
Utki Yusupov será o guarda-redes responsável por parar, nesta terça-feira, os remates da selecção portuguesa — se a equipa conseguir enquadrar mais do que o único que somou no jogo de estreia. Aos 35 anos, o guardião do Uzbequistão é um poço de histórias.
Viajámos pelo site Championat.Asia, que escreve notícias do desporto local, e, no meio de traduções atabalhoadas, fomos dando com o nome de Yusupov e histórias umas atrás das outras.
Primeiro, dificilmente algum jogador português já se terá sacrificado tanto como este uzbeque para jogar pelo seu país. Em 2024, para um jogo da qualificação para o Mundial, teve de viajar 2400 quilómetros desde o Sudoeste do Irão até Ancara, na Turquia — havia espaço aéreo fechado na região iraniana.
Yusupov fez, por isso, umas intermináveis 26 horas de carro e só depois pôde apanhar um avião da Turquia para Tashkent, para disputar o Uzbequistão-Irão, que terminou 0-0.
Curiosamente, depois desse jogo o guarda-redes foi elogiado. O Foolad, clube iraniano onde jogava na altura, publicou nas redes sociais uma fotografia do jogador. O responsável pelas redes sociais do clube acabou… despedido.
Luvas de pedreiro
Yusupov nasceu em 1991, no Cazaquistão, e foi com cinco anos para o Uzbequistão. Ainda assim, só em 2017 conseguiu a cidadania uzbeque — e só em 2018 pôde jogar pela selecção.
Um detalhe curioso é que chegou a ser afastado de um clube uzbeque, o Nasaf, por ocupar uma vaga de estrangeiro — e já vivia no país há quase 20 anos.
Na adolescência, já depois de trocar a posição de médio-centro pela de guarda-redes, trabalhou numa loja e vendeu bolos. “Não tinha dinheiro para comprar luvas. Comprava luvas de pedreiro no mercado e usava duas camadas nos jogos”, contou.
Hoje, já com luvas em condições, consegue fazer a diferença. Tanto que já recebeu um T3 por conta disso. No jogo que garantiu a qualificação para o Mundial 2026, o Uzbequistão só precisava de um empate frente aos Emirados Árabes Unidos. A partida ficou 0-0, também porque Yusupov conseguiu fazer uma defesa fulcral já nos minutos finais.
Depois do jogo, entrou em cena Khurshid Turaev, dono de uma construtora local. “Em meu nome e da minha empresa, estou a oferecer uma casa de três quartos, renovada, mobilada e equipada, no centro de Tashkent, ao guarda-redes da selecção nacional do Uzbequistão, Otkir Yusupov. Ele pode vir buscar este presente a qualquer momento”.
Foi Materazzi
Mas nem tudo tem sido fácil e, no Uzbequistão, Yusupov tem alguma fama de ser conflituoso. Em 2022, em pleno relvado, envolveu-se numa cena de pancadaria com um adepto do Pakhtakor, equipa adversária. E foi castigado.
Dois anos antes também já tinha estado na berlinda, quanto levou uma cabeçada num jogo frente ao Lokomotiv Tashkent. Nivaldo, jogador brasileiro, explicou o motivo para ter querido fazer de Zidane, transformando Yusupov no seu Materazzi.
“O Yusupov insultou-me e chamou-me ‘macaco’ e ‘negro’. Não me consegui controlar e dei-lhe uma cabeçada. Perdi a cabeça, admito. Ele gritou todo o tipo de palavrão. Yusupov sabe o que disse e eu sei o que ouvi”, explicou.
O guarda-redes veio, nessa altura, a público negar as acusações: “Eu não insultei o Nivaldo com palavras como ‘macaco’ ou qualquer coisa do tipo. Não sou racista”.
A verdade talvez fique para sempre entre os dois jogadores e não há informações sobre se Yusupov insultou de boca tapada — seria um bom detalhe para enquadrar a “Lei Prestianni” deste Mundial.
Até ver, Yusupov não insultou ninguém neste Mundial. Pelo contrário, poderá até ter sido celebrado pelos colombianos. No golo de Luis Díaz, o guarda-redes acabou por ser mal batido, com a bola a passar-lhe por entre as luvas.
Frente a Portugal, não terá de lidar com o extremo do Bayern Munique. E, caso a selecção portuguesa mantenha o nível mostrado diante da República Democrática do Congo, não terá sequer de lidar com grande coisa. E se houver penáltis ele é bem capaz de dar conta do recado: defendeu dois na qualificação para este Mundial.
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