Os novos donos da Herdade da Comenda reivindicam no Tribunal de Setúbal a propriedade integral de várias praias da Arrábida, areia e tudo!
A notícia comoveu as pessoas, mas o assalto ao litoral avança a grande velocidade. Convém recordar que Tróia, com um areal de 45 quilómetros quase até Sines, vai sendo emparedada e tapada das vistas ao longo da estrada.
Deixou de ser possível ver-se as enormes áreas de dunas arrasadas por crimes ambientais, cometidos para instalar os “resorts” milionários. A construção da marina para iates em Tróia levou à destruição da praia mais acessível à população, literalmente sugada por dragagens ao longo de meses.
O povo continua impedido de atravessar o rio, graças aos preços desmedidos da travessia: a possibilidade de utilizar o Passe Navegante continua à espera de se concretizar.
Do lado norte do estuário do Sado, entrou em vigor no dia 4 de junho o plano “Arrábida sem carros”, para funcionar durante a época balnear. Foi apresentado pela Câmara Municipal de Setúbal como uma forma de regular o acesso às praias e de proteger a segurança do Parque Natural da Arrábida e das pessoas.
No entanto, no primeiro fim de semana deste plano, realizou-se logo uma festa de arromba no palácio da Comenda, anunciado como o cenário para eventos e casamentos da elite. O volume da música era tal que saltava para fora dos muros fortificados e ecoava pela serra.
Como é então possível que tantas pessoas “finas” possam chegar ao palácio se o trânsito automóvel é proibido? Como viajaram os convidados para tão exclusivo resort? A pé, de helicóptero, de barco?
Depressa se descobriu: os carros deles afinal podem passar — entram para o parque privativo, os portões automáticos fecham-se, os carros como que desaparecem.
O plano de transportes deste ano contém ainda uma diferença insidiosa e insuportável — a primeira barreira foi deslocada cirurgicamente para impedir o acesso ao Parque de Merendas da Comenda. Depois de reaberto em 2023, por pressão popular, encontra-se agora praticamente vazio.
Ao impedir os carros de chegarem para carregar as geleiras, os sacos, o carvão, os grelhadores, os alimentos, toalhas de mesa, loiças, a câmara garante assim que não há piqueniques. Os donos da herdade podem cantar vitória. O estratagema funciona: não querem piqueniques colados ao seu palácio de magnatas, odeiam o cheiro da sardinha assada. Não suportam o povo.
A passagem de carros para a praia da Figueirinha e a sua possibilidade de estacionamento junto ao areal ficam também limitadas a quem tiver comprovativo da reserva para almoçar no restaurante da praia — o lazer ligado ao consumo obrigatório!
Já neste primeiro fim de semana de calor, a praia apresentava uma imagem desoladora: poucas pessoas, as gaivotas aquáticas paradas, os chapéus de sol escassos, as áreas concessionadas às moscas.
Até meados de setembro, as pessoas estão impedidas de circular de automóvel particular nas estradas de acesso às praias da Arrábida.
Este plano foi aprovado por apenas dois partidos: o Chega e o PSD/CDS, da presidente da câmara, Maria das Dores Meira.
Questionado acerca do processo em tribunal, o representante do Chega optou por “não se pronunciar formalmente” e por não tomar uma “posição jurídica definitiva nesta fase”, mantendo fortes suspeitas sobre a sintonia entre esta maioria e os donos da Herdade da Comenda.
Enquanto os outros partidos condenam o processo e recusam a privatização das praias, o Chega adopta uma atitude mansa, quiçá pelas alegadas ligações e favores entre o partido e a família Mirpuri, dona da herdade.
O Chega chegou à câmara, os financiadores sentem-se donos da praia. E nós?
O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
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