À saída da Escola Secundária Francisco Rodrigues Lobo, em Leiria, o nervosismo deu lugar à descompressão. “Por acaso foi bem mais fácil do que eu imaginava”, diz ao PÚBLICO Lara Pereira Dias, 19 anos acabados de fazer. Terminado o exame de Português, que é obrigatório para todos os alunos e o primeiro desta 1.ª fase dos exames cujos resultados serão conhecidos a 14 de Julho, Lara já virou o olhar para o futuro: quer estudar comunicação, talvez até enveredar pelo jornalismo, ainda indecisa entre a ancestral universidade de Coimbra e a nova universidade de Leiria, que acaba de dar lugar ao Instituto Politécnico. “Pensei que seria pior, mas afinal saíram umas matérias de que eu já estava à espera: José Saramago – que provavelmente vai sair do Plano (Nacional) de Leitura – com o Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis”.
Lara estudou muito ao longo das últimas semanas, num ritmo que classifica de “muito cansativo”. Descansa agora junto ao muro da escola, como quem alivia o fardo dos resumos, das leituras e dos quizes que fez em larga escala.
“Felizmente saiu pouca gramática. Tivemos de fazer a apreciação de um cartoon, o que foi bom”, acrescenta Rodrigo Frazão, também de 18 anos, que ainda está a decidir qual o tipo de engenharia por que vai enveredar, daqui a poucos meses, quando chegar à universidade. Integra um grupo de rapazes que veio de mota para a escola, segura o capacete numa mão e os phones na outra, e admite que não estudou assim tanto. Também ele acha que o exame “foi mais fácil do que estava à espera”.
De uma maneira geral era esse o sentimento à saída do exame. Rodrigo Fidel, 17 anos, determinado a estudar Engenharia Biomédica no futuro, também diz que “correu bem”. Admite que estudou mais Matemática do que Português, porque é esse o exame que mais o angustia.
Rui Gaudêncio
Já Tiago Joaquim, natural de Marrazes, vai esperar pelas notas dos exames para decidir não só o curso (alguma engenharia, na certa) como também a universidade a escolher. “Como agora o IPL vai virar universidade, se calhar até fico por cá”, diz ao PÚBLICO. Antes de entrar de férias, ainda vai repetir o exame de Físico-Química.
O exame também se mostrou fácil aos olhos de Afonso Marques, 18 anos, indeciso entre Engenharia Civil e Arquitectura. Tinha decidido ir estudar para a Holanda, mas a tempestade de Janeiro trocou-lhe as voltas. Na aldeia onde mora, Ortigosa, os danos provocados estenderam-se durante muito tempo às comunicações, e isso impediu-o não só de se pré-inscrever na faculdade que queria frequentar, como foi penoso no que toca ao estudo para os exames. “Só conseguimos ter internet muito tempo depois, e isso não foi bom”, afirma, ele que provavelmente irá estudar em Coimbra, deixando para mais tarde o sonho de uma especialização lá fora.
Neste que é o antigo Liceu Rodrigues Lobo, cerca de 200 alunos fizeram o exame de Português. Cá fora, mães e pais esperam dentro do carro pelos filhos, como é o caso de Maria, chamemos-lhe assim, porque prefere o anonimato. A filha será das últimas alunas a sair, tal como a mãe aventava: “Ela é daquelas que vai aproveitar toda a meia hora de tolerância”, diz ao PÚBLICO a mãe da jovem que quer estudar design de interiores, ou no Porto ou nas Caldas da Rainha, os se localizam os dois cursos que a seduzem. “Numa deles, na ESAD, só há 26 vagas. Por isso fazemos figas para que este exame corra bem e não lhe baixe a média.”
Este ano, uma das grandes novidades nos exames é a forma de avaliar as provas. Ao contrário do que chegou a prever-se com a transição digital total, os exames continuam afinal a realizar-se em papel, embora provas sejam corrigidas em formato digital.
Mais de 81 mil estudantes fizeram esta manhã o exame nacional do 12.º ano de Português, que é de resto o mais concorrido, por ser o único obrigatório para concluir o ensino secundário.
Começou assim a 1.ª fase dos exames nacionais, num clima de típico nervosismo à entrada da maioria das escolas do país. Os exames continuam a ter peso na conclusão do secundário e na nota de acesso ao ensino superior, obrigando os alunos a um esforço de estudo suplementar. Feitas as contas, nos próximos dez anos, haverá 73 mil rapazes e quase 93 mil raparigas a fazer exames, segundo dados revelados esta terça-feira pela Lusa.
Na maioria das escolas houve alunos que faltaram à chamada. Na mesma cidade de Leiria onde o PÚBLICO acompanhou de perto este primeiro exame, a Escola Secundária Afonso Lopes Vieira registou a falta de 10 alunos, na lista dos 204 inscritos.
Os exames prosseguem já esta tarde, com a prova de Economia, e amanhã, com a prova de Geometria Descritiva. Dos 166.339 inscritos nos exames deste ano, 93.596 (56%) têm por objectivo candidatar-se ao Ensino Superior, segundo os dados revelados pelo Ministério da Educação.
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