Conhecemos a natureza pelo ecrã em vez de a conhecermos pelo cheiro. Seguimos animais exóticos no Instagram antes de sabermos que pássaros vivem nos nossos jardins. Compramos experiências de floresta para animar um dia aborrecido de férias. Partilhamos fotografias de lugares a que nunca vamos voltar.
Precisamos de contar melhor as histórias da natureza — mas talvez o problema não seja a história, mas sim a distância a partir da qual a contamos.
Na quarta-feira, o Sabugal recebeu o Wilder Côa, um encontro sobre turismo de natureza e fotografia no Grande Vale do Côa. Entre conversas e mesas redondas, o que sobressaiu foi a forma como nos relacionamos com o mundo natural e o que essa relação diz sobre nós.
As pessoas ficam tocadas com o contacto com a natureza, é certo. Há qualquer coisa que acontece quando se caminha devagar, quando se ouve, quando se cheira o território. O turismo de natureza sabe disso e trabalha a partir daí — vende autenticidade, contacto real, transformação. E a transformação acontece, pelo menos no momento. “O caminhante volta diferente”, sublinhava Elsa Gavinho, do projecto Caminhos da Natureza. Mas diferente por quanto tempo? Quando se regressa à cidade, ao carro, ao ecrã, o que fica? Ninguém na sala tinha essa resposta. O impacto existe, provavelmente, mas pouco se sabe sobre como muda efectivamente a relação com o mundo natural no dia-a-dia — pouco se sabe sobre a distância entre o que experienciamos e o que integramos.
Ou talvez o problema seja mesmo a história? “O mundo está muito mal contado”, dizia Luís Octávio Costa, jornalista e fundador da revista Primitiva, citando o mote da publicação que co-fundou no ano passado e que procura histórias “ligadas à essência das coisas”. “A natureza também estará mal contada”, acrescentou, reconhecendo mais tarde que ainda é preciso, aliás, “trazer os animais mais para a revista”. Na Primitiva, explicava o designer Fábio Alves, “o conteúdo manda” — e, “tal como numa viagem, não queremos que seja monótona, queremos que seja uma viagem interessante”.
À tarde, fotógrafos de natureza trouxeram as suas imagens extraordinárias, e com elas a reflexão sobre a fotografia ao serviço da conservação. O que faz uma imagem além de deslumbrar? Um dos fotógrafos, contudo, contou que abandonou os trabalhos de denúncia — hoje prefere “uma abordagem positiva de celebração do mundo natural”. É uma escolha legítima. Só que celebrar o que existe sem nomear o que desaparece é também uma forma de distância.
Nada disto é simples. As experiências de natureza tocam as pessoas, as boas narrativas aproximam, as imagens bonitas criam vínculos. Tudo isso importa, tudo isso é necessário. O encontro de quarta-feira, contudo, deixou sem resposta algumas inquietações sobre a forma como vivemos e as escolhas que fazemos.
Uma relação com o mundo natural que dependa exclusivamente da fruição — da experiência tocante, da narrativa certa, da imagem deslumbrante — é uma relação frágil, condicional. A natureza não é sempre bonita. Não é sempre acessível. Não está sempre disponível para ser celebrada. Se só nos importamos com ela quando nos dá isso, então não nos importamos verdadeiramente com ela — importamo-nos connosco.
Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com








