Quando a História toma um copo na esplanada e as mulheres decidem voar

0
2

A tarde está quente e pede uma cervejinha. Pode até ser uma cerveja sem álcool desde que seja fresca. Platão chega primeiro, adiantado no tempo, escolhe a mesa do fundo, na sombra, enquanto espera pelos amigos prestes a chegar, os “bros”, os “maninhos” — não é que sejam irmãos, e também não é que goste propriamente de lhes chamar “maninhos”, mas parece que hoje em dia é assim que os jovens se tratam, e um homem de 2454 anos às vezes sente-se um bocado velho.

Senta-se confortavelmente na cadeira da esplanada, está-se bem, mas o que lhe apetecia mesmo era uma caverna climatizada, esta coisa dos verões cada vez mais quentes do mundo sensível não combinam com a barba longa, mas já falta pouco para os outros chegarem, uns aninhos e estão aí a rebentar: tendo em conta o longo tempo de Vida da Terra, a Humanidade passa-se num instantinho. De qualquer forma, Sócrates deve estar mesmo a aparecer. Folheia uma revista daquelas cor de rosa, “Problemas em encontrar a sua cara-metade?” — sorri orgulhoso, nunca imaginaria que a sua ideia resistisse a estes séculos todos. Pensa: “Realmente um tipo quando está inspirado…”

Ah lá vêm eles! Sócrates, e uns anitos depois Gutenberg aproxima-se com Da Vinci — mais dois barbudos —, e logo de seguida Copérnico — um fulano discreto, sempre de olhos postos no céu, com a cabeça nos astros, não gosta de ser o centro das atenções. Gutenberg puxa de uma cadeira, vem indisposto, ultimamente sente-se agoniado com a hipótese, mesmo que remota, de ter estado na origem das fake news. A ideia dá-lhe azia

— Pedimos umas canecas e isso resolve-se já! —, graceja Da Vinci enquanto acena na direção da Empregada, gosta mais de vinho de Milão, mas a cerveja vai ter de servir, e os restantes convivas já vão aparecendo… Shakespeare vem à conversa com o Padre António Vieira, os dois na amena cavaqueira:

— …Um homem pode pescar com o verme que se alimentou do corpo de um rei e, depois, comer o peixe que engoliu esse verme. Feitas as contas, um rei pode andar a passear na barriga de um mendigo.

— É verdade, meu amigo, os homens vêm a ser como os peixes, que se comem uns aos outros, e os grandes comem os pequenos… Mas o que ia agora mesmo eram uns jaquinzinhos fritos! —,- comentam enquanto puxam de uma cadeira para cada um e coçam a testa comparando as entradas salientes… — Ainda assim temos ambos a sorte de manter o cabelo na cabeça, e não no queixo, como Sócrates!

— Vamos lá cavalheiros! Que os homens não se medem aos pêlos…

Entretanto os restantes vão chegando. Descartes, Newton, Kant, Darwin, e claro os irmãos… Lumiére. O Einstein arranja sempre maneira de se atrasar, de dar voltas ao tempo, mas chegam outros tantos. Tantos!

— Está realmente um calor dos diabos, dá um certo mal estar! —,​ queixa-se Freud.

— Já se picava era qualquer coisa! —,​ diz Galileu, que faz sinal à Empregada que se aproxima a equilibrar os tabuleiros de cervejas, de comida, de restos, cascas do Passado, do Futuro, da mudança, sobre os tornozelos inchados, de saltos altos ou rasos, não dá para perceber, usa uma saia comprida porque não fica bem assim, no meio de tantos homens, na esplanada deixar as pernas à solta, lisas e polidas, como se fosse uma nave espacial pronta a zarpar.

— Já sabem o que vão querer?

— Canecas para todos!

— Menos para mim —, corrige Ghandi, delicado, — traga-me antes um Ice Tea! E uma travessa de caracóis para o meu amigo Martin Luther King.

Shakespeare paga a primeira rodada, só naquilo que ganhou em direitos de autor nos últimos quinhentos anos, deu-lhe para uma bela reforma.

— Esta cerveja é indubitavelmente melhor do que a de ontem —​, exclama Beethoven. Descartes, cogita… desconfia que hoje está mais calor e por isso a cerveja sabe melhor, mas ainda assim, levanta o copo: — Reuniu-se aqui uma malta porreira!

— Ainda te queixas dos grupos do WhatsApp! —, diz Twain dando uma cotovelada tosca, a meter-se com Dostoievski, que finge não entender a dica. Acha os grupos de WhatsApp um crime, as notificações um castigo!

Só faltam emojis cubistas! —, Rembrandt pica Picasso, que está na outra ponta da mesa, sentado ao lado de Kafka, distraído a olhar uma barata que faz surf numa casca de tremoço.

Um brinde a todos os que andam a inventar citações em nosso nome e a ganhar visualizações nas redes sociais! —, lança algum dos maninhos.

