A maioria dos uzbeques é muçulmana e eu já disse ao meu marido para começar a rezar o terço, porque sempre quero ver se a religião deles é mais forte do que a nossa. Cá para mim não há Deus como o Nosso Senhor Todo-Poderoso, que manda nisto tudo e permite a existência dos outros deuses apenas por graça, pela ilusão da competitividade. Tem sentido de humor, caso contrário não punha o pessoal cá em baixo às turras uns com os outros só para se distrair do tédio de um paraíso sem sexo nem futebol na televisão.
Por isso, se perdermos o jogo contra os muçulmanos, a culpa não é d’Ele, é do meu marido que não rezou como devia, dele e dos outros maridos portugueses que agora se armam em sensíveis e já não parecem capazes de se bater pelo país nem pela selecção. A culpa é dos nossos homens, incapazes de ajudar as mulheres até nos momentos difíceis, aqueles em que é preciso fé e convicção. Porque é sempre mais fácil quando duas pessoas desejam a mesma coisa e, para ser sincera, tenho dúvidas de que o meu marido, desde que trabalha num cabeleireiro, continue a acreditar que o futebol pode ser a nossa salvação.
Tenho saudades da virilidade dele, sobretudo quando jogava Portugal — bem sei que não é o país que joga, mas os nossos jogadores — e ele gritava até se desunhar. Quando perdíamos chegou a ameaçar-me de porrada, o que, visto à distância, tinha uma espécie de entusiasmo quase patriótico, dava gosto vê-lo sofrer pela pátria daquela maneira. Agora não. Agora chora, pede desculpa e recolhe-se ao quarto para fazer tranças no cabelo. Diz que o relaxa. E eu, da sala, fico a pensar no que terá sido feito daquele homem que julgava que um golo aos noventa minutos era assunto de vida ou de morte.
Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com





