Vivemos numa época estranha. Nunca tivemos tantos números à nossa disposição e, ainda assim, raramente os usamos para decidir melhor.
Medimos tudo: passos, calorias, produtividade, risco, impacto, e desempenho. Avaliamos escolas, hospitais, professores, empresas, e cidades. Temos rankings para quase tudo e dashboards para o resto. No entanto, quando chega o momento de escolher – em quem votar, que política apoiar, que serviço usar, ou que decisão pública aceitar – voltamos quase sempre ao mesmo lugar de sempre: a intuição, o hábito, e a emoção.
Não é necessariamente um problema. A intuição é uma ferramenta poderosa, moldada pela experiência e pelo contexto. O problema surge quando fingimos que decidimos com base em dados, mas apenas os usamos para justificar escolhas que já estavam feitas. Chamamos-lhe “evidência”, mas muitas vezes é apenas decoração.
Os números tornaram-se omnipresentes, mas também opacos. Para a maioria das pessoas, não são instrumentos de compreensão, mas símbolos de autoridade. Diz-se que algo é “baseado em dados” como quem diz que é inevitável, incontestável, e tecnicamente neutro. Ora, números não decidem nada por si. Alguém escolhe o que medir, como medir, o que comparar, e o que ignorar. Toda a métrica transporta valores, mesmo quando se apresenta como objectiva.
Talvez por isso desconfiemos tanto deles. Não porque sejam frios ou desumanos, mas porque muitas vezes chegam tarde, mal explicados, ou usados para impor decisões em vez de as esclarecer. Quando os números aparecem apenas no fim da conversa, deixam de ser ferramentas de diálogo e passam a ser armas de retórica.
Curiosamente, isto acontece numa altura em que se exige cada vez mais “decisões informadas”. Fala-se de literacia de dados, de inteligência artificial, e de políticas baseadas em evidência, mas raramente se fala do essencial: a capacidade de interpretar números no contexto da vida real, com todas as suas imperfeições e dilemas.
Decidir com dados não é substituir o julgamento humano — é torná-lo mais responsável. Exige tempo, humildade e, sobretudo, vontade de aceitar resultados desconfortáveis. Exige reconhecer que a métrica certa pode contrariar a narrativa preferida, e isso nem sempre é conveniente.
Talvez o verdadeiro paradoxo do nosso tempo seja este: nunca tivemos tanta informação, mas continuamos a decidir como se não a tivéssemos. Não por falta de números, mas por falta de confiança – neles e em nós próprios para os usar.
Enquanto tratarmos as métricas como verdades finais ou como ruído descartável, continuaremos presos entre dois extremos igualmente estéreis: a tecnocracia sem pessoas e a opinião sem evidência. Entre ambos, há um espaço mais difícil (e mais honesto) onde os números não mandam, mas ajudam. É aí que as boas decisões costumam morar.
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