Ângela Mira descreve uma situação peculiar, mas que não será isolada. Numa zona mais rural de Beja, a médica de família encontrou três mulheres com esclerose múltipla que abandonaram a medicina e recebem agora “tratamentos” com doses elevadas de vitamina D. “Não as consigo demover”, lamenta. “Preocupa-me.” O exemplo serve como aviso: os suplementos alimentares estão por todo o lado, promovidos muitas vezes como soluções milagrosas e, por isso, tornaram-se hoje um perigo para a saúde pública.
“Há uma utilização desmesurada de suplementos”, diagnostica Ângela Mira, da Unidade de Saúde Familiar (USF) Alfa Beja. Descreve o fenómeno como uma “glorificação dos suplementos” e uma predilecção “pelo que é natural” em contraponto com a crescente “desvalorização dos medicamentos”.
O relato encontra semelhanças com os de outras quatro médicas de família que traçam a imagem dos utentes com que se cruzam em consultório: o consumo de suplementos alimentares é cada vez maior, sobretudo para emagrecimento, reforço muscular, menopausa ou cognição, e as redes sociais são a porta de entrada para muitas destas cápsulas ou gomas na vida da população. Os mais jovens e as mulheres acima dos 50 anos parecem mais interessadas, mas a toma destes produtos é transversal a todas as gerações.
Os suplementos alimentares são cápsulas concentradas de nutrientes (como vitaminas e minerais) ou outras substâncias para complementar a alimentação. Podem ir de cápsulas de vitamina D a fórmulas com extractos de ervas. Muitas vezes são promovidas como soluções para a regulação do sono, o controlo hormonal ou até para bronzear – mas os suplementos alimentares apenas podem servir como complemento a alguma carência nutricional ou em situações de doença. A legislação em vigor trata os suplementos como alimentos e não como medicamentos, pelo que não podem fazer quaisquer alegações de prevenção, tratamento ou cura de doenças.
As médicas ouvidas pelo PÚBLICO identificam a obsessão com os suplementos alimentares como um problema de saúde pública ou, no mínimo, que para lá caminha se nada for feito. “A crença de que um suplemento pode ser suficiente para o tratamento ou a cura de doenças graves pode atrasar intervenções médicas validadas”, avisa Raquel Lima, da USF Flor de Sal, em Aveiro.
“Os suplementos são atractivos para quem procura uma resposta rápida a coisas que não vão bem. É muito mais prático comprar-se a ideia de que um suplemento cura o meu cansaço ou as minhas dores articulares”, reforça Marina Gonçalves, da USF de Ruães, em Braga.
Nem todos os suplementos alimentares são inúteis, mas muitos apenas contribuem para o aumento da despesa familiar, o atraso no tratamento ou agravamento do problema de saúde e uma despreocupação com factores mais importantes a nível nutricional: o exercício físico e a alimentação. “Não vale a pena tomar um suplemento com todas as vitaminas possíveis e imaginárias e não comer fruta e legumes em quantidade adequada. Ou tomar creatina, mas não praticar exercício físico”, lembra Marina Gonçalves. “Sinto até que corremos o risco de entrar na substituição dos hábitos de vida saudáveis por suplementos, porque agora há a ideia de que este suplemento vai fazer efeito muito rápido.”
Quem recomenda?
Marina Gonçalves já vê até mulheres que não fazem exercício físico a perguntar se podem comprar creatina porque viram que “todas as mulheres deviam tomar”. A generalização das recomendações e intervenções é outro risco. Mas de onde vêm estas ideias e sugestões? Em zonas mais rurais, a recomendação de amigos e familiares ainda é um caminho comum. Mas, na esmagadora maioria dos casos, há duas fontes primordiais: as redes sociais e a inteligência artificial.
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“Os utentes trazem tudo estudado e textos do ChatGPT”, conta Andreia Lobo, da USF de Cruz de Celas, em Coimbra. “Quando chegam ao consultório, já vêm com o cardápio.” Nesse cardápio detalhado, há análises específicas para ver carências nutricionais ou procurarem os valores que gurus do fitness ou da alimentação ditam nas redes sociais ou que uma plataforma de inteligência artificial prescreveu. De fora das opções fica, geralmente, a mudança de comportamentos, suficiente em muitos casos para melhorar a saúde física e nutricional.
