Prioridade europeia: fazer renascer a relação atlântica

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Foi a relação no Atlântico Norte que permitiu a vitória aliada na Primeira e na Segunda Guerra Mundial. Foi ela que conteve o avanço russo na Europa, o que Churchill entendeu desde 1941. Ela é o pilar central da estratégia ocidental desde há 110 anos. Não se trata de uma conjuntura, de algo que depende deste ou daquele líder. É a referência básica do mundo livre.

Depois de 1991, a relação atlântica pareceu perder importância, mas renasceu com as primeiras crises (Golfo, ex-Jugoslávia, Afeganistão), enquanto se reinventava com a noção das intervenções fora de área. Os EUA transferiam recursos para o Oriente e sabiam que o seu grande desafio futuro viria da China. Por esse motivo, incentivaram a conciliação com a Rússia, o que abriu caminho às vergonhosas cedências excessivas de 2014 (crise da Crimeia). A Europa foi mais longe e, sob a batuta desastrosa da Alemanha, cai, entre 2014 e 2022, numa dependência colossal da Rússia, no campo energético e noutros. Acreditava-se que a guerra de alta intensidade não regressaria à Europa e que esta podia continuar a gastar metade do que os americanos dedicavam à defesa (em termos relativos) sem problemas.

O despertar para a realidade, em 2022, foi duro. Num primeiro momento, até parecia que a relação atlântica tinha renascido, com a Europa a cerrar fileiras atrás dos EUA no apoio à Ucrânia. Em 2025, a dura realidade impôs-se e, na Europa, foi o grande desnorte. Teoricamente, aceitou-se que era necessário gastar com a defesa algo de semelhante (em termos relativos) aos EUA (5% do PIB). No entanto, a maioria dos Estados europeus ainda julgava que o “problema era Trump”, pelo que se resolveria com o tempo. Nova desilusão: os EUA cortam o apoio militar directo à Ucrânia e no seu documento de reflexão estratégica de 2025 afirmam que a Europa deixou de ser prioritária, está “desorientada” e a maioria dos seus líderes não merece confiança.

Desta vez, a Europa reage e, no desnorte e falta de visão estratégia a que já nos habituou, reage mal. Começa por colocar em causa o vínculo da NATO, não apoia os EUA na crise do Irão e nega (na maioria dos Estados) o uso das bases e do espaço aéreo aos seus aparelhos. A resposta de Washington é forte: fala em abandonar a NATO, retira forças da Alemanha e menciona a possibilidade de transferir as suas bases da Espanha para Marrocos. A relação atlântica, o eixo central do sistema ocidental, é posta em causa. É verdade que a fase pior do desnorte europeu foi curta e, em poucos dias, todos (com a triste excepção da Espanha) voltaram atrás quanto ao uso das bases. Mas o mal estava feito e era catastrófico.

A “Europa das pátrias”

Catastrófico para quem? Em primeiro lugar, e por larga margem, para a Europa. A defesa europeia não tem qualquer credibilidade em termos globais sem o apoio americano. Em contrapartida, o apoio europeu não tem o mesmo peso para os EUA, que desvia os recursos próprios para o Médio Oriente e para a Ásia, enquanto afirma ainda que a “relação privilegiada” com a Europa só pode regressar se a visão estratégica dominante no velho continente mudar.

A Europa desarmou-se em 30 anos de colossais erros e, pior ainda, deixou-se atrasar em tudo o que são tecnologias emergentes para a defesa e segurança. Há uma solução para isso? Sim, mas aumentar as despesas com a defesa não é suficiente. O importante é aprofundar a integração europeia, mas isso é justamente o que os senhores de Bruxelas prometem há 30 anos, sem nunca o concretizarem. Mais, isso é o que os EUA, a Rússia e a China de hoje não desejam, pois todos falam numa “Europa das pátrias” e não num continente que avance para uma maior integração na defesa e segurança. No entanto, sem ela, um aumento das despesas com a defesa não produzirá os resultados necessários.

Insígnia com a forma de um avião JAS 39 Gripen com as cores da NATO e da Suécia no uniforme do tenente-coronel Johan Legardt, chefe do contingente sueco na Islândia, a 2 de Março
Tom Little/Reuters

Os mais lúcidos dirigentes europeus sabem isto perfeitamente, mas todos têm medo das consequências políticas do aumento da integração, numa altura de pulverização de voto e coligações de extrema fragilidade. É caso para perguntar: mas não será o contrário? Não será a falta de uma visão estratégica, de uma solução adaptada à mudança do mundo, que produz a pulverização do voto? Não será a insistência em soluções de parque jurássico, que quase todos os europeus entendem que não vão resultar no nosso mundo, que os leva a afastarem-se dos que pretendem que o tempo volte para trás? Não será altura de deixar de tratar os europeus como crianças que têm de ser embaladas por contos de fadas? Salazar também queria que o tempo recuasse e conseguiu aguentar-se por três décadas depois da Segunda Guerra Mundial. O que não conseguiu foi que o tempo recuasse…

Interesses comuns

A conclusão é a de que a Europa precisa desesperadamente de refazer a relação atlântica, pois só daí poderá chegar a renovação da sua força, a credibilidade da defesa dos seus interesses e valores básicos. Simplesmente, os EUA não o querem fazer enquanto a política do passado, a visão utópica de um mundo irreal, prevalecer. Será que isto vai mudar, depois da Administração Trump? Duvido. Os ventos da História apontam para o contrário, para um reforço da viragem americana para a Ásia, para uma mudança das regras do sistema económico internacional, para uma ampla revisão da legislação internacional do pós-guerra, para uma defesa dos interesses reais.

