Economia do Brasil está entre pessimismo do mercado e otimismo do governo, diz Salto

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Um dos mais requisitados economistas brasileiros, Felipe Salto, da Warren Investimentos, vê o Brasil caminhando em uma trilha positiva, “melhor do que o mercado acha e um pouco pior do que o governo defende”. Ele diz que, somente nos dois primeiros anos do governo Lula, o Produto Interno Bruto (PIB) do país cresceu quase 7% e deve avançar mais 2% em 2026, com a taxa de desemprego perto das mínimas históricas. Mas alerta para a fragilidade das contas públicas.

Em Portugal, onde participou como palestrante do XIV Fórum de Lisboa, Salto afirma que, até agora, Lula é o favorito nas eleições presidenciais marcadas para outubro e lamenta o fato de o Brasil não ter uma direita civilizada capaz de se desvencilhar do bolsonarismo, que ele define como “uma desgraça”. Assinala, ainda, o desconforto de ver um senador da República, Flávio Bolsonaro, também candidato à Presidência da República, atuar para que os Estados Unidos ataquem o Brasil com um novo tarifaço.

“O bolsonarismo é uma tristeza, uma desgraça que acometeu o Brasil e na qual o país ainda está preso. Neste momento, estamos vendo a questão do tarifaço que o governo dos Estados Unidos quer impor ao Brasil, incentivado pela família Bolsonaro. Me impressiona que um membro do Poder Legislativo, que é o senador Flávio Bolsonaro, vá ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, a principal autoridade depois do presidente Donald Trump, para pedir coisas contra o Brasil”, destaca.

Salto ressalta, ainda, que há um cansaço da população em relação ao atual governo, devido à sensação de mais do mesmo. Para ele, o desafio do próximo governo será inovar e entregar mais aos cidadãos, sobretudo em relação aos serviços públicos. Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista exclusiva que o economista concedeu ao PÚBLICO Brasil.

Como vê a economia brasileira hoje?
Creio que a economia está melhor do que o mercado acha e um pouco pior do que o governo defende. A taxa de desemprego está próxima da mínima histórica, abaixo de 6%. A inflação está um pouco pressionada pela questão dos combustíveis, do choque do petróleo, o que ocorre no mundo inteiro, e há resiliência da inflação de serviços, que preocupa. Do ponto de vista do crescimento econômico, não é o crescimento dos sonhos, porque o país deveria estar avançando 4% ao ano para ampliar a renda per capita mais rapidamente, mas é um crescimento razoável. Neste ano, provavelmente, o PIB vai crescer em torno de 2%, e, no primeiro biênio do mandato do presidente Lula, o acumulado foi de quase 7%.

Mas há problemas na área fiscal, certo?
Esse é o nosso calcanhar de Aquiles. O país tem um déficit agregado nominal de quase 9% do PIB. E a conta de juros é a maior responsável por esse déficit. Oito e meio por cento do PIB são gastos com juros. O déficit primário (receita menos despesas sem considerar as despesas com juros) tem variado entre zero e 0,5% do PIB. Não é o fim do mundo. O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad fez uma agenda, que o atual ministro, Dario Durigan, está continuando, que é boa, porque atacou o lado da receita, pois há muita desigualdade no sistema tributário brasileiro. Eles revisaram alguns benefícios, colocaram o dedo na ferida e tributaram os fundos exclusivos de investimento e os investimentos offshore.

Muitos economistas criticam o fato de o governo só ter atuado do lado das receitas.
Eu não vejo isso como negativo. Acho que é importante. Mas realmente faltou atacar o lado dos gastos, um empenho maior para controlar o crescimento das despesas. Então, se o país superar esse desafio a partir do ano que vem, não tem por que não ser otimista com o Brasil.

Por que há dificuldade da população em sentir essa melhora na economia?
Eu entendo o seguinte: nos dois primeiros mandatos do presidente Lula, e ainda na esteira do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, os ganhos foram muito positivos, pois, antes, a sensação da população era de que tinha uma renda, do ponto de vista real, muito baixa, que não crescia, o desemprego era muito alto. Depois que se controlou a inflação, a renda aumentou, o país cresceu um pouco mais, com a estabilização da economia garantida por mais de vinte e cinco anos. Além disso, houve os programas sociais, notadamente o Bolsa Família. Esse período proporcionou um ganho extraordinário, uma vez que a base de comparação era muito deprimida. Garantir isso é bom, mas a percepção da população é de que precisa mais, precisa melhorar a qualidade dos serviços públicos, o custo do transporte, a carestia dos preços de alimentos. O que me parece ser o principal desafio da centro-esquerda, e eu acho que está caminhando, é o de se renovar e inovar, trazer coisas diferentes, porque a percepção da população é de que mais do mesmo não é suficiente.