Mais do que a inteligência artificial, o principal meio de difusão está claramente nas redes sociais. “Somos bombardeados com anúncios”, diz Susana Miguel, da USF de Coimbra Centro. Admite que o problema não é novo, recordando a promoção a suplementos sem qualquer prova científica nos programas de entretenimento, mas acrescenta que agora “deixa de afectar as faixas etárias que estavam dependentes da televisão e torna-se mais generalizado”.
E, com isso, o aumento nota-se em todos os consultórios. Seja para reforçar o sistema imunitário, para complementar o ginásio ou para dormir melhor – até em crianças já há casos de toma de melatonina para regular o sono, sem qualquer indicação médica. “A tendência das redes sociais reflecte-se em consulta, sendo cada vez mais comum os utentes questionarem e iniciarem a toma destes produtos sem supervisão profissional”, nota Raquel Lima.
Os influenciadores digitais são um dos exemplos mais recorrentes. Num vídeo na cozinha ou no ginásio podem dar dicas sobre como fazem para ter aquele corpo invejável. A resposta é muitas vezes uma goma, um pó ou uma cápsula. Um vídeo de alguém famoso ou que seguimos há anos pode chegar para clicar em “encomendar”.
“Vêem no TikTok e no Instagram que é quase obrigatório tomar para compensar carências nutricionais”, diz Andreia Lobo. “Antes de rever a alimentação e o exercício físico, saltam directamente para estes suplementos sem grande informação. Acham que é normal e que podem tomar doses infinitas. Como não tem uma receita médica, podem automedicar-se e tomar.”
Aqui, entra também o mercado de vendas online. Alguns relatos de utentes mostram que há suplementos encomendados e que chegam a casa por correio em que a informação sobre a sua produção é escassa. E isso torna-se perigoso porque, existindo pouca fiscalização, pode haver contaminação ou ter substâncias que não estavam identificadas.
“Coisas naturais”
“Na era em que toda a gente tem uma voz nas redes sociais, já não se atribui importância a quem é dono daquela voz”, lamenta Marina Gonçalves. “Pode ser um médico com anos e anos de estudo ou pode ser uma influenciadora, que tem uma vida óptima e, como é jovem, tem um estado de saúde espectacular. De repente estas duas pessoas que têm conhecimentos absolutamente díspares, mas têm um alcance muito distinto, passam a ter a mesma importância.” Há quem ainda pergunte antes de usar alguma coisa ao médico de família, mas é cada vez menos o caso.
Um dos outros problemas identificados é a percepção de que tudo isto é natural e, como é natural, não acarreta quaisquer perigos. Ângela Mira sentiu a “resistência” e o “aumento do movimento antivacinas” e do “natural” após a pandemia da covid-19. Por mais que alerte para o desconhecimento sobre o que está dentro dos frascos de suplementos e das condições em que são feitas, percebe que é difícil contrariar o que considera problemas de saúde pública: a desinformação e a promoção abusiva de suplementos alimentares.
“Quando pergunto se tomam medicamentos dizem que não, mas se falar em suplementos já dizem ‘ah, sim, mas são coisas naturais para a imunidade’”, cita Ângela Mira. Em muitos casos, nem são suplementos naturais e, mesmo que fossem, nem sempre o natural é bom. A promoção de suplementos como arroz vermelho, magnésio, berberina ou zinco é assente em promessas de resolução de problemas para os quais estes produtos não têm qualquer prova científica dada.
E estes relatos, vão avisando as médicas entrevistadas pelo PÚBLICO, são apenas os que conhecem. Muitas vezes há resistência ou medo em contar ao médico de família que se tomam outras coisas para lá do receitado. Raquel Lima sabe disso e recomenda persistência. “É importante que os profissionais de saúde questionem activamente acerca da toma destes produtos, dado que na maioria das vezes não são referidos espontaneamente e estes suplementos não são inócuos.”
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