Sandro William Junqueira (texto) e Rachel Caiano (ilustração) assinam em conjunto mais um livro que dá que pensar e que dançar. Depois de Roda-Viva – A Menina e o Círculo, surge Quebra-Cabeças.
“O livro nasce de um convite da Cláudia Nóvoa para escrever um texto que serviria de tapete de um espectáculo de dança”, diz o escritor ao PÚBLICO. “É um projecto multidisciplinar (tal como o Roda-Viva…) e que se desdobra em várias linguagens. Tendo como ponto de partida o espectáculo, desdobra-se em livro, oficina de desenho e movimento e exposição”, descreve a ilustradora.
Assim começa o livro: “A cabeça é um lugar único. Individual, particular. Aberto e fechado. Elástico e preso. Como tudo o que acontece no meu quarto. Cada cabeça tem um mundo dentro. Individual, particular. Mas com muita mobília.”
Sandro William Junqueira não quis que fosse um livro narrativo, mas “um livro-sobressalto” e explica: “A nossa cabeça é um lugar muito desarrumado, o mundo é um lugar muito desarrumado. E este Quebra-Cabeças é essa tentativa, muitas vezes falhada, de tentar organizar algumas coisas do mundo interior para tentar alcançar algo do mundo exterior.”
O desejo de entrar na cabeça de Einstein
A dada altura, lê-se: “A cada cabeça o seu planeta. Porque cada cabeça é um universo infinito de possibilidades. Por exemplo: a cabeça do Basquiat era diferente da cabeça do Einstein. E as cabeças do Basquiat e do Einstein são diferentes da minha. Eu gostava de poder entrar nas cabeças do Basquiat e do Einstein e da minha mãe às vezes.”
Rachel Caiano
O texto foi sendo construído a partir dos ensaios da peça de Cláudia Nóvoa, com o nome igual ao do livro, e em que Rachel Caiano participa também como intérprete. Neste sábado, às 11h00, há uma oficina para famílias a partir do livro, na Casa do Jardim da Estrela (Lisboa).
Diz Sandro: “Sabia que seria uma coisa urbana. E a ideia sempre foi ter dois objectos artísticos distintos. Por um lado, o espectáculo. Do outro, o livro.”
Diz Rachel: “A linguagem gráfica que foi sendo explorada para o espectáculo e nos ensaios acabou por contaminar o livro. É uma linguagem muito urbana, inspirada no Basquiat, nos graffiti, na banda desenhada. Uma viagem para dentro das nossas cabeças. O nosso pensamento é pouco linear, por vezes confuso e desarrumado.”
DR
Por entre a inescapável desarrumação das nossas cabeças (“a minha cabeça é uma salgalhada”), pode dar-se espaço e tempo para o tédio ou a contemplação (“tentar tornar a cabeça um lugar vazio e silencioso”, “admirar a paisagem apenas pelo que ela é”). Ou seja, olhar o mundo de “forma limpa, sem que nada passe pela cabeça”.
Rachel Caiano
Continua o escritor, no mail enviado ao PÚBLICO: “Não é possível sair da nossa cabeça. Não é possível entrarmos na cabeça do outro. Acho que é um livro que fala dessa impossibilidade. Por isso, a certo momento pergunto: vocês não estão a perceber nada, pois não? Nós sofremos muito com esta pressão de tentar compreender tudo… quando não é possível.”
Para Rachel Caiano, o livro é “uma procura, sem certezas” e conta como as ilustrações acabaram por reflectir “a energia da busca”, para o que utilizou diferentes técnicas e materiais, “desde a colagem ao desenho, da aguarela ao pastel de óleo”. Resultam bem. Nalgumas páginas, pelas formas e cores, revisitamos mesmo Basquiat.
Sobre o formato, um pequeno quadrado que cabe na palma da mão, diz a ilustradora, que tem formação em artes cénicas: “Partiu da ideia de jogo e da ideia de que transportamos connosco coisas especiais e que por vezes são pequenas, por vezes são invisíveis. Podemos guardá-las para que fiquem escondidas.”
Também remete para um outro livro que fez com o mesmo autor (também ele actor e encenador), A Grande Viagem do Pequeno Mi, ainda antes do Roda-Viva, ambos com formato idêntico, rectangular, mas um é horizontal e o outro, vertical: “Sobrepondo os dois, encontramos um pequeno quadrado. Esse pequeno quadrado é o tamanho deste novo Quebra-Cabeças. Também as cores são a intercepção das cores usadas nos dois livros anteriores.” Roda-Viva – A Menina e o Círculo (Editorial Caminho) foi um dos títulos seleccionados pelo Observatório de Leitura de Pombal em 2023.
Sandro William Junqueira termina o seu pensamento dizendo: “A nossa cabeça é, tal como o mundo, um quebra-cabeças à espera de ser resolvido.” Mas, como se sugere também no livro, não vale a pena matarmos… a cabeça com isso.
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