A rua feia

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A casa era pequena e o chão alcatifado, mas, quando vimos que a cozinha se abria para a sala e a sala se desdobrava para um imponente terraço, não hesitámos; pouco tempo depois a chave do apartamento foi-nos entregue e começámos a pensar nos móveis.

No terraço — fantasiava eu — caberiam os amigos e talvez um cão. Tinha passado a infância a ouvir os latidos tristes dos cães, confinados às casotas de cimento que eram todas iguais: uns blocos encafuados, onde os animais cabiam com esforço. Podiam ser ainda mais longos os invernos dos bichos, que enfiavam o focinho entre as patas como se dissessem que estavam tristes. Sempre achei que lhes adivinhava a tristeza, mesmo sem os ouvir ladrar.

Naquele terraço, talvez eu pudesse ter um cão livre. Mas não seria no imediato. Os móveis foram chegando à casa e agora lembro-me que foi naquela cozinha pequena, em aquário, que cozinhei os meus primeiros pratos, ao lado do meu marido.

A casa não era do tamanho da minha ansiedade; sempre precipitei os finais para não ter de esperar por eles, por isso a casa rapidamente ficou mobilada e pronta.

Chegávamos do trabalho, eu e o Tiago, e, com o sol do fim do dia, sentávamo-nos a fazer planos. Os planos, no abstrato, nunca apanhavam a minha ansiedade desprevenida. Eu achava que podia estender o futuro no terraço: havia espaço para isso.

Um dia fomos chamados à sala do diretor da rádio, que nos acenou com uma proposta de trabalho. A proposta implicava sair do Porto para Lisboa e, como quem arruma a toalha da praia com desânimo, eu levantei os planos feitos no terraço e disse adeus à casa que vivi por tão pouco tempo. Aquilo que parecia ser uma boa proposta era na verdade uma espécie de saída única para os empregos que, dali a uns anos, já não fariam sentido.

E viemos para Lisboa.

A carrinha tinha sido emprestada pelo pai de um amigo nosso e esse amigo, que se definia pelos gestos largos, ofereceu-se para a conduzir. Na carrinha, não muito grande, mas suficiente para caber um terço da mobília ainda nova, viemos a viagem a cantar. Talvez na carrinha não coubesse a dor toda que sentíamos por deixar o terraço e os planos, mas, em vez de a dor ganhar espaço no silêncio, demos voz às canções que sabíamos de cor. Havia um segundo amigo connosco. Os quatro passámos muitas férias juntos.

Chegámos a Lisboa sem conhecer ainda a casa nova onde iríamos viver; tinha sido indicada por uns amigos e nós não tivemos tempo de a ver, de conhecer a rua, o bairro, nada. Éramos quatro e viemos a cantar como quem espanta o mal antes dele acontecer.

Era feia a rua e o prédio, mas relativamente grande a casa antiga, que não tinha alcatifa no chão. Nem isso para amortecer a nossa dor. Também não adivinhávamos ainda que íamos ficar sem chão.

Acartámos os móveis, os primeiros que nos asseguravam um esboço de vida tremido, depois fui ao banho e o amigo que conduziu a carrinha voltou à rua, descendo com ele a dúvida e o receio, perante um estacionamento precipitado.

Era domingo. Planeávamos voltar à noite porque, na manhã seguinte, eu teria de estar muito cedo no Monte da Virgem, onde me esperava um programa de televisão em direto.

Quando saí do banho perguntei pelo nosso amigo e foi aí que percebemos que talvez fosse tarde. Até para ir comprar cigarros há um tempo. Ali a ideia era regressar.

Descemos os três assustados, da casa que mal conhecíamos, do prédio com elevadores de madeira e portas gradeadas. A rua era feia. Ainda é. Sítios onde Deus não foi chamado para ordenar a beleza.

Depois de andarmos pela praceta que amparava o nosso prédio, resolvemos ir à esquadra ali mesmo em frente. Um polícia embriagado veio à porta e, por uma nesga, consegui ver o nosso amigo de cabeça enfiada nos joelhos, como os cães tristes de focinho nas patas, a chorar para cima de uma poça de sangue que lhe pertencia. O nosso amigo tinha sido espancado por um polícia embriagado que se despedia assim daquela esquadra, com um processo disciplinar que o atirava para fora do continente. Era um homem pequenino, colérico, com um bafo a álcool maior do que o seu tamanho.

O nosso amigo ficou detido, sem razão nenhuma. Tinha ido espreitar a carrinha e o agente, sem pingo de gente dentro dele, atirou-se a ele, aproveitando a sua vulnerabilidade na cidade grande.

Nós voltámos nessa madrugada ao Porto e eu fui apresentar o programa em direto.

Nos meses que se seguiram, eu temi mais a polícia do que os delinquentes que por ali andavam. Era impossível distingui-los, depois de tudo.

Nessa chegada a Lisboa percebi como o poder embriaga os homens. E a vida dos quatro amigos nunca mais foi a mesma.


A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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