Há jogos que se ganham na técnica, outros na táctica, alguns na resistência. O Campeonato do Mundo de 2026 poderá ser decidido também por um factor menos controlável: o calor. Num torneio alargado a 48 selecções e 104 jogos, distribuídos entre o Canadá, os Estados Unidos e o México, as temperaturas extremas deixaram de ser um detalhe para se assumirem como um protagonista persistente e, mais importante ainda, um perigo. Um perigo para quem está em campo, mas também para os adeptos. Portugal, avisam os cientistas, é a equipa do seu grupo mais exposta ao risco de calor excessivo.
Um estudo da Climate Central, divulgado neste mês, conclui que “as alterações climáticas estão a aumentar a probabilidade de calor capaz de reduzir o desempenho dos jogadores em 97 dos 104 jogos do Mundial de 2026”, colocando em risco não apenas o rendimento em campo, mas também a segurança dos adeptos.
A selecção portuguesa merece destaque neste estudo. No caso de Portugal, o primeiro jogo previsto “apresenta uma probabilidade de 96% de ocorrer calor capaz de afectar o desempenho dos jogadores — um valor cinco pontos percentuais mais elevado devido às alterações climáticas”. Os três primeiros jogos apresentam uma probabilidade superior a 95% de “risco de calor prejudicial ao desempenho”.
Segundo a Climate Central, a tendência mantém-se ao longo da fase de grupos e “todos os jogos de Portugal apresentam uma probabilidade superior a 50% de calor limitador de desempenho”, sendo mesmo a selecção “mais exposta dentro do seu grupo, com uma probabilidade média de 96% nesses encontros”.
Se, ainda assim, Portugal derrotar este adversário invisível e chegar à final, há mais um confronto à espera: “Se Portugal chegar à final, disputará seis jogos em que há mais de 50% de probabilidade de o calor afectar o desempenho. E três jogos em que as alterações climáticas estão a aumentar essa probabilidade em, pelo menos, dez pontos percentuais”, referem as previsões dos investigadores da Climate Central.
Jogos em condições perigosas
Segundo a mesma análise, “os investigadores avaliaram a probabilidade de as temperaturas ultrapassarem os 28°C — um limiar associado à quebra de desempenho — e verificaram que praticamente todos os jogos enfrentam agora um risco acrescido dessas condições”.
Este indicador confirma uma preocupação já conhecida no futebol de alto rendimento: temperaturas acima de 28°C reduzem a frequência de sprints, a distância total percorrida e o tempo de recuperação, afectando directamente o ritmo de jogo, as opções tácticas e o estilo das partidas.
Os dados do estudo da Climate Central detalham ainda o grau de exposição: “Noventa e sete dos 104 jogos têm maior probabilidade de enfrentar calor limitador de desempenho devido às alterações climáticas” e “quase metade das partidas apresenta pelo menos 50% de probabilidade de ocorrerem nessas condições”. Em 26 jogos, esse risco “aumenta pelo menos dez pontos percentuais por efeito do aquecimento global”.
Segundo um outro estudo do colectivo de cientistas World Weather Attribution (WWA), cerca de um quarto dos jogos — 26 partidas — deverá, aliás, disputar-se em condições consideradas perigosas segundo o índice de Temperatura de Globo e Bolbo Húmido (Wet Bulb Globe Temperature, WBGT, na sigla em inglês), a medida de referência mundial para avaliar o stress térmico humano em ambientes de calor extremo, que combina temperatura, humidade, radiação solar e vento. Não se trata, por isso, de dias simplesmente “quentes”, mas de níveis de stress térmico capazes de afectar o rendimento e ameaçar a saúde.
Este indicador revela uma realidade menos intuitiva: uma temperatura do ar aparentemente moderada pode, na verdade, tornar-se insuportavelmente quente ou mesmo mortal quando combinada com a humidade. Um valor de 28°C WBGT, por exemplo, pode equivaler, na prática, a 38°C em ambiente seco.
A crise climática e o futebol patrocinado por petrolíferas
A crise climática está a afectar de forma evidente muitas das condições de que dependemos para (sobre)viver, mas também outras dimensões da vida colectiva que muitos valorizam, como o futebol.
Desde 1994, quando os Estados Unidos receberam a competição pela última vez, “o risco de uma onda de calor duplicou” devido às alterações climáticas, alerta Simon Stiell, responsável da ONU para o clima, apelando a “acções mais rápidas para proteger o desporto que amamos”.
“Está quente para os jogadores, para os adeptos, para toda a gente. Está quente e está a ficar cada vez mais quente. Não é por acaso. São as alterações climáticas. O planeta está a aquecer após mais de um século de queima de combustíveis fósseis, como o carvão, o petróleo e o gás. Isso retém o calor na atmosfera. E agora estamos a senti-lo — em todo o lado”, refere Simon Stiell numa declaração em vídeo.
