Israel ataca o Líbano pouco depois da trégua, EUA marcam negociações em Washington

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Poucas horas depois da entrada em vigor de um cessar-fogo entre Israel e o Hezbollah, registam-se novos ataques no Sul do Líbano que voltam a ameaçar o frágil acordo provisório alcançado também entre os EUA e o Irão.

Segundo a Reuters, pelo menos cinco pessoas morreram nesta madrugada de sábado, 20 de Junho, em bombardeamentos aéreos e ataques com drones israelitas no Sul do Líbano, apesar da trégua anunciada na véspera. A agência estatal libanesa National News Agency (NNA) avançou que os ataques se concentraram sobretudo na região de Nabatieh, onde aviões e drones ​das Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) destruíram edifícios residenciais e habitações.

A Al Jazeera detalha que um dos ataques aconteceu em Arab Salim, onde morreram três pessoas. Uma outra pessoa foi morta num ataque em Deir ez-Zahrani e outra num ataque de drone contra uma mota à entrada da aldeia de Doueir. Foi em Numairiyah e Kafr Goz que se destruíram vários edifícios residenciais e registam-se ofensivas sobretudo em Kfar Reman, Nabatieh al-Fawqa, Shukin, Habboush, Zebdin, Sajd e Mahmoudiyah. Israel ainda não comentou os ataques e à data de publicação deste artigo as IDF ainda não tinham feito qualquer comunicado através do Telegram.

A trégua entre Israel e o Hezbollah deveria ter entrado em vigor na sexta-feira, 19, às 16h locais (14h em Lisboa), depois de uma nova escalada no Líbano ter levado ao cancelamento das conversações entre os Estados Unidos e o Irão previstas para começarem também nesse dia na Suíça.

Essas reuniões deveriam abrir a fase técnica do acordo provisório alcançado entre Washington e Teerão e previam a deslocação do vice-presidente norte-americano, J.D. Vance, à estância suíça de Bürgenstock. Esta deslocação acabou, contudo, por ser cancelada devido à continuação dos confrontos entre as forças israelitas e o Hezbollah no Líbano. Nesse contexto, Washington procurou um novo esforço diplomático para impedir que o entendimento com Teerão caísse por terra.

De acordo com a Reuters, a trégua foi confirmada por um responsável norte-americano, duas fontes do Hezbollah e um alto responsável israelita. Segundo responsáveis norte-americanos, o acordo terá sido mediado pelos Estados Unidos e pelo Qatar, através de contactos separados com Israel e com o Irão. Um diplomata de um país do Golfo destacou também a influência iraniana sobre o Hezbollah como elemento decisivo para tentar travar os combates. As forças israelitas acabaram por confirmar a existência do cessar-fogo, mas, à semelhança dos anteriores acordos frágeis, deixaram claro que as tropas permaneceriam no Líbano e que responderiam a quaisquer ataques.

EUA falam do Líbano em casa, mas mantêm viagens à Suíça

Os EUA anunciaram, segundo a Al Jazeera, uma nova ronda de negociações entre Israel e o Líbano, numa tentativa de consolidar a trégua alcançada e impedir uma nova escalada no conflito. Segundo a mesma agência do Médio Oriente, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, e o Presidente libanês, Joseph Aoun, concordaram em realizar conversações em Washington entre 23 e 25 de Junho, entre terça e quinta-feira. O Departamento de Estado norte-americano considerou que o diálogo bilateral representa a única via para a reconstrução do Líbano e fim dos ciclos recorrentes de violência. A presidência libanesa, por sua vez, citada pela Reuters, sublinhou que um cessar-fogo abrangente constitui um elemento essencial para o avanço das negociações.

Apesar da aposta em Washington, os contactos entre os Estados Unidos e o Irão não foram abandonados. As conversações técnicas previstas para sexta-feira na Suíça acabaram por ser canceladas devido ao agravamento da situação no Líbano, mas, segundo a CNN, Steve Witkoff, enviado especial de Donald Trump para o Médio Oriente, seguiu entretanto para a Suíça para tentar recolocar o processo no caminho previsto.

Jared Kushner, genro do Presidente norte-americano e um dos responsáveis pelas negociações que conduziram ao memorando de entendimento entre Washington e Teerão, deverá também juntar-se aos contactos. A data de uma eventual reunião continua, no entanto, por definir. A CNN adianta ainda que o vice-presidente J.D. Vance continua disponível para participar nas conversações “à primeira oportunidade”, segundo a Casa Branca.

As negociações entre Israel e o Líbano decorrem sem a participação do Hezbollah, ausência esta que tem limitado os avanços alcançados nas rondas anteriores, apesar da retoma do diálogo directo entre os dois países nos últimos meses, o que não acontecia desde 1993.

O acordo provisório entre os Estados Unidos e o Irão prevê um período de 60 dias de negociações para tentar resolver divergências sobre o programa nuclear iraniano e outras questões regionais. O entendimento inclui também a promessa de alívio de sanções económicas, descongelamento de activos iranianos avaliados em dezenas de milhares de milhões de dólares e incentivos financeiros, incluindo um fundo de reconstrução de 300 mil milhões de dólares. O acordo é também considerado essencial para a reabertura do estreito de Ormuz e, consequentemente, a estabilização dos mercados energéticos.

Mas os ataques deste sábado mostram que o processo continua dependente da situação no terreno. Se a trégua no Líbano falhar, as negociações entre Washington e Teerão ficam novamente ameaçadas, tal como aconteceu com a ronda prevista para a Suíça.

Donald Trump voltou a defender o acordo nas redes sociais depois de críticas no país, incluindo dentro do Partido Republicano, por alegadas concessões excessivas ao Irão. Ainda assim, os desenvolvimentos no Sul do Líbano deixam claro que o entendimento diplomático continua vulnerável face às decisões militares de Israel e à resposta do Hezbollah. Para já, a prioridade norte-americana parece ter passado de Bürgenstock para Washington: depois do cancelamento da via suíça oficial (ainda que Kushner e Witkoff tenham embarcado), a Casa Branca tenta usar a frente Israel-Líbano para impedir que a guerra regional volte a comprometer o acordo com Teerão.

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