Carioca lidera revitalização cultural do Lawrence’s Hotel, em Sintra

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Há oito anos em Portugal, o carioca Glauco Mansur está à frente da estratégia de reposicionamento cultural do Lawrence’s Hotel, em Sintra, frequentemente apontado como o hotel mais antigo da Península Ibérica em funcionamento contínuo. Inaugurado em 1764, o estabelecimento atravessou séculos recebendo personalidades da literatura, da política e da aristocracia europeia, tornando-se cenário e inspiração para autores como Eça de Queiroz, Lady Jackson e Lord Byron.

Com formação em design e marketing, Mansur aposta em iniciativas como o Menu Queiroziano, quartos temáticos e um clube do livro para manter viva a tradição que transformou o hotel em um dos mais importantes símbolos culturais de Portugal.

Mansur mudou-se para Portugal em 2018 ao lado da esposa, Suzana Mansur, para assumir a gestão do hotel, que pertence ao empresário brasileiro Ricardo Haddad, seu sogro. A missão é devolver ao Lawrence’s parte da relevância cultural que marcou sua trajetória, especialmente durante os séculos XVIII e XIX, quando o endereço se consolidou como ponto de encontro de intelectuais e figuras influentes da sociedade e da política portuguesa.

Ao longo de sua história, o Lawrence’s teve sete proprietários antes de chegar ao atual dono. Seus primeiros hóspedes eram viajantes atraídos por Sintra durante o período em que a família real portuguesa passava os verões na cidade. Como a corte atraía a burguesia e os círculos de influência da época, o hotel tornou-se um dos principais pontos de hospedagem para a elite intelectual, artística e jornalística do país.

Convivência e troca de ideias

Foi nesse contexto que o Lawrence’s consolidou sua reputação como espaço de convivência e troca de ideias, detalha Mansur. Escritores, jornalistas e pensadores reuniam-se em seus salões, transformando o hotel em uma espécie de extensão da vida cultural portuguesa. “Por isso, várias obras citam o Lawrence’s, pois os escritores e seus pares se encontravam no hotel. E, como costumo dizer, inspirou muitos amores e dissabores, e eles citaram o hotel em várias passagens da literatura”, diz Glauco, dando como exemplo Eça de Queiroz, Lady Jackson, Ramalho Ortigão e inúmeros outros.

Segundo Mansur, o século XX trouxe um período de declínio para Sintra e, consequentemente, para o hotel. O cenário começou a mudar após a cidade ser reconhecida como Patrimônio Mundial pela Unesco, processo que impulsionou sua recuperação econômica e turística. O Lawrence’s acompanhou esse movimento. Após passar pelas mãos de uma família holandesa, que promoveu reformas preservando suas características originais, iniciou uma nova etapa sob administração brasileira.

A proposta atual vai além da conservação física do imóvel. O objetivo é reforçar sua dimensão cultural e literária, valorizando tanto a herança lusófona representada por Eça de Queiroz quanto a projeção internacional conquistada a partir de figuras como Lord Byron, um nome forte na corrente literária conhecida como “Mal do Século” ou “Ultra-romantismo”, e que inspirou escritores por todo o mundo, inclusive Portugal e Brasil, influenciando autores como Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e Fagundes Varela.

O Lawrence’s é considerado o hotel em funcionamento contínuo mais antigo da Península Ibérica, fundado em 1764
Arquivo pessoal

Quartos temáticos

O hotel tem 11 quartos e cinco suítes, todos batizados com nomes de escritores ligados à sua história. Cada ambiente apresenta características próprias inspiradas na personalidade ou na obra do homenageado. O quarto dedicado a Eça de Queiroz, por exemplo, possui decoração mais sóbria e masculina. Já o quarto Lady Jackson privilegia elementos femininos, enquanto a suíte Lord Byron remete ao universo aristocrático do poeta inglês.

A recuperação da memória do hotel também passa pela reconstrução de parte de seu patrimônio mobiliário. Durante pesquisas históricas, Mansur descobriu registros de um leilão realizado na década de 1960, quando grande parte do acervo original foi vendida. “O que estamos fazendo nesses últimos anos é tentar adquirir várias dessas peças, com o mesmo estilo de móveis, quase que um garimpo histórico para refazer esse recheio, que dizia muito sobre a história do hotel”, comenta.

A fachada permanece praticamente inalterada desde sua origem, preservando a identidade arquitetônica que atravessou mais de dois séculos e meio de história. Uma das iniciativas criadas por Mansur foi o Menu Queiroziano, oferecido no restaurante do hotel. Inspirado nas descrições gastronômicas presentes nas obras de Eça de Queiroz, o cardápio busca transportar os visitantes para o universo literário do escritor.

“Ele gostava muito de comer, várias das histórias dele acontecem à mesa: as personagens brigam, fazem as pazes e coisa e tal. E Eça descrevia cada prato e vinhos em detalhes. Fizemos então o menu a partir do que ele cita e as pessoas podem vir ao nosso restaurante apreciar os pratos”, ressalta.

A ligação com a obra do escritor português aparece até mesmo na gastronomia. Mansur lembra que um dos personagens criados por Eça de Queiroz teria preparado, ao lado da senhora Lawrence, um prato que mais tarde ficou conhecido como “bacalhau à Alencar”, hoje presente no menu da casa.

Protagonismo feminino

Outro detalhe preservado pelo Lawrence’s é o protagonismo feminino em sua administração. Ao longo de boa parte da história do hotel, a gestão esteve sob responsabilidade de mulheres. Hoje isso é natural, mas era algo incomum e mesmo ousado para o século 19.

“A própria Jane Lawrence, que deu nome ao hotel, era mãe de uma escritora. Ela recebia todo mundo, entretinha, eventualmente cantava e recitava poemas. Era aparentemente uma pessoa extremamente sociável e, por isso, ela foi tantas vezes citada pelo Eça de Queiroz, que conviveu com ela”, destaca Glauco Mansur.

Além da hospedagem, o Lawrence’s mantém atividades voltadas para a promoção da leitura e do debate literário. “Temos um clube do livro, que se reúne aqui esporadicamente, toma um chá, um café, um vinho, e fala de um livro específico do último mês ou do trimestre que leram e tal. Então, até nisso o hotel continua na tradição”, diz Mansur.

E finaliza, aos risos: “Aqui também se hospedam alguns escritores por um grande período, que acabam se envolvendo com a energia do espaço. Um escritor colombiano, por exemplo, pouco antes da pandemia de covid-19, ficou três meses hospedado até acabar o seu livro. Na hora de ir embora, foi um drama, ele não queria ir, foi uma cena”.

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