Gostos não se discutem e Bad Bunny não é para todos. Não interessa. Vamos a factos: o artista porto-riquenho que actuou na noite de domingo no intervalo da Super Bowl, a final do campeonato de futebol americano, foi o mais escutado a nível mundial em 2025 na plataforma de streaming Spotify. O seu álbum mais recente, Debí Tirar Mas Fotos, conquistou três prémios Grammy, sendo o primeiro disco totalmente em espanhol a ser distinguido com o principal troféu da indústria musical norte-americana.
Benito Antonio Martínez Ocasio (o seu verdadeiro nome) consegue o feito de ser popular e de ser apreciado pela crítica. Conquistou, portanto, o seu lugar num dos maiores palcos mundiais do entretenimento. Não esteve lá para preencher qualquer quota.
Outro facto: o Porto Rico de Bad Bunny é um território norte-americano, e portanto Martínez Ocasio é um cidadão dos Estados Unidos. Porquê referi-lo? Porque houve muitos norte-americanos a questionar a sua presença no mais norte-americano dos espectáculos.
Um deles foi Donald Trump, que considerou a actuação “uma afronta à grandeza dos Estados Unidos” e uma “chapada na cara do país”, e que se queixou que “ninguém conseguia compreender uma palavra que este tipo dizia”. Bad Bunny cantou em espanhol.
Outro republicano, o congressista Andy Ogles, do Tennessee, exigiu ao Congresso que investigue e puna o artista e as emissoras televisivas por uma performance que “glorificou abertamente a sodomia e outras depravações indizíveis”.
“A cultura americana não pode ser ridicularizada ou corrompida sem consequências”, afirmou.
O campo republicano, que passou a última década a denunciar uma suposta ditadura do politicamente correcto, impõe agora uma ditadura do gosto. Mas a questão é mais profunda.
Os Estados Unidos vão assinalar a 4 de Julho o 250.º aniversário da sua declaração de independência e Donald Trump pretende utilizar a efeméride para continuar impor a sua visão do país: branco, cristão e anglófono. Uma América sem lugar para as outras Américas que existem, a hispânica, a negra, a nativa, e que somadas perfazem os Estados Unidos.
Essa ofensiva é mais que simbólica. O país não tinha um idioma oficial até Março de 2025, quando Trump assinou um decreto a oficializar o inglês como língua nacional e a rescindir uma ordem em vigor desde a era Clinton para que os serviços públicos prestassem informações noutras idiomas quando se justificasse, nomeadamente em espanhol.
Um em cada cinco norte-americanos, quase 70 milhões, são hispânicos. É contudo perigoso falar espanhol nos Estados Unidos da segunda era Trump. Fazê-lo, ou mesmo falar inglês um qualquer sotaque hispânico, é neste momento considerado pelo Supremo Tribunal como um motivo razoável para que a polícia federal de imigração possa abordar e deter alguém por suspeita de imigração ilegal. Dito por outras palavras: um hispânico é estrangeiro até prova em contrário. Mais de uma centena de cidadãos norte-americanos foram detidos pelo ICE no último ano até que pudessem comprovar a sua nacionalidade.
Em espanhol, precisamente, Bad Bunny interpretou no Super Bowl uma das outras Américas que não a América prescrita por Trump. A América hispânica dos meninos que dormem estendidos sobre um par de cadeiras enquanto os pais dançam em festas de família até altas horas. A América que ficou sem luz durante meses após um furacão. A América que mantém os seus laços afectivos e culturais com cubanos, colombianos ou mexicanos. Gostos à parte, cantá-la é neste momento um acto de resistência.
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