Sempre que surge uma nova tecnologia ouvimos a mesma promessa: desaparecem alguns empregos, mas outros surgem para os substituir. Foi assim com a mecanização, com a eletrificação e com os computadores. No longo prazo, a história parece confirmar esta narrativa.
Mas talvez desta vez seja diferente.
Até agora, as máquinas substituíam sobretudo trabalho físico. A inteligência artificial começa a substituir trabalho intelectual, ameaçando tarefas que até há pouco tempo acreditávamos protegidas, como as ligadas à educação e à criatividade. Alguns autores, como Yuval Noah Harari, têm alertado que desta vez a eliminação de empregos pode não ser compensada pela criação de novos à mesma escala e velocidade, dando origem a uma possível “classe inútil”, excluída do ciclo de emprego.
Em contraponto, tem ganho força um discurso otimista sobre o futuro. Entre os seus defensores estão Aaron Bastani, bem como Nick Srnicek e Alex Williams, que imaginam um mundo de abundância, onde a automação poderia potenciar a produtividade e reduzir drasticamente a necessidade de trabalho humano. Nesse cenário, muitos bens e serviços tornar-se-iam mais acessíveis, libertando tempo e abrindo espaço a novas formas de organização económica e social. Para isso, apontam frequentemente para novos modelos institucionais, como a taxação da automação ou a criação de um rendimento básico universal.
O problema é que essa visão raramente passa do discurso.
Quando grandes empresas anunciam ganhos de eficiência graças à inteligência artificial, a consequência tende a ser simples: despedimentos. É compreensível do ponto de vista empresarial. Mas revela uma contradição curiosa.
Se a inteligência artificial permite manter — ou até aumentar — a produtividade com menos trabalho humano, porque não experimentar outra solução? Em vez de despedir mil pessoas, como temos visto acontecer nas últimas semanas em várias empresas tecnológicas, porque não testar uma redução da semana de trabalho — de cinco para quatro, ou até para três dias? Seria uma forma concreta de transformar produtividade tecnológica em tempo livre, precisamente a promessa que tantas vezes se anuncia.
Seria também um teste real à utopia.
Mas quase ninguém parece interessado em fazê-lo — nem empresas nem governos. A imaginação tecnológica avança a grande velocidade; a imaginação política, muito menos.
Falta-nos, na forma como organizamos a economia e a vida coletiva, algo que em muitas disciplinas ligadas ao projeto é banal: imaginar alternativas antes de existirem e projetar sistemas capazes de as materializar. Nas discussões sobre inteligência artificial, por vezes parece faltar precisamente esse exercício de desenho coletivo.
Em vez de perguntar como travar — ou procurar proibir — estas tecnologias, talvez devêssemos perguntar antes como usá-las melhor — a nosso favor. Como escreveu Douglas Rushkoff, perante as tecnologias digitais temos sempre duas opções: programar ou ser programados.
Talvez o verdadeiro desafio da inteligência artificial não seja tecnológico. As máquinas estão a avançar rapidamente; a nossa capacidade de imaginar novas formas de organização económica e social, muito menos. Paradoxalmente, a própria inteligência artificial pode ajudar nesse exercício — não substituindo o pensamento humano, mas acelerando a nossa capacidade de imaginar e implementar futuros possíveis.
No fundo, o problema nunca foi a tecnologia.
É sempre o que decidimos fazer com ela.
As tecnologias capazes de produzir mais abundância podem finalmente estar a chegar.
O curioso é que ninguém as quer experimentar.
O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
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