A escritora e jornalista Slavenka Drakulic, uma das autoras croatas mais traduzidas no mundo e uma voz relevante contra o patriarcado e o nacionalismo, morreu neste sábado, aos 76 anos, noticiou a imprensa local. “Deixou-nos repentinamente”, diz o diário croata Jutarnji List, onde Slavenka Drakulic escrevia artigos.
A filha, Rujana Jeger, também escritora, agradeceu as condolências, numa mensagem publicada na sua página no Facebook, acompanhada de uma fotografia de quando era criança, com a mãe: “Recordá-la-ei assim, sorrindo.”
Foi publicada em Portugal em 2008 pela Pedra da Lua: as obras Não Faziam Mal a Uma Mosca e Como Sobrevivemos ao Comunismo sem Perder o Sentido de Humor.
Nascida em Rijeka, cidade portuária no norte da Croácia, em 1949, Slavenka Drakulic iniciou a sua carreira como escritora no final da década de 1970, após estudar literatura comparada e sociologia na Universidade de Zagreb.
Publicou o seu primeiro ensaio, Os pecados mortais do feminismo, em 1984, e três anos depois o seu primeiro romance, Hologramas do medo.
Foi uma das primeiras vozes a trazer a luta feminista para o debate público na antiga Jugoslávia.
No início da década de 1990, juntamente com outras quatro autoras — Jelena Lovric, Rada Ivekovic, Vesna Kesic e Dubravka Ugresic —, Slavenka Drakulic foi alvo de um ataque misógino e nacionalista. As cinco foram apelidadas de traidoras, num artigo intitulado Bruxas do rio, publicado no semanário Globus, de Zagreb.
Vivia entre a Suécia (Estocolmo) e a Croácia, seu país de origem, onde morreu, e tinha acabado de lançar um novo livro, Por que eu nunca aprendi a cozinhar, obra que cruza gastronomia e feminismo.
Com uma produção literária extensa, Slavenka Drakulic — cujas obras estão traduzidas para mais de vinte idiomas — aborda o comunismo e o fim do comunismo, a ascensão do nacionalismo e as guerras nos Balcãs, que se seguiram à dissolução da Jugoslávia.
A opressão das mulheres perpassa a sua obra: entre 1992 e 1994 visitou campos de refugiados na fronteira entre a Bósnia e a Croácia para conhecer as histórias de mulheres que tinham sido vítimas de violação em contexto de guerra.
Recentemente, ao lembrar a polémica gerada pelo seu ensaio Os pecados mortais do feminismo, publicado em 1984, Drakulic lamentou a lenta evolução dos direitos das mulheres na Croácia.
“Os temas são os mesmos, os problemas são os mesmos, a luta é a mesma. A violência contra as mulheres não diminui e os direitos reprodutivos voltam a estar ameaçados (…). O patriarcado é muito tenaz”, alertou a autora, que romantizou a vida de grandes mulheres, como a artista mexicana Frida Kahlo ou a matemática sérvia Milena Einstein.
Além de ter colaborado com vários órgãos de informação croatas, escreveu também para a imprensa internacional, como The New York Times, El Mundo, The Nation ou The Guardian.
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