Neste caso, não estamos perante uma probabilidade, mas perante um consenso científico. “A nossa investigação mostra que as alterações climáticas têm um efeito real e mensurável na viabilidade de acolher campeonatos do mundo de Verão no Hemisfério Norte”, afirma Friederike Otto, climatóloga do Imperial College London, a propósito do estudo do WWA.
Não deixa ainda de ser insólito que, tão atingido pela crise climática, o Mundial de 2026 conte entre os seus principais patrocinadores com a Saudi Aramco, a maior companhia petrolífera do mundo, responsável por mais de 4% de todas as emissões globais de gases de efeito estufa desde 1965, de acordo com as estimativas da iniciativa Carbon Majors. Em Portugal, é também a petrolífera nacional, a Galp, um dos principais patrocinadores da selecção. A somar a este facto, não é possível de resto ignorar o contributo desta competição para as elevadas emissões de CO2 que arrasta consigo.
Mais calor, menos futebol
No terreno, o impacto será visível: a intensidade baixa, o ritmo abranda, a gestão do esforço torna-se central. Em termos simples, o calor muda o jogo. Menos sprints, menos pressão, mais pausas — formais e informais. Teremos, assim, uma elevada probabilidade de assistir a jogos menos intensos, com um futebol abafado e mais arrastado por causa do calor.
Como descreve Stiell, “isso significa mais calor extremo, mais fadiga, decisões mais difíceis e reacções mais lentas”, afectando jogadores e adeptos. Os investigadores referem que o stress térmico e a insolação afectam os sistemas cardiovascular, muscular e nervoso central dos atletas, nomeadamente na capacidade de tomar decisões.
Os jogadores sabem-no por experiência própria. Numa carta aberta, alertam que o stress térmico “pode provocar sensação de desmaio, tonturas, fadiga, cãibras musculares e problemas ainda mais graves”, sublinhando que “conseguimos correr menos e torna-se impossível jogar com a mesma intensidade”.
A resposta institucional passa, para já, pela adaptação. A FIFA introduziu pausas obrigatórias de hidratação de três minutos em cada parte, “independentemente das condições meteorológicas”. O calendário foi ajustado, privilegiando, sempre que possível, estádios cobertos e horários menos expostos. Ainda assim, as limitações são evidentes.
Alguns jogos serão disputados em cidades particularmente vulneráveis, como Miami ou Kansas City, em estádios abertos. E há um dado que agrava a equação: cerca de cinco partidas poderão ultrapassar os 28°C WBGT — um limiar que o sindicato de jogadores considera inseguro ao ponto de recomendar o adiamento. Para alguns investigadores, essa linha vermelha encontra-se até um pouco abaixo, nos 26°C.
Medidas de protecção?
Se dentro das quatro linhas há equipas médicas, pausas e monitorização constante, fora delas o cenário é mais incerto. “Os jogadores são protegidos por equipas médicas. Os adeptos, muitas vezes, não são.”
Os fãs vão expressar o seu entusiasmo em estádios ao ar livre, recintos abertos, filas, transportes e outros momentos de exposição prolongada ao risco, sobretudo para os mais idosos, crianças e pessoas com doenças crónicas.
Aliás, para os adeptos, a FIFA reservou uma surpresa de última hora, anunciando, sem muitas explicações, que seria proibido entrar com garrafas de água nos estádios. Perante as críticas, acabou por mudar de ideias e anunciou nas suas redes sociais que os adeptos podem levar uma garrafa de água descartável, de plástico macio, com capacidade para 590ml, selada, para qualquer jogo.
All fans will be permitted to bring in one, soft, plastic, 20 ounces (590ml), factory sealed disposable water bottle into any FIFA World Cup 2026 match in the USA and Canada. ?
As FIFA World Cup 2026 Chief Operating Officer, Heimo Schirgi, explains, fans will not be permitted… pic.twitter.com/ePEHq9oalJ
— FIFA (@FIFAcom) June 5, 2026
O Mundial de 2026 surge como um ponto de viragem, não apenas para o futebol de elite, mas para todo o ecossistema desportivo. Trata-se de uma tendência estrutural que torna o calor mais frequente, mais intenso e mais perigoso.
Simon Stiell lembra que o problema do calor ultrapassa o desporto: “Não são apenas as coisas que adoramos, como o futebol, que estão em risco — são também as condições de vida de que todos dependemos.”
A resposta é clara: “Sabemos como resolver a crise climática — abandonar os combustíveis fósseis e acelerar a transição para energias limpas.”
O futebol adapta-se: ajusta horários, cria pausas, revê protocolos. Mas a ideia repete-se: a adaptação não chega. Enquanto as emissões continuarem a aquecer o planeta, o calor continuará a ser adversário. E há também um apelo: “Se quem ama o futebol se mobilizar para o proteger, isso pode mudar o jogo”, lembra Simon Stiell.
Em 2026, ele estará em campo em todos os jogos. Invisível, imparcial, implacável — e impossível de substituir ou expulsar com cartão vermelho. É o planeta que nos exibe o cartão de falta grave colectiva.
Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com