Tchim! Tchim! , copos ao alto, num brinde à História. À História que se escreve com “H” grande, t l como Homem se escreve com “H” grande. Mesmo quando é só um “h” minúsculo, e mesmo que o “h” seja mudo, na hora “H” o “h” está lá!

Vamos lá cavalheiros! Minúsculo ou maiúsculo, os homens não se medem aos palmos —, protesta Colombo, que lambe a espuma do bigode e espreguiça as pernas sobre a mesa.

Olha aí os pés… —, reclama Darwin Somos homens não somos uns primatas!

A Empregada revira os olhos… “homens!”. Pondera o que seria diferente se tivesse nascido “Hempregada”. A tarde faz-se longa na Esplanada da História, e as mesas enchem-se de homens, que ocupam as cadeiras, e se sentam à sombra dos chapéus, e jogam nos tabuleiros, bebem uns copos, e pedem mais uma porção.

Nas traseiras, a cozinha enche-se de mulheres minúsculas, que vão cozinhando petiscos, enchendo jarros, limpando gorduras, dando brasa ao lume, pondo água na fervura, cheias de olheiras, com os perigos debaixo de olho, o lume debaixo de olho, os filhos debaixo de olho. Os filhos que lhes puxam as saias, os saiotes, os aventais. “Vai brincar lá para fora!”, dizem aos rapazes. “Vai para a esplanada!”

Uma brisa levanta-se ao final da tarde, é o ar dos tempos, e as Empregadas vão despindo as fardas, as hipóteses, as tarefas, as obrigações. Alguma descalçam-se, aliviam os pés, que os séculos fazem calos, apertam os joanetes, e nunca mais se inventam calçado confortável para o conformismo, nada melhor do que descalçar os sapatos. Correm rumores de que a História está a mudar, que esta Era morreu, mas resta saber se morreu solteira como a culpa, ou se deixou testamento.

Enquanto a brisa se levanta, há uns clientes indiscretos que tentam espreitar para debaixo das saias.

Estava um calor impecável, mas agora a brisa sopra mais forte, o vento começa a levantar-se, mais intenso, e as nuvens estão em castelo, como as claras na cozinha, será que vem lá trovoada?

Brisa uma ova, é uma ventania, mesmo! Faz rolar os guardanapos, arrasta os copos, agita as barbas, arruma com os chapéus da esplanada, vira as mesas e os tabuleiros, e faz voar os sapatos, as cadeiras, o lugar da cozinha, e o lugar das Empregadas, que é como quem diz das Mulheres. E até as palavras nos menus voam, saltam letras do lugar, a reescrever a ementa. A esplanada num alvoroço.

Alguns clientes, embriagados de dúvida e espanto, ainda se agarram teimosos às cadeiras de plástico, recusam a reviravolta da História, muito menos da esplanada em si, a sombra daqueles chapéus estava mesmo a apontar para as suas cabeças, e as Mulheres a voar com as saias lá em cima, a girar como hélices ou astros, parecem muito maiores, algumas voam para fora das saias como naves espaciais, não tarda nada os rabos delas vão aterrar em cheio nas cadeiras onde eles estiveram sentados a tarde toda… Era só o que faltava!

Copérnico regista: “Para um observador desprevenido, até faria pensar que o mundo fica de pernas para o ar.” O que é assustador. Mas não é assustador. É só a esplanada a ficar desarrumada. É só o ar dos tempos.

Ainda bem que é só o desvario de um Narrador, neste caso, de uma Narradora.

Na realidade a História desarruma-se lentamente. As Empregadas empilham cadeiras e deixam a cozinha aberta para mais um prato, para mais um cliente que ainda chega tarde e a más horas a saber se ainda há qualquer coisinha para comer.

Costeleta de Provedor está a acabar, Sopa de Fada do Lar já não há…

A esplanada está ao poucos a mudar, a crescer. E há clientes a barafustar, a pedir o Livro de Reclamações. Pensam que não há lugar para todos, como no jogo das cadeiras, em que quem foi ao ar perdeu o lugar.

Mudam tudo mas não nos dão as orientações, as indicações, os modelos! Nem um pin no Google Maps!

Sempre que entra um personagem pela porta a reclamar ao balcão que o ar está pesado, que a História está a fazer batota, porque às Mulheres foi-lhes facultado o livro de instruções dos papéis de género (que elas entendem muito melhor porque estão habituadas a seguir receitas) mas que os homens estão perdidos, às voltas porque ninguém lhes explicou a coordenadas, as regras, os exemplos, os modelos a seguir para montar as novas cadeiras da esplanada, não consigo evitar reparar no bando cheio de talento, fama e virtudes sentado na mesa do fundo da esplanada. São uns quantos! Será que não são exemplares o suficiente?

Talvez o que faltem não sejam modelos de masculinidade. Exemplos é o que não falta. Talvez falte coragem. Coragem, honestidade e vontade. Talvez seja o que falta.


A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com