O poder de errar

0
4

Quando o meu filho tinha dez anos e soube que ia ter uma irmã, reagiu com entusiasmo: “Boa, já vou ter em quem mandar!” Era o mais novo da família e talvez se sentisse como o “mandado” da casa. Ao perceber que vinha alguém depois dele, sentiu, talvez pela primeira vez, o gostinho do poder de mandar. Mandar em nós e nos outros.

O poder de mandar mede-se em autonomia, mas também nos cargos e carimbos que nos permitem mandar nos outros. Há, depois, o poder de comprar, medido em saldo bancário, e o poder de seduzir, que se mede em olhares, sorrisos, silêncios calculados e, nesta era digital, em likes e emojis. A lista de “poderes” é interminável: o de falar mais alto, de ter (ou de querer ter) sempre razão, de decidir quando começa e quando termina uma conversa, uma relação, uma viagem e uma carreira de sucesso ou de fracasso. Somos uma espécie obcecada pelo poder, sejam grandes ou pequenos poderes. Quem já ficou à espera de que o porteiro de um bar lhe concedesse o privilégio de entrar ou que a senhora da limpeza o autorizasse a pisar o chão acabado de lavar sabe do que falo. O poder é exercido em todo o lado: o seu detentor ou praticante veste fato e gravata, saia e casaco, calções e sapatilhas, fato de macaco ou minissaia.

Enumeramos poderes como quem faz um inventário de troféus. Mas há sempre um que ninguém ostenta no currículo oficial, seja naquele que se envia para procurar emprego, seja no que se descreve na primeira saída com uma rapariga de quem se gosta: o poder de errar. Não fica bem na fotografia. Preferimos batizá-lo de “aprendizagem”, “resiliência”, “trajetória”, qualquer coisa que não nos denuncie como falíveis. E gostamos de cobrir os erros com um bonito papel de embrulho, sob a forma de relatórios, teorias, piadas…

E, no entanto, é talvez o único poder que partilhamos todos, do Presidente da República ao sem-abrigo, do génio ao distraído. Todos erramos. E é nesse campo esburacado, onde tropeçamos uns nos outros e em nós mesmos, que a nossa humanidade se revela com mais nitidez. Uma pedra não erra. Erra quem lhe pega, faz pontaria e a atira, acertando ou falhando. Podemos discutir se é sempre errado atirar uma pedra. Inclino-me para o lado dos que defendem que às vezes é preciso atirar uma pedra com força. E não é este poder de errar que nos faz crescer e, um dia, acertar?

Falemos, então, do poder de saber o que fazer com os erros. Os nossos e os dos outros. Há quem transforme o erro em desculpa perpétua e quem o use como alavanca. Entre a arrogância de quem se julga infalível e a leviandade de quem se demite com um “é a vida”, há um caminho mais difícil: o de olhar de frente para o erro, aprender o que der, pedir perdão quando é preciso e, sobretudo, tratar com cuidado o erro dos outros, avançando sem peso às costas.

A teoria é linda. A prática? Dura, difícil, incerta. O António, um amigo de longa data, sentiu isso na pele quando um erro no mercado financeiro lhe custou o emprego de anos. Embora vivesse habituado à volatilidade e ao erro quotidiano, houve um que o atingiu de forma diferente. Não o leu como um gráfico ou uma perda estatística, mas como um veredito sobre si mesmo e acabou por transformar um deslize profissional num falhanço pessoal profundo. Lembrou-se da teoria: “olhar de frente para o erro, aprender o que der”.

Repetiu-a como um mantra, tentando permanecer calmo. Mas a ânsia da correção falou mais alto. Tentou emendar rapidamente o erro inicial e cometeu outro, e mais outro, outro ainda: uma sucessão de erros encadeados, até formarem um erro imenso, gigante, que ameaçava engoli-lo e arrasar a imagem que projetava: competente, coerente, senhor de si, focado. Um erro como tantos outros, mal gerido, rachou o figurino profissional que levara anos a montar. E o reflexo dos seus olhos ao espelho doeu, porque o desmentia, mas ao mesmo tempo libertou‑o, porque o devolveu ao que era: um ser inconstante, às vezes ridículo, às vezes inteiro, sempre inacabado — a verdade menos lisonjeira e mais real do poder.


O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com