É para uma amiga

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Uma amiga pediu-me ajuda, como se pedir auxílio fosse simples, está solteira há mais tempo do que desejaria, não por falta de pretendentes, há sempre esse pequeno mercado humano, esse grupo de homens e mulheres que a sondam como quem faz um inquérito regular às possibilidades, mas porque nada lhe parece acontecer que valha a pena.

O problema, diz-me ela, não é a ausência, é a indiferença das presenças. Nada parece raro, nada parece descoberta, acidente, desvio feliz do que se repete. Tudo surge como opção de mercado já visto, já sabido. E isso cansa-a mais do que a solidão. A minha amiga pediu-me ajuda para verificar se algum cavalheiro seria capaz de uma abordagem mais inusitada, qualquer gesto fora da ordem.

É claro que a minha amiga não tem saído muito. Para onde ir quando se tem quase cinquenta anos e algumas chatices às costas? O tempo do campismo selvagem já vai longe, diz ela, e o turismo de luxo parece-lhe apenas outra forma de cansaço, um bocejo prolongado e contagioso antes do sono.

A minha amiga anda triste. Não é uma tristeza dramática, é uma perda lenta de viço.

E sabe, diz-me isto com uma lucidez quase cruel, que lhe faz falta alguém que não tenha juízo, alguém que lhe puxe pelo riso. Por isso mandou-me, em jeito de Agustina, deixar-vos esta missiva. Fez de mim pombo-correio porque em matéria do coração falta-lhe audácia; parece que já desistiu antes de tentar.

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