O presidente Lula, até agora, aparece como favorito nas eleições presidenciais? Mas há um sentimento de certo cansaço na população depois do terceiro mandato.
Sem dúvida, o presidente Lula é o favorito, mas será uma eleição disputada e, realmente, há esse cansaço da população.

Há chance para um candidato da chamada direita civilizada?
A direita é importante para a democracia, mas tem que ser uma direita democrática, sólida, civilizada. Infelizmente, o que vemos é uma direita sem visão de mundo, sem uma visão de país, que não tem nada a apresentar. O bolsonarismo é uma tristeza, uma desgraça que acometeu o Brasil e na qual o país ainda está preso. Neste momento, estamos vendo a questão do tarifaço que o governo dos Estados Unidos quer impor ao Brasil, incentivado pela família Bolsonaro. Me impressiona que um membro do Poder Legislativo, que é o senador Flávio Bolsonaro, vá ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, a principal autoridade depois do presidente Donald Trump, para pedir coisas contra o Brasil.

A questão, por exemplo, da classificação do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do Comando Vermelho, que são organizações criminosas, que o país tem que combater, como organizações terroristas pode prejudicar o Brasil, pode afastar investimentos estrangeiros. E as nossas condições hoje de balanço de pagamentos, de contas externas, são muito positivas. Os investimentos estrangeiros diretos superam em quase 1% do PIB o déficit em conta-corrente, o déficit externo. Então, esse tipo de coisa, de mais tarifas, que teve influência, ou pelo menos um desejo de influência do bolsonarismo, é muito ruim. Vai ser preciso que o governo use a diplomacia qualificadíssima do Itamaraty para tentar conter a nova investida dos Estados Unidos contra o Brasil.

Já é possível medir o impacto na economia desse tarifaço?
Acho que ainda é cedo para falar, porque o Brasil tem uma balança comercial, por incrível que pareça, bastante diversificada e um saldo comercial muito positivo. Também tem o fator China e o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, que, a meu ver, nos favorecem, porque abrem outras frentes para se substituir o destino Estados Unidos.

Como aconteceu com o tarifaço de 50%, depois revogado?
Exatamente. México e China compraram nossa carne e nos salvaram, digamos assim, naquele primeiro momento do tarifaço.

E sobre o ataque de Trump ao PIX, sistema brasileiro eletrônico de pagamentos e transferência? Como vê?
É mais um capítulo da novela de uma política econômica nacionalista de Trump, desancorada do ponto de vista técnico. O ataque ao PIX, uma indiscutível joia produzida pelo Brasil, com grande mérito dos servidores do Banco Central, tem como motivação central a proteção de empresas do setor de crédito e cartões. No lugar de buscar a integração e a colaboração, quer minar um meio de pagamento que já responde por pelo menos metade das transações financeiras no Brasil. Isso deve ser visto, também, como parte do conjunto de pressões: tarifas, questão do terrorismo, etc.

Você participou do XIV Fórum de Lisboa. Como avalia esse evento?
O Fórum de Lisboa é um alento para todos os brasileiros que se preocupam com o futuro do nosso país. Ele funciona, ao mesmo tempo, como um mecanismo para integração internacional, como locus de mentes brilhantes de diversas áreas e países e como laboratório para testar ideias e propostas de transformação econômica, social e institucional. As reflexões são de altíssimo nível. Já participo há vários anos e, desta vez, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), se superou. Sua liderança é impressionante e tenho grande orgulho por poder participar e colaborar. Falei sobre fraudes e suas implicações econômicas. Mostrei que é hora de fortalecer a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e o Banco Central, à luz da experiência internacional. Não posso deixar de citar duas palestras magnas que pude ouvir no Fórum: a do Thomas Friedmann e a do Prêmio Nobel Joel Mokyr. Que momentos incríveis de aprendizado.

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