A doença mental colectiva e a uberização da sociedade

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No tempo em que a História foi substituída por uma sucessão de eventos (o evento, esse vocábulo anglófono, responde por uma característica de ordem compartimental, do mesmo modo que a tendência, mas numa escala minúscula), tal como postula Bauman em Estado de Crise, um perigo maior advém de, no mundo globalizante em que vivemos, as mudanças não traduzirem uma dinâmica global, mas recuperarem o antigo alcance local e individual, só que numa íntima interacção cada vez menos tipificada (aliás, a tipificação tornou-se a maior das “fragilidades” e é das dores de cabeça das ciências sociais modernas). A dicotomia local/global de meados do século XX, a que Benedict Anderson ou Claudio Guillén aludiram, sob pressupostos teóricos distintos, parecia ter encontrado na realidade das novas comunidades globais a sua síntese. Mas não. Se é somente nas questões locais, quando não nas interpessoais e individuais, que a nossa acção se constitui um acto distintivo, também é certo que a História individualizada suprime a formulação de teorias sociais.

Há dias, metido num veículo de serviço Uber, apercebi-me do catálogo de modalidades itinerantes. Seguia, aliás, moderadamente irregular ao lado do motorista, dado ter solicitado o plano Share para dois. Com muita bonomia, como é própria das gentes do Porto, o Sr. Manuel – o motorista – lá me foi explicando o cardápio, numa cavaqueira que teve notas de surrealismo. O seu veículo eléctrico, por exemplo, poderia servir os que requerem uma corrida dita normal; também os que preferem viagens silenciosas em veículos sem combustão (ainda que para isso haja a Ubergreen, mais esverdeada ainda, eco-amiga e musgosa); os que não se importam de partilhar a viagem e conciliar as ancas, mas poupando uns trocos; e, finalmente, a modalidade Black, isto é, não apenas o serviço premium com todo o seu aparato (desde corridas de negócios com contratos firmados nos estofos, jantar à la carte, playlists musicais, temperaturas de SPA, benefícios electivos de motoristas conversadores, silenciosos, discretos, intelectuais e falsos proletários; os Monty Python saíam-se com aquela do leitor literário escondido no vão de escada das famosas terraced houses), mas ainda a dos que pagam mais para terem uma corrida mais “pobre”, numa experiência semelhante à do cidadão comum. Recordei-me de, quando novo, ter lido algo sobre alguém que não sabia o que era a fome, por, em toda a sua existência, jamais ter experimentado o fenómeno de privação fisiológica.

Ora aí estava a teoria da Comporta, como no-la ensinou Cristina Espírito Santo, faz já uns anitos: vamos brincar aos pobrezinhos? Pois é: segundo o Sr. Manuel, a gente do graveto (da pasta, como se diz no Norte) tem destes caprichos, a evocação do ascetismo, a propensão para a exaltação do espectáculo deslumbrante que é o de sentir na pele a pele do outro, do que tem uma vida precária ou, no jargão mais piedoso, remediada. A ética do reconhecimento.

Terei nessa altura questionado o Sr. Manuel sobre se não haveria a modalidade Safari, em que o veículo se veria confrontado com depressões no asfalto e leões no passeio, enquanto um elefante atravessaria em pujante respeitabilidade a passadeira. Para não falar na modalidade Redlight, nocturna, é claro, como convém aos entusiastas da grande farra. A nossa corrida estava perto do fim, a desaguar precisamente à Foz, ali ao Jardim do Passeio Alegre, até porque há quem diga que o melhor Uber são as nossas pernas.

Este Sr. Manuel não é o taxista português do Luís Sepúlveda, mas quase. Se calhar, bem melhor, pois é o meu. Com efeito, levou-me a pensar que a aldeia global de McLuhan (ou mesmo o fenómeno das “pessoas mobilizadas”, as dos populismos) marcha rumo ao grande sanatório, onde cada louco se verá cada vez mais sozinho na sua fantasia e dando corda ao seu próprio evento. Se bem que isso foi o que, hélas, fizemos, na idade de ouro da nossa infância.

Ainda assim, tudo isto é menos perverso do que o que Nick Land propõe para os próximos tempos: substituir os humanos, obsoletos, por superinteligência artificial. É nesta altura que um passeio pelo Choupal é o melhor que pode haver. E também um travelling ascendente de Tarkovsky. E o andante do Concerto para Piano n.º 2 do Chostakovich. E o Sr. Manuel a galhofar a meu lado. E o silêncio. E o mar. E uma mãe em qualquer parte do mundo a segurar o seu bebé.

Ainda não é o fim da História, penso eu. Entre azia e mal de vivre, haverá mais que contar. E o Choupal sobreviveu ao assédio do Mondego, essa é que é essa.

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