Francisco Redondo cresceu a ver a irmã a lutar contra um inimigo anónimo que veio a descobrir chamar-se dislexia. Para impedir que mais estudantes passem pelas mesmas frustrações, Francisco criou uma startup e está a desenvolver uma plataforma digital, uma espécie de companheiro de leitura personalizado, que permite a pais e professores acompanhar o progresso diário dos alunos.
A startup Dyscovery nasceu no seio da JUNITEC, empresa do Instituto Superior Técnico (IST) da Universidade de Lisboa, formada exclusivamente por estudantes universitários. Francisco recrutou Margarida Nunes, Vítor Clara e André Rodrigues — todos estudantes de mestrado no IST — para começar a desenvolver efectivamente o site, que se encontra neste momento numa segunda fase experimental com projectos-piloto em cinco escolas parceiras de Lisboa, Coimbra e Leiria, envolvendo mais de 100 alunos em testagem activa.
Estima-se que a dislexia, uma dificuldade específica que afecta a leitura e a escrita — e a sua aprendizagem — afecte cerca de 120 mil estudantes, segundo dados da Associação Portuguesa de Dislexia. Não está relacionada com a qualidade do ensino, o nível intelectual, as oportunidades socioculturais ou com as alterações sensoriais de uma criança. Tem, sim, uma base neurobiológica, com alterações na estrutura e funcionamento do cérebro da criança em que esta dificuldade é diagnosticada. Numa criança com dislexia existe um défice no processamento fonológico, ou seja, na conversão dos grafemas para os fonemas — na leitura — e dos fonemas para os grafemas — na escrita.
Um diagnóstico atempado e um acompanhamento adequado são fundamentais para desenvolver estratégias de adaptação e mitigar as dificuldades causadas pela dislexia, que, caso contrário, pode extravasar para todas as áreas da vida da criança, incluindo para a relação com outras crianças e com a família, gerando ansiedade, baixa auto-estima e desmotivação.
DYSCOVERY
DYSCOVERY
Na prática, a plataforma, que combina inteligência artificial com aspectos da ciência cognitiva, oferece dois tipos de exercício: um modo de leitura assistida, com apoio visual e auditivo — como uma espécie de karaoke da leitura — e um segundo modo, o de praticar, onde os alunos podem ouvir frases (e escrevê-las) ou ler uma frase em voz alta e receber dicas sobre a pronúncia ou a fluência. A aplicação permite ver as sílabas de cada palavra, um aspecto muito importante para uma pessoa com dislexia, e é capaz de se adaptar em tempo real às necessidades de cada utilizador.
No momento da criação da conta, os alunos são obrigados a seleccionar o seu ano de escolaridade, para que a plataforma sugira exercícios com uma dificuldade apropriada para cada nível de aprendizagem. “Mas se o aluno tiver quatro ou cinco exercícios com a pontuação máxima, a aplicação sugere-lhe que mude de nível para um mais difícil”, explica o gestor do projecto, Francisco Redondo, ao P3.
A plataforma vai recolhendo métricas de velocidade da escrita e leitura e apresenta uma nota global, que permitem ao professor acompanhar a evolução de cada aluno. “A aplicação também possibilita que os docentes introduzam frases e criem os seus próprios exercícios, que podem ser diferentes consoante a criança”, refere o gestor. “Aos alunos que têm dificuldades na velocidade de leitura podem dar exercícios com frases mais curtas, por exemplo.”
Novo nível desbloqueado
A primeira fase de testes nas escolas portuguesas onde o projecto-piloto está implementado serviu para a equipa recolher feedback de alunos e professores no que toca à interactividade e experiência na plataforma — e para perceber se os exercícios eram apropriados para cada nível de escolaridade. Com base nas informações que recolheram, perceberam que seria “benéfico” adicionar uma componente de gamificação, para incentivar os alunos a realizar cada vez mais exercícios através da atribuição de “missões e recompensas”.
Com esta componente, e mesmo ainda em fase de testes, a equipa viu aumentar o número de exercícios feitos (e a precisão com que eram realizados) e a quantidade de acessos à plataforma.
“Os alunos sentem-se mais motivados para fazerem mais exercícios com esta questão gamificação”, aponta Francisco. “O nosso foco foram os primeiros anos de escolaridade apenas porque a dislexia se faz sentir mais nessa altura, mas já estamos a desenvolver exercícios mais complexos para outras idades, para que os jovens continuem a praticar longo da vida, porque só com leitura e escrita é que a dislexia desaparece”, aponta o gestor do projecto.
Terminada a fase de testes, a Dyscovery quer estabelecer-se no maior número de escolas possível e levar a plataforma a cada vez mais alunos. Depois, quer chegar aos pais, para permitir que tenham acesso a um site centralizado com vários exercícios para afugentar a dislexia. “Gostávamos de gerar alguma sensibilização para aquilo que é a dislexia. É uma dificuldade que, muitas vezes, acaba por passar ao lado dos pais”, refere.
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