Depois da tragédia, a dor e os discursos faziam acreditar em mudanças reais numa paisagem de fornalha ainda quente; só que essa memória foi demasiado curta.
Passados 9 anos, temos a imagem de uma paisagem, com alguns poucos exemplos de exceção, sem memória e de ofensa às vítimas; pelo que se foi fazendo e pelo que não se faz.
A pergunta mais repetida depois das tragédias florestais e humanas de 2017, é a seguinte: o que é que mudou desde então? Mudou “venderem-nos” as palavras “natureza”, “resiliência”, “sustentabilidade” e pouco mais.
Mas não mudou em nada a resolução dos problemas em concreto, que passaria por não termos uma floresta tão sensível ao drama das chamas e tão nefasta para o meio ambiente.
E enquanto não se mudar a perspetiva económica, encontrando/efetivando outras alternativas ao eucalipto, sobra o abandono do próprio eucaliptal, ao fim do segundo corte, quando não do primeiro!
Então a pergunta que tem de fazer-se de imediato é a seguinte: mas se o eucalipto dá tanto rendimento, porque é que vemos 70-80% dos mesmos em completo estado de abandono?
Na realidade, a situação atual na área ardida em 2017, e salvo honrosas exceções e em redor de algumas aldeias e vias de comunicação, está ainda pior; ou seja, ainda mais perigosa.
Depois temos a comunicação social a criar medo e a explorar o drama e a dor, mas sem se focar nas diferenças do que arde mais e menos, na velocidade e tamanho das chamas, na continuidade de muitos quilómetros de um caos florestal, e no que poderíamos realmente prevenir fazendo.
Assim, as populações sentem um aperto e até uma solidariedade coletivas, mas sem se motivarem ou organizarem em mudar alguma coisa nas suas comunidades e/ou no país. Todos parecem resignados, céticos e impotentes.
Ouvem-se sistematicamente os mesmos discursos, revive-se o drama como objetivo de provocar mais pânico e as ameaças de sempre, mas sem alertar e de querer realmente mudar e transformar. Em serem, de facto, resilientes e não conformados e coniventes. O que é uma conveniência que parece satisfazer os discursos de todos.
Do político que não sabe, mas também não quer saber para não ter de justificar o que deveria estar realmente a fazer – a operar!
Das instituições, que deixaram de saber atuar fora das premissas burocráticas e de se saberem aliar às populações e de se ligarem às soluções em concreto.
De uma academia que sabe, mas que não transmite e que não promove o conhecimento até à exigência do certo e do errado.
Dos profissionais do setor que parecem saber cada vez menos ao não se importarem nada com o saber.
Dos proprietários que não sabem, mas também ninguém os ensina, sensibiliza e organiza a sério.
Sim, parece que existem demasiados interesses. Muito bem, também todos temos os nossos interesses. Contra isso nada. Até é natural que assim seja.
O que não é natural é que esses interesses se sobreponham a todos os outros interesses e a todos os outros interessados. Com consequências desastrosas em termos de paisagem, biodiversidade, fertilidade dos solos, defesa florestal contra os incêndios e viabilidade futura de todo um território de vocação agro-florestal.
A questão é que isto é um país. E um país tem necessariamente de funcionar muito melhor.
Os sucessivos governos têm que compreender muito melhor as características, potencial e suscetibilidades das diferentes ocupações florestais e sua continuidade. Também, os sucessivos governos não têm tido sensibilidade, coragem e estratégia florestal/territorial, para promover, demonstrar e apoiar novas fileiras florestais e o modo de as colocar em prática. Desde logo, com vantagens evidentes para o proprietário. Ouvindo sempre os mesmos ou os mesmos discursos, incorporando sofisticados programas que tropeçam numa realidade que não tem nada de virtual nem de giratório.
Sim, porque se o proprietário continuar a pensar que um jogo de damas só possui quatro ou cinco peças em vez das 24, nunca vai conseguir compreender nem jogar devidamente esse desafio.
Sim, temos de nos desafiar a todos.
Sim, é possível termos uma floresta mais sustentável, mais resistente às chamas, mais rica em serviços, riqueza ambiental e biodiversidade, assim como economicamente mais viável.
Madeiras nobres, resinosas de folha miúda, frutos secos, frutos vermelhos, pastagens mais carne e queijo, cortiça, paisagem, entre outras valências; que na realidade terão que descontinuar estes territórios verdadeiramente, criando verdadeiras barreiras à progressão dos grandes incêndios.
Este é o desafio que temos para jogar. Teremos capacidade para o jogar?
Acredito que temos até capacidade para o vencer, se realmente soubermos aplicar o conhecimento e se tivermos a coragem para enfrentar os grandes lobbies.
O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico
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