As notícias sobre a SpaceX tendem a chegar-nos envoltas em números astronómicos, promessas de Marte e a figura omnipresente de Elon Musk. Para muitos, são episódios de uma narrativa tecnológica tão grandiosa quanto distante, com pouco impacto aparente nas nossas vidas. Mas por detrás dos foguetões, das valorizações e das manchetes existe uma realidade mais concreta — pessoas que dedicaram décadas da sua vida a resolver uma questão fundamental: como permitir que seres humanos vivam para lá da Terra. Duas dessas pessoas estiveram recentemente no Porto. E o país quase não deu por isso.
Peggy Whitson passou 695 dias no espaço, mais do que qualquer outro astronauta norte-americano. Foi a primeira mulher comandante da Estação Espacial Internacional e fê-lo por duas vezes. Hoje é vice-presidente de Human Spaceflight da Axiom Space, empresa que está a desenvolver a primeira estação espacial comercial privada em órbita baixa e, com a Prada, os fatos espaciais que serão utilizados nas futuras missões lunares do programa Artemis.
A outra pessoa é portuguesa. Emiliano Ventura construiu uma carreira na fisiologia e no desempenho humano de alta performance, trabalhando com atletas de elite em desportos como a Moto GP ou a Fórmula 1. O reconhecimento desse percurso levou-o a tornar-se o primeiro Project Astronaut da Axiom Space. Num país pouco habituado a associar-se à exploração espacial, é a prova de que um português pode estar no topo desta nova fronteira, não como espectador, mas como protagonista.
Recentemente, passaram ambos pela cidade do Porto como resultado da parceria entre a Axiom Space e a Universidade do Porto, que trouxe a Faculdade de Arquitectura e a Faculdade de Belas-Artes para uma discussão que será cada vez mais relevante nas próximas décadas – como irão os seres humanos habitar o espaço? Declaro aqui o meu interesse, pois estive na organização deste encontro. Mas é precisamente por isso que sei o que lá se passou, e o que se perdeu por não ter sido contado.
À primeira vista, a pergunta parece pertencer ao domínio da ficção científica. Na realidade, trata-se de um desafio cada vez mais concreto. À medida que a presença humana no espaço se torna permanente, os problemas deixam de ser apenas tecnológicos. Tornam-se também biológicos, psicológicos, sociais e culturais.
Como se organiza um habitat em microgravidade? Como se desenham espaços que preservem a saúde física e mental dos seus ocupantes? Como se constrói na Lua utilizando recursos locais e sistemas autónomos? Estas não são apenas questões de engenharia. São também questões de arquitectura, design e compreensão da experiência humana como Emiliano sublinhou.
Não é, aliás, a primeira vez que os desafios do espaço produzem conhecimento útil na Terra. Num planeta confrontado com alterações climáticas e ambientes cada vez mais extremos, aprender a habitar fora da Terra pode ajudar-nos também a habitar melhor nela.
É por tudo isto que a participação de universidades como a do Porto importa. A exploração espacial do século XXI, e a sua democratização, não será feita apenas por engenheiros aeroespaciais. Exigirá contributos de arquitectos, designers, médicos, artistas, fisiologistas e investigadores de áreas que, até há poucos anos, pareciam afastadas deste universo.
Vale também a pena reflectir sobre a forma como este encontro passou quase despercebido. Quando a astronauta com mais dias acumulados no espaço da história americana e o primeiro português ligado a uma missão espacial comercial se sentam a discutir o futuro da habitação espacial com estudantes, investigadores e até crianças que poderão viver parte desse futuro, sem que isso mereça linhas nos jornais, a questão não é apenas jornalística. É cultural.
Continuamos frequentemente a olhar para o espaço como um assunto dos outros, dos americanos, dos bilionários, das manchetes sobre lançamentos e valorizações. Mas a questão mais relevante não é quanto valem as empresas espaciais. É saber quem participa na construção deste futuro.
Durante muito tempo, Portugal observou estas transformações à distância. Naquele dia, no Porto, deixou de o fazer. Falta agora que o país repare.
O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico
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