Parece um problema insolúvel, mas talvez não o seja, desde que mude a aproximação europeia e se desvaneçam, mesmo parcialmente, as suas ilusões. Para a Europa, a prioridade absoluta é refazer a relação atlântica, o que só pode passar por encontrar os caminhos concretos para defender os interesses comuns.

Deixo algumas sugestões, sabendo que a maioria, possivelmente, ainda não está preparada para as entender.

  1. A Europa tem de avançar no caminho da integração no campo da defesa e segurança, pois só isso lhe dará uma dimensão operacional em termos globais.
  2. Não o pode fazer a 27 por razões evidentes. A solução é a mesma que foi aplicada no euro. Deve ser criada uma coligação de vontades do núcleo central, que irá avançar no aprofundamento da política de defesa e segurança comum, enquanto os que não o desejam fazer ficam para trás, sem qualquer problema para eles, mas sem arrastarem todos para o fundo.
  3. A Europa deve saber que, mesmo que isto seja feito, o que é duvidoso, demorará 10 a 20 anos a recuperar as capacidades perdidas e a adquirir as emergentes.
  4. Até lá, a Europa deve encontrar caminhos para aprofundar a colaboração com os EUA, pelo simples motivo de que não tem alternativas em termos globais.
  5. Os caminhos da renovação atlântica só podem ser os que os EUA estão dispostos a trilhar. Por exemplo, a “contenção da Rússia” deve ser uma prioridade da Europa, mas é irrealista pensar que os EUA apoiariam este projecto como um objectivo em que investissem recursos importantes.
  6. Como alternativa, avanço com quatro outras possibilidades para projectos atlânticos no campo da defesa e segurança, que implicam investigação para criação de novas capacidades. Os EUA provavelmente aceitariam avançar com eles numa renovada cooperação atlântica, até porque são o caminho para relançar a economia.
  7. Os projectos, ou troncos de projectos, com mais potencialidade são as tecnologias de defesa anti-drones e anti-mísseis, campo em que a Ucrânia devia ter um papel de relevo; a contenção do avanço do fundamentalismo de várias tonalidades no Médio Oriente e África; a reinvenção da defesa do Atlântico Norte e do Ártico, para responder às novas ameaças, nomeadamente os drones aéreos, os drones submarinos ou os mísseis de longo alcance com hipervelocidade; os projectos de aplicação da inteligência artificial na defesa e segurança, bem como da sua regulamentação.
  8. Para ser possível seguir este caminho, é essencial que a Europa entenda que a defesa, a segurança e a política externa (andam todas de braço dado) se baseiam numa visão dos interesses de médio e longo prazo, apoiada num pensamento estratégico. O objectivo é anular ou conter os perigos e ameaças, de modo a permitir o modo de vida baseado nos valores democráticos na relação atlântica, bem como criar as condições do desenvolvimento. A defesa dos interesses é a vertente fundamental para decidir nestas áreas. Considerar que a linha condutora é o respeito da letra da legalidade internacional é o caminho para uma derrota certa.
  9. No caso da defesa, segurança e política externa, a legalidade internacional deve ser entendida como uma referência, um campo de batalha (nunca há só uma opinião sobre qualquer assunto) e uma vertente condicionante, mas nunca a linha condutora principal para a sua elaboração. As principais instituições multinacionais, aliás, são as primeiras a explicar que a legalidade internacional é indicativa e não vinculativa (ao contrário da lei interna). Pois não é a ONU que determina na sua Carta que a legalidade internacional se aplica aos pequenos, mas não aos grandes, que têm o “direito de veto” no Conselho de Segurança? Podemos perguntar: das centenas de guerras das últimas décadas, quantas respeitaram a legalidade internacional? Nenhuma! Mas, se assim é, como pode haver quem pense que a legalidade internacional é a primeira e principal linha de defesa? Quando foi a última vez que a sua invocação fez parar uma agressão? O que vemos é o contrário: primeiro, a força vence a guerra; depois, os derrotados enfrentam os tribunais internacionais. A legalidade internacional deve ser defendida (e revista), mas sem ilusões sobre a sua eficácia.

Muito ficou por dizer, mas, sem alargar demasiado estas reflexões, só queria sublinhar que o essencial é que o mundo mudou radicalmente, gostemos disso ou não. A humanidade precisa de uma colaboração cada vez maior para resolver os seus grandes problemas; infelizmente, nunca houve tantas guerras e nunca um conflito global intenso esteve tão próximo (o Papa Francisco dizia mesmo que já começou).

São necessárias novas respostas adaptadas ao nosso mundo. Precisamos de métodos renovados, de uma estratégia ousada, de repensar os valores, normas, leis e regulamentos sem esquecer o fundamental e, ainda mais importante, temos de o fazer ao ritmo alucinante da mudança do mundo. Os “políticos do parque jurássico”, os “mais do mesmo”, são o nosso grande problema. A decadência do poder relativo da Europa é inevitável; a queda brutal que o mais pequeno dos continentes conhece hoje, afastado já das grandes decisões internacionais, resulta só da cegueira e desnorte que o domina.

Historiador

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