a parecer-se com o aeroporto e com a aplicação bancária: o mesmo cinza, a mesma simplicidade ostensiva, o mesmo apagar das diferenças. As marcas podem dar-se ao luxo de se confundirem. Os doentes não.

O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

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