Cabo Verde espantou o mundo e ajoelhou a Espanha, protagonizando a primeira grande surpresa neste Mundial 2026 ao conseguir empatar a zero na sua partida de estreia em Campeonatos do Mundo de futebol.
Para quase todo mundo, este Espanha-Cabo Verde era apenas mais um jogo do Mundial de futebol. A actual campeã da Europa contra uma selecção estreante em Campeonatos do Mundo, um duelo previsivelmente bastante desequilibrado e com um vencedor quase inevitável.
Mas não era assim que este jogo era visto em Cabo Verde ou na diáspora de um país que tem mais cabo-verdianos a viver fora das suas dez ilhas do que nelas. “Há momentos na vida de uma nação em que um país inteiro se redefine: este é um desses grandes momentos”, explicou José Maria Neves, líder da pequena nação insular. Há 50 anos, muitos duvidavam do futuro deste país e hoje ele está junto dos melhores do mundo, acrescentou o presidente cabo-verdiano, um dos que conseguiu estar em Atlanta a presenciar este momento histórico, enquanto no arquipélago foi dada “tolerância de ponto” para que o maior número possível de cabo-verdianos pudessem, à distância, assistir também a ele.
E Cabo Verde cumpriu. Perante uma selecção repleta de estrelas a selecção e favorita à conquista do título mundial, os “tubarões azuis” jogaram com as armas que tinham: entrega e solidariedade entre todos, cautela e inteligência.
Entrega e solidariedade que se viam na forma como os jogadores cabo-verdianos cobriam a sua área e faziam dobras aos seus colegas sempre que algum era ultrapassado; cautela porque Cabo Verde sabia o nível do seu adversário e, por isso mesmo, adoptou uma postura claramente defensiva, jogando na expectativa e na exploração de uma saída rápida para o ataque que pudesse funcionar; inteligência porque Bubista sabia que sem Yamal e sem Nico Williams, a Espanha ficava sem armas para atacar pelos flancos e iria insistir no jogo interior. E foi a defender a zona central a que os cabo-verdianos se dedicaram de corpo e alma, anulando grande parte do jogo ofensivo dos espanhóis.
Com quatro jogadores com experiência no futebol português no “onze” titular – Vozinha (Desp. Chaves), Sidny Lopes Cabral (ex-Benfica), Jovane Cabral (Estrela da Amadora) e Dailon Livramento (Casa Pia) – Cabo Verde manteve o perigo longe da sua baliza durante quase todo o primeiro tempo. O primeiro remate da Espanha à baliza de Cabo Verde surgiu apenas ao minuto 15, por intermédio de Pedri e mais por demérito dos africanos do que por mérito da Espanha – perda de bola junto à área mas remate sem perigo para Vozinha.
Um calafrio, mas não mais do que isso. Cabo Verde manteve-se firme e sem grandes problemas junto da sua baliza até aos 38’. Só nessa altura passou por um verdadeiro susto, após desmarcação pelo flanco esquerdo de Cucurella que permitiu ao novo reforço do Real Madrid servir Ferran no coração da área com este a enviar a bola à barra – na recarga, Oyarzabal obrigou Vozinha a uma grande defesa.
Pouco depois, já bem perto do intervalo, novo susto para os cabo-verdianos, de novo com Cucurella a criar e Ferran a finalizar e, mais uma vez com Vozinha a brilhar, com mais uma excelente defesa.
O descanso chegaria logo a seguir e metade do trabalho estava feito. O estreante Cabo Verde mantinha-se vivo e nem sequer tinha sofrido demasiado perante uma das melhores selecções do mundo. É verdade que não tinha chegado quase vez nenhuma à baliza de Unai Simón, mas para quem caminhava, pela primeira vez, por estes caminhos, o mais importante era não dar um passo em falso.
O começo da segunda parte não trouxe nada de novo e, por isso, o jogo manteve-se com o mesmo ar. Tranquilo para Cabo Verde, enervante para a Espanha. Até que a 20 minutos do apito final, Luís de la Fuente não teve alternativa e foi obrigado a colocar Lamine Yamal em campo, apesar de todas as dúvidas existentes em torno da sua condição física.
E bastou a estrela do Barcelona estar em campo para a Espanha se ter tornado mais perigosa. Os espanhóis passavam a ter um jogador forte no um-contra-um, que obrigava um, dois, três cabo-verdianos a dedicarem-se a ele, para além de alguém que permitia alargar o futebol do campeão europeu.
Seguiram-se minutos de sofrimento para os “tubarões azuis”. A Espanha apertou o cerco, aumentou o ritmo, intensificou os cruzamentos. Mas Cabo Verde resistia. Se no primeiro tempo chegar perto da baliza espanhola foi quase uma miragem, no segundo tempo a situação não se alterou (excepção feita já nos instantes finais, num cabeceamento de Diney Borges). Cabo Verde tinha agora como missão aguentar o empate, guardar o precioso ponto que tinham na mão. Um ponto histórico e tão valioso como se fossem três. Os minutos finais ainda viram Roberto Lopes bloquear um remate perigosíssimo de Oyarzabal. Mas o empate já não fugiria. Cabo Verde espantou o mundo.
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