Três sinais que sugerem que uma amizade não vale a pena, segundo terapeutas

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A maioria das amizades precisa de mais do que apenas química para sobreviver. As mais fortes dependem frequentemente de pequenos mas importantes gestos de atenção: responder a uma mensagem durante uma semana de trabalho dura, lembrar-se de ligar após uma consulta médica importante, conduzir até ao outro lado da cidade mesmo quando ficar em casa seria mais fácil.

Com as pessoas certas, esses gestos raramente parecem “trabalho”. Outras vezes, os teus esforços podem já não parecer mais uma manutenção razoável do relacionamento; em alguns casos, pode parecer que a dinâmica exige mais energia do que vale a pena.

“As amizades são construídas”, disse Suzanne Degges-White, directora do departamento de aconselhamento e ensino superior na Northern Illinois University College of Education e autora de Amizades Tóxicas: Conhecer as Regras e Lidar com os Amigos que as Quebram. “São voluntárias, são relações opcionais”.

O que significa que, sim, elas exigem manutenção, mas também que ninguém é obrigado a continuar a investir recursos mentais e emocionais numa amizade que se tornou mais desgastante do que gratificante.

Algum desequilíbrio é inevitável em laços de longo prazo, explica a psicóloga e terapeuta de casais Patrice Le Goy. As pessoas mudam de casa, têm esgotamentos (burnout), casam-se, têm filhos, mudam de emprego e passam por transformações e fases em que simplesmente têm menos capacidade aos 54 anos do que, digamos, aos 24.

Mesmo assim, não é preciso aceitar a unilateralidade crónica ou a exaustão emocional como o preço inevitável de permanecer próximo. Estes são alguns sinais de que pode estar na altura de reavaliar a relação.

1. Não podes ser tu próprio sem te preocupares com perder a amizade

“Se há pessoas com quem precisamos de ser autênticos neste mundo, é com os nossos amigos”, diz Degges-White. Isto não significa necessariamente partilhar os segredos mais profundos e vulneráveis com todos os conhecidos mas significa, pelo menos, que não te deves sentir pressionado a mudar quem és só para te dares bem com os outros.

Presta atenção à forma como ages ao pé desta pessoa. Talvez tenhas deixado de partilhar boas notícias porque passaste a esperar uma reacção subtilmente competitiva em vez de entusiasmo genuíno. Ou talvez suavizes as tuas opiniões, minimizes as tuas conquistas ou passes os vossos encontros a fingir que és mais complacente, bem-sucedido ou fácil de lidar, na esperança de garantir a sua aprovação (ou de evitar o seu julgamento).

A esse ponto, estás a perder aquilo que deveria ser o mínimo aceitável numa amizade saudável: sentir-te compreendido e aceite como és.

2. Tu organizas e inicias todas as interacções

As pessoas tendem a avaliar a força das amizades pela frequência – com que regularidade trocam mensagens ou se vêem. Quando, na verdade, o que importa mais do que o contacto constante é uma atenção constante.

De acordo com a psicóloga clínica Christie Ferrari, “um amigo ocupado vai continuar a fazer-te sentir que és importante”. Mesmo que não estejam disponíveis num piscar de olhos, a maioria das pessoas — por mais sobrecarregadas que estejam continua a esforçar-se por quem valoriza. Alguns enviam longas mensagens de voz durante o caminho matinal para o trabalho, se não tiverem disponibilidade para jantares presenciais. Outros podem enviar uma mensagem a dizer que estão atolados em trabalho, mas que continuam a pensar em ti.

O mais preocupante é quando a sobrevivência da relação parece depender apenas do teu esforço. “Trata-se mais do padrão de comportamento do que de ser um caso isolado ou dois”, diz Le Goy.

Por isso, em vez de te concentrares numa semana decepcionante, pensa nos últimos meses ou anos como um todo. Quem inicia os planos? Quem mantém contacto? Quem se lembra dos aniversários, quer saber do outro após momentos importantes e mantém a conversa? Por outras palavras, se deixasses de contactar a outra pessoa por completo, ainda restaria uma amizade sequer?

3. Não conseguem resolver os problemas juntos

Parece óbvio, mas as pessoas que querem manter uma amizade vão agir como tal. Quando surge alguma tensão, elas fazem alguma coisa – pedem desculpa, aguentam uma conversa desconfortável, mudam o comportamento magoou – para poderem seguir em frente.

Por outro lado, desvalorizar, afastar-se ou desistir ao primeiro sinal de atrito pode ser revelador. “Significa que não estão tão empenhadas em manter a relação quanto tu”, explica Degges-White.

Se mencionares um comentário que te magoou, por exemplo, um amigo que se esforça pouco “pode culpar outras pessoas ou culpar-te a ti por estares preocupado com algo que ele não considera uma ‘preocupação real’”, diz. Se pedires um pouco mais de consistência e tranquilização, “eles podem tentar arranjar razões pelas quais não estão lá para ti como deviam”. Como ter um emprego exigente ou ter filhos.

Com o tempo, padrões como estes mostram subtilmente o quão disposta uma pessoa está a lutar pela relação.

O que fazer se uma amizade já não te acrescenta nada

Ao contrário das rupturas amorosas, a maioria das relações platónicas não termina com um confronto dramático ou uma “conversa” claramente definida. A investigação sociológica indica, na verdade, que as amizades muitas vezes se dissolvem através de um afastamento gradual: menos contacto, menos expectativas – o que os especialistas concordam ser uma abordagem adequada para relações mais recentes, mais casuais ou que já eram unilaterais.

Na prática, isso significa não dar 90 por cento a uma pessoa que só dá 10. Não reorganizes repetidamente a tua agenda por causa de um amigo “baldas”. Mantém as coisas cordiais sem partilhares automaticamente os detalhes mais vulneráveis da tua vida com um “amigo de ocasião” que parece desinteressado ou distraído. “Se a relação desaparecer naturalmente, isso pode ser um indício de que ambos sentem o mesmo”, disse Le Goy. “Que a amizade cumpriu o seu ciclo”.

Ainda assim, algumas situações justificam uma conversa, particularmente quando estás a lidar com um confidente de longa data ou com alguém que ainda está a tentar manter um nível de proximidade que tu já não consegues retribuir.

Em vez de expor todas as mágoas ou incompatibilidades, Degges-White sugeriu focares-te em comunicar a realidade mais abrangente da tua situação. “Portanto, podes dizer algo como: ‘Estou a passar por grandes mudanças na minha vida neste momento e, por isso, não tenho a certeza se consigo ser o amigo que era antes ou o amigo que devia ser para ti’”, sugere. No fundo, tenta não centrar a questão no outro, acrescenta. “Mantém o foco no que está a acontecer na tua vida e em como as coisas vão mudar”.

Por mais difícil que possa ser aceitar, “nem todas as amizades são para durar para sempre”, diz Ferrari, notando que envelhecer envolve, muitas vezes, deixar de se identificar com certas dinâmicas, expectativas e até com certas pessoas. Mas fazer as pazes com essa realidade também pode ser libertador, porque desapegar-se de relacionamentos que nos esgotam é o que cria espaço para aqueles que nos lembram que a proximidade, afinal, não deveria ser assim tão cansativa.


Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post

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