Foram 48 horas de privação de sono, mas quando o código que se escreve carrega o peso de uma história familiar, o cansaço torna-se relativo. Rita Barbosa, a engenheira informática portuguesa de 24 anos que venceu no final de Janeiro o Cursor AI Hackathon, em Hamburgo, descreve a experiência com clareza: “Quando se trabalha em algo que nos toca pessoalmente, a intensidade transforma-se em combustível, não em peso”, conta a jovem, em declarações ao PÚBLICO.
O projecto vencedor, denominado “Guardião”, superou mais de 400 participantes e uma concorrência de elite internacional, mas o momento decisivo não foi técnico. Foi humano. Durante a apresentação, Rita percebeu que a audiência não estava apenas a validar a arquitectura do software. “Percebi que não estavam a avaliar apenas código, mas estavam a reconhecer um problema que também era deles”, recorda a engenheira. “Quase toda a gente tem uma avó, um tio, alguém vulnerável.”
Tecnologia que nasce da empatia
A génese do Guardião é uma resposta directa a um episódio traumático: a avó de Rita foi vítima de uma burla telefónica. O impacto foi devastador, não apenas financeiramente, mas psicologicamente. “Vi uma mulher que passou a vida a cuidar de todos sentir-se pequena por causa de uma chamada”, lamenta Rita Barbosa. Foi essa imagem que ditou as regras do desenvolvimento: “A arquitectura nasce da experiência, não de um manual.”
Ao contrário de outras soluções de segurança móvel que se limitam a alertar o utilizador para um possível spam, obrigando-o a tomar uma decisão, o Guardião actua de forma preventiva. A aplicação utiliza inteligência artificial para analisar chamadas em tempo real e, se detectar padrões de manipulação ou urgência artificial, bloqueia a comunicação antes de o telemóvel tocar.
“A maioria das soluções no mercado avisa o utilizador (…) ou seja, transfere a responsabilidade para quem está menos preparado para decidir”, explica a criadora. Para Rita, a prioridade era não perturbar a rotina dos mais velhos: “Os idosos não querem sentir-se vigiados, querem sentir-se seguros.”
O desafio dos telemóveis antigos
Um dos maiores obstáculos técnicos que a equipa enfrenta é a realidade tecnológica dos utilizadores-alvo. Muitos idosos não possuem dispositivos de última geração, o que obrigou a uma optimização rigorosa do software. “Se quero proteger idosos, tenho de assumir o oposto [dos avanços da IA]: dispositivos com menos memória, processadores mais lentos, software desactualizado», detalha a jovem engenheira.
Além da performance, a privacidade é inegociável. Todo o processamento é feito localmente no dispositivo, garantindo que nenhuma conversa sai do telemóvel para servidores externos. “A minha avó era uma pessoa reservada. Não ia aceitar que as conversas dela fossem para servidores de empresas”, sublinha.
Esta sensibilidade local estende-se à própria inteligência do sistema. Rita nota que “as burlas em Portugal não são iguais às da Alemanha ou dos Estados Unidos”, pois “usam tácticas diferentes” e “apelam a medos diferentes”. O Guardião está, por isso, a ser treinado para reconhecer as nuances culturais e linguísticas das fraudes portuguesas.
Do xadrez à cibersegurança
Antiga campeã nacional de xadrez aos oito anos, Rita vê paralelos entre o tabuleiro e a programação, mas com ressalvas importantes. O xadrez ensinou-a a “pensar dois passos à frente” e a manter a calma, mas a realidade do crime digital é mais caótica. “No xadrez, o adversário joga segundo regras conhecidas. Na burla, não”, observa. “Os vigaristas são criativos, imprevisíveis.”
Com um prémio de 70 mil dólares (cerca de 65 mil euros) e o apoio de créditos tecnológicos de gigantes como a Google e a OpenAI, o foco agora é transformar o protótipo num produto robusto. Embora admita que as operadoras de telecomunicações seriam uma “parceria natural”, Rita é crítica quanto à inércia do sector: “Até agora, a indústria tem feito pouco para defender os mais vulneráveis.”
“Gostaria muito que as operadoras portuguesas se interessassem por este problema. Se isso acontecer, óptimo (…). Se não acontecer, avanço na mesma”, garante.
Regressar para proteger
Apesar de estar a frequentar um mestrado e de colaborar com o Hospital Universitário de Hamburgo, o futuro de Rita Barbosa passa por Portugal. A engenheira é peremptória quanto aos seus objectivos: “Não estou a construir o Guardião para ficar na Alemanha a ver Portugal de longe.”
A constituição de uma empresa e de uma equipa técnica servem um propósito maior do que o sucesso comercial. “A empresa é um meio, não um fim. O fim é que nenhuma família passe pelo que a minha passou”, afirma. Por isso, o recrutamento é selectivo: “Quem trabalhar no Guardião tem de perceber que não é só um produto, mas também é uma causa.”
O plano passa por lançar um projecto-piloto controlado, já no final deste mês de Fevereiro, testando a aplicação em ambiente real com cerca de 100 utilizadores, antes de um lançamento público mais alargado.
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