É tempo de reflectirmos sobre o ambiente hoje vivido nas universidades. Não se trata, bem entendido, de esconjurar ou diabolizar a competição, que atravessa a história da humanidade e que pode ser vista em todas as esferas da vida humana. As universidades, enquanto refletem o ambiente geral do contexto que as acolhe, não podem naturalmente alhear-se duma realidade que também as define.
Mas também não podem espelhar simplesmente o estado de natureza hobbesiano do homo homini lupus, expressão que exprime a condição predatória e egoísta dos sujeitos humanos, lançados numa visceral guerra de todos contra todos. Elas têm a obrigação estrita de conter esta realidade, não para impor o modelo contrário de inspiração rousseauniana, em que subitamente nos descobrimos guiados por instintos de autopreservação e de compaixão, mas para construir um espaço de relação que seja compatível com os seus pergaminhos de instituição intrinsecamente cultural.
É isso, na verdade, que é fundamentalmente uma universidade: uma instituição intrinsecamente cultural. Tal significa, no essencial, que é na ideia e no conceito de “cultura” que as opções de fundo da instituição “universidade” foram forjadas, e que na ausência desse quadro conceptual de referência teríamos não universidades, mas simulacros institucionais de universidade.
É nesse sentido, aliás, que deve ser lido o desiderato que está plasmado na esmagadora maioria dos estatutos das universidades, mas que raramente ultrapassa a letra dos respectivos preceitos: a aposta tanto na robustez técnico-científica dos estudantes quanto no seu crescimento intelectual, cívico e humano.
O novo paradigma que assim se anuncia requer instituições capazes de promover as virtudes da cooperação, a única garantia efectiva de que os excessos da própria competição não serão normalizados. Não se trata de exigir a eliminação da competição académica com o argumento de que ela produz excessos, como não se trata de abolir a circulação automóvel argumentando que ela causa fatalidades. Trata-se, isso sim, de sublimá-la, de expurgá-la dos seus excessos, fazendo assim valer o direito das universidades enquanto instituições intrinsecamente culturais.
Para tanto, precisaremos de novos instrumentos, a partir dos quais essa realidade que hoje ainda nos escapa possa vir a ser constituída e efectivada. Instrumentos que permitam diluir ou esbater tensões, criar tecido conectivo, estimular o potencial de concretização associado à identificação de propósitos partilhados, descobrir, em síntese, um “senso comum” que faça jus à sua significação de “sentir ou pulsar comunitário”, que é verdadeiramente a cerzidura de qualquer comunidade que se preze.
Temos, assim, de sair do enquistamento e do ensimesmamento gerados pela competição. No congresso de Novembro de 2025, a Associação Internacional dos Pesquisadores das Culturas (InterCult) e a Universidade do Porto fizeram aprovar um “Manifesto pela Gentileza”. Constatando que a violência, nas suas diversas e pérfidas manifestações, tem vindo a invadir paulatinamente o espaço da universidade — o qual, em vez de se afirmar como lugar de resistência às disputas de diversa ordem que dominam a vida colectiva, se tem antes caracterizado pela internalização dessas contendas —, o Manifesto pretende fazer da gentileza que lhe dá nome um gesto de aproximação aos outros.
Uma aproximação na base da qual sejam promovidos o respeito, a empatia e a educação nas relações humanas, que seja a percursora de uma transformação real da vida comunitária e social. A universidade tem aqui mais uma vez a responsabilidade de liderar pelo exemplo, adoptando um modus vivendi que possa ecoar para lá da academia, inscrevendo-se profundamente no tecido vivo da sociedade.
Saibamos todos estar à altura dessa responsabilidade.
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